Em clima de Copa do Mundo, o mecânico Afonso Baptista Santos Filho, natural de Cabo Verde, reencontrou a Mercedes-Benz 280-S que pertenceu a Pelé e que ele cuidou por 28 anos em sua oficina em Santos, no litoral de São Paulo. O carro, dado a Pelé pela montadora em 1974 em comemoração ao milésimo gol, está exposto no Museu de Veículos do Memorial Necrópole Ecumênica.
“O carro passava pelo Gonzaga, todo mundo olhava. Eu parava no farol, pagando de galã, mas todo mundo sabia que era do Pelé por causa da placa. Aí a pessoa dizia: ‘Mas, esse carro é do Pelé mesmo?’ Não está vendo aí, meu amigo, placa mil? Quem tem placa mil é só Pelé”, lembrou Afonso em entrevista à TV Tribuna, afiliada da Globo.
Chegada ao Brasil
Afonso contou que era adolescente quando deixou Cabo Verde, após a guerra de independência do arquipélago africano. Acompanhado da avó e da tia, decidiu vir a Santos para encontrar o pai, que havia se mudado em busca de uma vida melhor. Herdou do pai a habilidade com peças e carros e construiu uma reputação na cidade. No jaleco, leva bordada a bandeira de Cabo Verde, símbolo de sua origem.
Sua fama chegou até Pelé. A então sogra de Afonso o indicou para Jair Arantes do Nascimento, conhecido como Zoca, irmão do ex-jogador. “Ele [Zoca] falou: ‘Se o meu carro ficar bom, eu vou trazer o carro da empresa de Pelé’. Falei: ‘Caramba, legal. Prazer em conhecê-lo’ […] e aí fizemos amizade. Eu fiz serviço para ele, para irmã dele, para o Edinho, para toda a família, graças a Deus”, disse o mecânico.
Amizade com o Rei
O cabo-verdiano destacou não esquecer o dia em que conheceu o eterno camisa 10. Afonso foi entregar um carro para Zoca, que pediu para ele entrar na casa da família. “Quando chego lá, subindo o degrau, está lá de costas para o canal, sentado no sofá, o Rei Pelé, abraçado com a avó Celeste, que é a senhora mãe dele. Rapaz, ele me deu um abraço. Eu falei: ‘Meu sonho é lhe conhecer desde criança’”, contou Afonso.
A história de Afonso é retratada na oficina localizada na Rua Silva Jardim, no bairro Vila Matias. Ao entrar no estabelecimento, é possível ver as bandeiras do Brasil, de Cabo Verde e do Santos Futebol Clube. Nos fundos, ele construiu um pequeno santuário, com imagens religiosas, fotos antigas, a camisa autografada por Pelé e uma medalha com o rosto do Atleta do Século.
“Em 2003, fui para Cabo Verde e lá só andava com a camisa. Meu irmão, todo mundo queria beijar a medalha, todo mundo queria a camisa, eu falei: ‘Não, a camisa não, nem a camisa, nem a medalha. Meu coração, a camisa e a medalha, isso vai morrer comigo’”, afirmou.
Copa do Mundo
Neste ano, a competição que consagrou o Rei do Futebol colocou Cabo Verde no mapa do futebol. Com isso, o mecânico tem um novo ídolo: o goleiro Vozinha, de 40 anos. “Vozinha virou embaixador de Cabo Verde e do mundo. Obrigado, Deus […] Hoje, o mundo inteiro conhece Cabo Verde. Cabo-verdiano, como diz lá, de Santo Antônio Abrava, dez ilhas e um só coração”, finalizou Afonso.



