São João do Maranhão: cultura popular aquece economia e gera renda para artesãos
São João do Maranhão movimenta economia e gera renda

O São João do Maranhão é uma das maiores manifestações culturais do Brasil, encantando pelo auto do bumba meu boi, pelas toadas que narram histórias e crenças, e pela riqueza das indumentárias, adereços e instrumentos musicais. Contas, pérolas, paetês, penas e outros elementos compõem o figurino de índias, índios, vaqueiros, caboclos e diversos personagens, além de tambores, matracas, pandeirões e outros instrumentos. Por trás desse brilho, cor e ritmo, estão mãos ágeis de personagens criativos e dedicados que, muitas vezes, permanecem no anonimato, mas sem eles "o boi não dança". Artesãos, bordadores, costureiros, ferreiros e outros profissionais dedicam tempo e criatividade para tornar a festança junina encantadora, atraindo pessoas de várias partes do Brasil e do mundo.

Impacto econômico do São João

Além do empreendedorismo ligado aos grupos culturais, o São João do Maranhão aquece o turismo, a gastronomia e a economia criativa. Na temporada junina, a cultura popular maranhense se transforma em oportunidade de geração de renda, fortalecendo a economia local. Segundo o economista Lucas Mendes, a cultura é um setor produtivo que gera emprego, movimenta o comércio, atrai turistas e reforça a identidade local. Muitas famílias vivem dessas atividades durante todo o ano, especialmente aquelas ligadas aos grupos de bumba meu boi. "Há toda uma cadeia produtiva em torno da cultura. A confecção de indumentárias, o bordado e a fabricação de instrumentos movimentam artesãos, costureiras e comerciantes", explica.

O especialista aponta que as apresentações atraem turistas e maranhenses, que movimentam serviços de alimentação, transporte e hospedagem, um consumo que vai além dos arraiais. "O turista atraído pela cultura não vai apenas ao arraial. Durante o dia, frequenta restaurantes, realiza passeios, conhece a cidade e consome. Fica evidente que a cultura movimenta a economia de forma ampla e encadeada".

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Com programação extensa de maio a julho, o São João do Maranhão é o maior evento do calendário cultural maranhense, com inúmeras apresentações simultâneas de grupos culturais em várias partes do estado. Segundo Lucas Mendes, "fala-se muito sobre São Luís, mas há São João em todo o estado. Os grupos produzem o ano inteiro, movimentando artesãos, costureiras, bordadeiras, músicos etc. Mesmo quando o poder público investe em atrações nacionais, o que atrai o público e aquece a economia são as manifestações locais".

Números da movimentação econômica

Segundo levantamento do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (Imesc), em 2025 a movimentação registrada no Maranhão durante o São João foi de R$ 415 milhões, com estimativa de crescimento de 30% em 2026. Diversos setores são beneficiados, como alimentação, bebidas, vestuário e artesanato. A hotelaria lucra com o aumento do fluxo de turistas, e o setor de transportes, especialmente por aplicativo e táxi, também é beneficiado. Cerca de 8,5 mil pessoas estiveram ocupadas nos arraiais oficiais em 2025, alta de 15,4% em relação a 2024, e espera-se aumento neste ano.

Grupos tradicionais e empreendedorismo

Grupos como o Boi de Maracanã, com mais de 100 anos, são atração confirmada nos principais arraiais. O grupo é um dos mais tradicionais do sotaque de matraca, e sua indumentária rica em brilho, bordados, veludo, cetim, fitas, miçangas, canutilhos e penas exige uma equipe de costureiros e bordadores. Lavínia Assunção, diretora e bordadeira, afirma que sem esses profissionais não seria possível levar a beleza do grupo aos arraiais. Ela trabalha como bordadeira há 10 anos, confeccionando chapéus, testeiras, peitorais, cintos e roupas de índias. "Gosto de bordar porque é uma forma de participar efetivamente da construção do nosso Boi, que é a minha paixão. Além de funcionar como terapia, é um orgulho fazer o que faço dentro de uma manifestação cultural tão rica do nosso Maranhão. Hoje se tornou minha segunda profissão, uma nova fonte de renda", destaca.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

O Boi de Axixá, do sotaque de orquestra, há 67 anos se apresenta no São João. A presidente Leila Naiva afirma que a cultura gera renda e movimenta a economia, exigindo materiais e mão de obra especializada. "Só aqui, no Boi de Axixá, estou com profissionais de grande porte. A cultura gera renda e movimenta a economia. Antes do São João, já ocorre a compra do ferro; alguém já recebe pelas agremiações. Do ferro vem a mão de obra do ferreiro, depois passa para os tecidos e materiais para montar tudo", explica.

O Boi de Santa Fé, do sotaque da Baixada, fundado há 38 anos, contrata costureiros, bordadores e artesãos durante todo o ano. O diretor Adriano Andrade destaca que esse trabalho mantém viva a tradição, valoriza os profissionais e movimenta a economia local e nacional, já que muitos materiais são comprados fora da região. O artesão Clelbert Costa, que trabalha há 14 anos no grupo, confecciona bordados, peças de couro e indumentárias. Ele aprendeu o ofício com a mãe e considera seu trabalho essencial para a cultura do Maranhão, sendo sua principal fonte de renda.

No interior, o Boi Novilho dos Lençóis, fundado há 15 anos em Humberto de Campos, conta com uma equipe de dez pessoas entre costureiras, bordadores e artesãos. A presidente Socorro Almeida destaca que o trabalho fortalece a organização e contribui para o sucesso do grupo, movimentando a economia local com a contratação de serviços e compra de materiais. Carlos Augusto, multiculturalista, ajudou a fundar o grupo e acompanha todas as etapas, da confecção de roupas ao planejamento. Ele aprendeu o ofício com o avô e alerta para o risco de desaparecimento da tradição, já que poucas pessoas da nova geração demonstram interesse.

Confecção de instrumentos musicais

As toadas são acompanhadas por pandeirões, tambores-onça e matracas. Uma família de marceneiros produz matracas em São Luís há mais de 40 anos. Antônio José Nunes, mestre artesão, explica que o ofício começou com seu avô e foi passado para o pai e agora para ele e seu irmão, que ensinam o sobrinho Roque. "Ao fazer uma matraca, sabemos que estamos dando continuidade à cultura maranhense", destaca Roque. Em 2025, a família produziu mais de dois mil pares de matraca.

O tambor-onça é confeccionado pelo mestre Zé Pretinho, que aprendeu com os grandes mestres e agora ensina o filho. O pandeirão é produzido por João Sodré, que transforma a matéria-prima em instrumentos tradicionais, um ofício aprendido com os antigos. Esses instrumentos são comprados pelos grupos de bumba meu boi, gerando renda para os artesãos, e também por maranhenses e turistas em feiras e arraiais.

Empreendedorismo fora dos grupos culturais

Fora dos grupos, a temática junina gera oportunidades de negócio. Empreendedores investem em peças inspiradas na cultura popular maranhense, como roupas customizadas, acessórios com fitas e bordados, brincos, tiaras, bolsas, itens de decoração e peças que fazem referência ao bumba meu boi. A costureira Maria da Piedade, que costura há 14 anos, fabrica camisas customizadas para lojas de artesanato do Centro Histórico de São Luís. Ela conta que começou bordando sozinha, mas com o aumento das encomendas precisou contratar ajuda. "Gosto muito desse trabalho e, além de gerar renda para mim, também proporciono renda para outras pessoas", explica.

A artesã Sidneia Mendes confecciona chapéus de bumba meu boi bordados com miçangas, paetês e canutilhos. Ela vende para turistas e maranhenses, inclusive para outros estados por meio de vendas online. Sidneia deixou a carreira de contadora para se dedicar ao artesanato e fundou a marca Chamapraia. "Deixar a contabilidade foi uma decisão difícil, mas necessária. Trabalhar com produtos do São João me conecta às nossas tradições e permite gerar renda para minha família e para outras pessoas envolvidas na produção", destaca.

Políticas públicas de incentivo

Políticas públicas são fundamentais para o crescimento dos pequenos negócios. O economista Lucas Mendes destaca que cabe ao poder público garantir estrutura, acesso e visibilidade para a cultura local. Nos últimos anos, prefeituras e o governo do estado têm organizado feiras culturais e arraiais. O programa Armazém do Empreendedor, coordenado pela Secretaria de Estado da Indústria e Comércio (Seinc), oferece oportunidades para pequenos empreendedores venderem seus produtos em eventos. A microempreendedora Karliane Aquino, que vende suquinho gourmet, foi selecionada para montar um estande no Arraial do Ipem. "O período de São João é uma das épocas mais fortes para microempreendedores, porque movimenta a economia local e aumenta o fluxo de pessoas. Essa participação representa a chance de aumentar minhas vendas e de fazer novas pessoas conhecerem minha marca", comemora.

O programa Mais Renda apoia empreendedores e trabalhadores autônomos, promovendo inclusão produtiva em grandes eventos. Os trabalhadores cadastrados recebem um kit de negócio com fardamento, utensílios e equipamentos. Há também incentivos e editais culturais, cursos e oficinas de bordado, artesanato e confecção de instrumentos. Em âmbito nacional, o Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) valoriza o artesão. No Maranhão, artesãos levam seus produtos para o Barracão do Artesanato no Arraial do Ipem.

O São João de Oportunidades, ação do Sebrae na região dos Lençóis Maranhão e Munim, chega à 5ª edição, promovendo eventos como o Festival São João de Oportunidades e arraiais em vários municípios. David Amorim, gerente do Sebrae, afirma que o projeto reafirma o potencial da cultura maranhense como força econômica, social e identitária. O Calendário Cultural Munim, Lençóis e Delta facilita o planejamento de turistas e empreendedores.

Festejos juninos no Brasil

Em 2025, as festas juninas movimentaram R$ 7,4 bilhões na economia brasileira e atraíram mais de 24 milhões de pessoas, ficando em terceiro lugar como maior evento financeiro do Brasil, atrás apenas do Natal e do Carnaval. O Nordeste é berço das maiores celebrações, como o São João de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). Na região Norte, o Parárraiá (PA) e o Festival de Parintins (AM) atraem milhares. No Centro-Oeste, Brasília realiza o “Maior São João do Cerrado” e Trindade (GO) tem a Romaria do Divino Pai Eterno. No Sudeste, São Paulo promove arraiás e Minas Gerais conta com o Minas Junina. No Sul, Camaquã (RS) adapta a tradição nordestina. Segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM), mais de mil cidades brasileiras realizam festas juninas, fortalecendo a identidade cultural e gerando emprego e renda.