A marca paulistana de streetwear PACE, fundada em 2017 por Felipe Matayoshi, realizou seu primeiro desfile na noite da última terça-feira, 2, na Praça das Artes, no centro de São Paulo. A coleção apresentada, intitulada TYP0J1G, simboliza, segundo o diretor criativo, um encontro entre os erros de digitação que abrem possibilidades de acerto e a estética industrial.
Felipe Matayoshi, que comanda a marca ao lado da esposa Juliana Matayoshi, destaca que a PACE nasce de uma experiência brasileira atravessada pela herança japonesa de sua família e pelo contato com a costura desde a infância, por meio do trabalho de sua mãe. A estreia na passarela era esperada desde a abertura da primeira flagship da marca, nos Jardins, em São Paulo, em 2024, e ocorre em um momento de expansão internacional.
Expansão internacional e conexão com o Japão
Atualmente, a PACE está presente em 21 multimarcas fora do Brasil, incluindo a icônica Dover Street Market, com unidades em Londres, Tóquio, Nova York e Paris. "Estamos vendendo em lojas que são o sonho de quem trabalha com moda", afirmou Matayoshi antes do desfile. O Japão ocupa um lugar de protagonismo nas vendas internacionais da marca. "O Japão, em específico, é o lugar que mais consome PACE sem ser o Brasil", explicou. Para o descendente de imigrantes de Okinawa, a recepção japonesa teve um peso pessoal significativo. "Havia esse medo dentro de mim: será que o Japão vai aceitar o que eu crio? E isso trouxe uma validação importante. Eles aceitaram e gostaram demais da nossa marca." A PACE também é vendida em Okinawa, algo que o criador descreve como um "full circle moment", uma sensação de que as coisas se encaixaram e ganharam sentido.
Elementos japoneses e estética industrial nas peças
Nas roupas que desceram as escadarias da Praça das Artes – um complexo de arquitetura contemporânea com forte influência brutalista –, elementos de memória japonesa uniram-se a um streetwear de estética limpa e sofisticada. Um dos destaques foi o Tare, faixa acolchoada usada na arte marcial japonesa kendo, reinterpretado em matelassês, bolsos e cintos funcionais. As calças plissadas e descoladas do corpo evocaram as amplas hakama – calças largas e tradicionais japonesas, com pregas profundas e visual semelhante ao de uma saia longa – em versões adaptadas para o cotidiano. Coletes, capuzes e alfaiataria estruturada surgiram com referências a armaduras históricas da cultura japonesa. Jaquetas bomber, botas, silhuetas retas e aviamentos metálicos – como o rebite de alumínio e o arco de cabo de aço, que se tornaram assinaturas da marca – trouxeram uma estética militar e industrial ao mix.
O couro, trabalhado com precisão e acabamento próximo da alfaiataria, apareceu com destaque e como elemento conector com as origens da PACE. Em tênis, acessórios, jaquetas, parkas e detalhes utilitários, o material reforçou o caráter urbano da marca, tanto para homens quanto para mulheres.
Estreia da linha feminina
A aguardada mulher PACE – a marca não explorava esse universo – apareceu no desfile em cinco looks, agregando transparência ao repertório da grife. Embora mulheres já consumissem a marca, Matayoshi trata esse movimento como um desenvolvimento ainda inicial. "Estamos tomando muito cuidado para que essa parte feminina da PACE não pareça outra marca. Nossa cautela é trazer toda a identidade desses nove anos de PACE para essa mulher, e devemos fechar a equação do que é a mulher PACE em alguns anos", conclui.
Coleção impulsionada pela comunidade
A nova coleção da PACE não nasceu como um projeto de passarela, mas ganhou força com o apoio total de sua comunidade. Durante o desfile, o público assistia à apresentação vestindo o chamado full look – o visual completo da marca –, evidenciando o poder do seu nicho de consumo. "Criamos uma coleção sem pensar em desfile. Depois, os 25 looks se transformaram em 35 para a passarela, e isso é só o começo", afirmou Matayoshi.



