Pelo menos três pessoas morreram no Estado de São Paulo em decorrência dos ventos fortes que atingiram a região na quarta-feira (29). A Defesa Civil estadual confirmou os óbitos e registrou rajadas de até 124,9 km/h em municípios do interior e do litoral paulista. O fenômeno, conhecido como frente de rajada, avançou do interior em direção ao litoral e também alcançou áreas do Rio de Janeiro.
De acordo com o meteorologista César Soares, da Climatempo, uma nova frente de rajada pode se formar no Centro-Sul do Brasil na sexta-feira (7). Os modelos analisados até agora indicam rajadas acima de 80 km/h na Região Sul e de 70 km/h no Sudeste, mas a previsão ainda pode mudar com as atualizações dos próximos dias.
O que é uma frente de rajada?
A frente de rajada é uma faixa de ventos fortes que se desloca à frente de uma frente fria ou de uma área de tempestade. Ela se forma quando o ar mais frio e denso avança próximo ao solo e empurra rapidamente o ar quente que estava sobre a região. Esse movimento funciona como uma espécie de onda de ar que se espalha horizontalmente pela superfície.
Por isso, as rajadas podem chegar de forma repentina e atingir várias cidades em sequência, mesmo em pontos onde a chuva ainda não começou ou ocorre com pouca intensidade. No caso de quarta-feira, a ventania avançou do interior em direção ao litoral de São Paulo e depois alcançou áreas do Rio de Janeiro, com velocidades muito acima das rajadas normalmente registradas durante a passagem de uma frente fria.
Fatores que favorecem a ventania
Segundo César Soares, três fatores podem favorecer a nova frente de rajada: o calor e o ar seco que devem se intensificar no Centro-Oeste e em parte do Sudeste; a formação de um ciclone extratropical e de uma frente fria no Sul; e o encontro do ar mais frio e úmido com a massa de ar quente e seco.
“Esse contraste entre duas massas de ar de propriedades muito diferentes favoreceu a formação de ventos muito intensos. Na meteorologia, chamamos isso de frente de rajada”, afirma Soares. O fenômeno pode ocorrer durante o avanço de uma frente fria associada à formação de um ciclone extratropical, que juntos devem levar ar mais frio e úmido para uma área sob influência de uma massa de ar quente e seco.
Rajadas acima de 120 km/h
No caso de quarta-feira, a intensidade observada superou 120 km/h em alguns municípios paulistas. Segundo a Defesa Civil estadual, as rajadas chegaram a: 124,9 km/h em Itaí e Itaporanga; 117 km/h em Taquarituba; 113 km/h em Paranapanema; 111 km/h em Itanhaém; e 104,8 km/h em Itaberá. Os maiores valores foram registrados principalmente na região de Itapetininga e em áreas do litoral paulista.
O principal fator foi o contraste muito acentuado entre o ar quente e seco que estava sobre o Sudeste e o ar frio e úmido que chegou com o sistema. Quanto maior a diferença entre as duas massas de ar, mais intensa pode ser a reação da atmosfera. O ar frio é mais denso e tende a avançar por baixo do ar quente, acelerando o vento próximo à superfície. A velocidade também foi favorecida pelo deslocamento rápido do sistema: em poucas horas, a frente fria saiu do Sul, atravessou áreas do Paraná e de São Paulo e chegou ao litoral do Sudeste.
Queda brusca de temperatura
Além da força das rajadas, a passagem da frente de rajada também provocou uma redução rápida da temperatura. Em alguns pontos da Região Metropolitana de São Paulo, os termômetros passaram de cerca de 29°C para 20°C ou 21°C em aproximadamente uma hora. A queda ocorreu porque o ar quente que estava próximo à superfície foi rapidamente substituído pelo ar mais frio trazido pela frente.
Essa mudança repentina é uma das características que podem acompanhar a passagem de uma frente de rajada. O vento também pode mudar de direção em poucos minutos: antes da chegada do sistema, costuma predominar o fluxo de ar mais quente; depois da passagem, os ventos passam a transportar o ar mais frio.
Diferença entre frente de rajada e tornado
A frente de rajada não é um tornado. No tornado, o vento gira em torno de um eixo e atinge uma faixa geralmente mais estreita. Na frente de rajada, os ventos se espalham de maneira mais horizontal e podem afetar uma área muito mais ampla. Também não é necessário que haja chuva forte exatamente no ponto atingido; em alguns casos, a rajada chega antes da precipitação ou avança para regiões onde chove pouco.
A frente fria que atingiu o Sudeste foi a mesma que provocou temporais e estragos no Sul do país. No Rio Grande do Sul, o sistema encontrou uma atmosfera quente e úmida, condição que favoreceu a formação de tempestades severas. Uma dessas tempestades deu origem ao tornado que atingiu Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho na terça-feira (28). Apesar de estarem associados à passagem da mesma frente fria, o tornado no Rio Grande do Sul e a frente de rajada no Sudeste são fenômenos diferentes.
A principal diferença está na forma e na extensão dos ventos: o tornado é uma coluna de ar em rotação que toca o solo; a frente de rajada é uma linha de ventos que se espalha horizontalmente; o tornado costuma atingir uma faixa mais estreita; a frente de rajada pode alcançar diversas cidades. Não houve indicação de tornado nas áreas de São Paulo e do Rio de Janeiro atingidas pelas rajadas mais intensas; os danos no Sudeste foram provocados principalmente pela velocidade dos ventos associados à frente de rajada e pela grande área atingida.
Ao longo da semana, os modelos meteorológicos serão atualizados e podem indicar ventos ainda mais intensos ou reduzir a área de risco. A Defesa Civil recomenda atenção redobrada, especialmente em áreas vulneráveis a queda de árvores e destelhamentos.



