No próximo dia 26, a Igreja celebrará a festa de São Josemaría Escrivá. Em São Paulo, no sábado, dia 27, às 10 horas, na Catedral da Sé, haverá uma missa em honra do santo do cotidiano, na feliz expressão de São João Paulo II.
Quem conheceu um santo sabe que certas datas despertam lembranças profundas e uma saudade aparece. A memória da festa de São Josemaría sempre me conduz a um texto que marcou decisivamente a minha vida: Amar o Mundo Apaixonadamente, homilia pronunciada pelo fundador do Opus Dei durante uma missa celebrada no câmpus da Universidade de Navarra, da qual foi o primeiro grão-chanceler.
Uma proposta ousada: materializar a vida espiritual
A proposta era ousada e profundamente atual: “materializar a vida espiritual”. São Josemaría queria afastar os cristãos da perigosa tentação de viver uma espécie de esquizofrenia interior: de um lado, a relação com Deus; de outro, uma vida profissional, familiar e social desligada da fé.
Sua mensagem era clara: não existem dois compartimentos na vida do cristão. Existe uma única vida. E é nela – nas pequenas realidades de cada dia – que Deus nos espera.
“Ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca.” A frase resume uma espiritualidade profundamente encarnada na realidade. Nada de fuga do mundo. Nada de espiritualismo artificial. A santidade nasce no meio da rua, no escritório, na sala de aula, no hospital, na redação de um jornal, na rotina aparentemente banal da existência.
São Josemaría gostava de repetir que “a vocação cristã consiste em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia”. Há nessa visão uma extraordinária valorização da vida comum. O trabalho deixa de ser apenas obrigação ou meio de sobrevivência. Passa a ser caminho de santificação e serviço aos outros.
Otimismo cristão e amor ao mundo
Escrivá via o mundo com otimismo cristão. “O mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus”, afirmava. O verdadeiro cristão não vive de costas para o seu tempo nem alimenta nostalgias estéreis do passado. Enfrenta os desafios da época com serenidade, esperança e espírito construtivo.
Em 1974, um ano antes de morrer, São Josemaría esteve no Brasil. Foi uma visita breve, mas inesquecível. Encantou-se profundamente com o País e com o povo brasileiro. Diante de milhares de pessoas no Anhembi, em São Paulo, exclamou emocionado: “O Brasil!”. E definiu nossa Pátria como “uma mãe grande, bela, fecunda e terna, que abre os braços a todos”.
Não era retórica. Era um olhar carregado de afeto e esperança. Como ensinava o padre Antônio Vieira, “os olhos veem pelo coração”. São Josemaría enxergou o Brasil com os olhos de quem ama. Mas não ficou apenas no entusiasmo. Viu também nossas carências e contradições. “No Brasil há muito a fazer”, afirmou com franqueza.
Falava da pobreza, da falta de educação, dos doentes abandonados, dos idosos esquecidos, dos que ainda não conheciam Cristo. Sua mensagem tinha forte conteúdo social. Fé autêntica não é alienação. É compromisso. São Josemaría não veio ao Brasil como turista. Sentia-se em casa. Num encontro com famílias, confessou: “Tenho um grande remorso: não ter vindo antes ao Brasil”. A frase revela uma identificação profunda com o País e uma confiança extraordinária no futuro brasileiro.
Santidade para todos: o núcleo da mensagem
O núcleo de sua mensagem permanece atualíssimo. A santidade não é privilégio de religiosos ou sacerdotes. Todos são chamados à santidade: o médico, o engenheiro, a dona de casa, o agricultor, o estudante, o empresário, o jornalista. Não por meio de gestos espetaculares, mas da fidelidade cotidiana aos próprios deveres.
Essa visão muda completamente o eixo da vida cristã. O cristianismo deixa de ser mera teoria moral e se transforma numa presença concreta dentro da realidade. Deus não nos pede fuga. Pede coerência. A fé não se nutre de nostalgia, mas de luta entusiasmada.
Num tempo marcado pelo relativismo moral, pela agressividade ideológica e pela polarização permanente, São Josemaría oferece uma mensagem de equilíbrio e lucidez. Defendia a convivência respeitosa entre pessoas que pensam de modo diferente, mas sem abrir mão da verdade. Sabia que liberdade sem verdade degenera em confusão. E que verdade sem caridade se transforma em arrogância.
Relevância crescente cinco décadas depois
Cinco décadas depois de sua morte, sua figura cresce em relevância. São Josemaría não prometeu facilidades. Apontou um caminho exigente, mas profundamente humano: o caminho da fidelidade, da coerência e do amor vivido nas pequenas coisas.
Um cristianismo de carne e osso. Sem artificialismos. Sem fuga da realidade. Um cristianismo vivido no trânsito, no trabalho, na família, no estudo, nas responsabilidades de cada dia. Um cristianismo que conhece a cruz, mas que jamais perde a esperança. Uma fé que se faz vida concreta.
Simpático e carismático, São Josemaría vislumbrava no cotidiano, nas coisas simples e comuns, o ponto de encontro entre Deus e os homens: “Ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca”. O cristianismo encarnado nas realidades cotidianas: eis o miolo da proposta revolucionária de Josemaría Escrivá, um santo que se sentiu brasileiro.



