Mais de 150 pessoas dançando no centro de São Paulo numa quinta-feira comum, sem pagar nada, sem precisar de par e sem ter chegado sabendo um único passo. A cena do Forró do Bom no Vale do Anhangabaú resume um movimento que cresce, cada vez mais, pela cidade: projetos gratuitos de forró que não querem só ensinar uma dança — querem ser um lugar onde qualquer pessoa se sinta bem-vinda.
Respeito e comunidade no forró
Apesar do corpo colado, a paquera por ali é contida. É muito nítido ver como os alunos levam a sério o hobby, se preocupam com a dança e, acima de tudo, com o respeito. “É um lugar ótimo para você conhecer gente. As pessoas vêm sozinhas, homens, mulheres e é um lugar super respeitador, sabe? Não é que nem numa balada, que você já olha procurando alguém. Não, não. Aqui as pessoas vêm para dançar. Eu acho o máximo”, opina a recepcionista Fatima Soares, de 61 anos, que sai do bairro Jardim João XXIII (km 20 da Raposo Tavares) para dançar forró no centro.
O respeito também é presente para os diferentes níveis de dança: dos mais experientes aos iniciantes, todos recebem atenção e permissão para mostrar o que sabem. Para dançar nesses locais basta vontade: par, coordenação e até amizade se faz por ali mesmo.
“Para mim tem sido uma experiência incrível, tanto na questão de saúde mental, para lutar contra a depressão, contra a ansiedade. Toda cena é uma coisa muito boa que alegra a nossa semana”, conta a enfermeira Lethicia Assis, de 26 anos.
No mês das festas juninas, o Estadão mapeou cinco opções para quem quer começar — ou simplesmente aparecer. E se puder, lembre do pix voluntário: os professores agradecem.
Forró do Bom: no coração de São Paulo
No meio do centro, dia da semana, frio, mas o que não faltam são sorrisos no rosto. Essa é a realidade, desde 2022 no Forró do Bom. O projeto nasceu com o desejo dos irmãos Ellen e Felipe Trizi de democratizar e tornar acessível o forró no centro de São Paulo. A ideia casou bem com o Novo Anhangabaú, espaço localizado no Vale de mesmo nome que oferece diversas atividades gratuitas e diárias para a população, entre danças, lutas e aulas.
“Eu trabalho com forró há 20 anos e ensinar ele, para mim, é muito mais do que ensinar uma dança. É defender uma cultura porque é nossa. O forró é um patrimônio imaterial brasileiro e é muito importante poder passar isso para as pessoas, mostrar o quanto forró é comunidade, é amizade, é alegria”, conta Ellen.
De acordo com os frequentadores, a aula é um ótimo lugar para conhecer gente nova e fazer amizades. No meio de tanta gente, tem aqueles que têm a experiência com a dança pela primeira vez, outros que já vêm há tempos com amigos que fizeram ali e aqueles que se apaixonaram e vêm de longe para dançar.
“A gente tem uma capacidade muito grande corporal e a gente não usa, não desenvolve isso. E funciona para a vida como autoestima, confiança e felicidade”, opina o operador de CAD Felipe Gomes, de 27 anos, que gosta de ir sozinho para fazer amizades.
Às 20h começa a aula iniciante, com ensinamentos sobre os primeiros passos. Às 21h vem a aula mais avançada, perfeito para quem já sabe dançar e também para os novatos que querem mostrar os passos recém-aprendidos. Nas aulas, o gênero não está atrelado à função na dança: qualquer um pode conduzir e ser conduzido. “É só chegar, sem inscrição, sem par, só vir com vontade de aprender mesmo”, convida Ellen.
Forró do Bom. Toda quinta-feira, às 20h no Vale do Anhangabaú. O local exato é divulgado nas redes sociais do projeto. Mais informações: www.instagram.com/forrodo.bom
Forrózin: dança em um bar no Butantã
Um pouco mais ao sul da cidade, no Butantã, o Forrózin lota o Galpãozin Bar. “O projeto nasceu há quase três anos atrás de um acaso, de eu estar aqui no bar um dia e ficar sabendo que a professora de forró que ia começar uma turma aqui não ia poder”, brinca Ana Morbach, que logo chamou o colega, e também professor, Daniel Hiroshi.
“A gente tem uma média de 50 alunos por aula, todas as semanas tem gente nova... o pessoal vem mesmo em uma terça-feira”, complementa Hiroshi.
A aula funciona em esquema de roda, na qual os professores ficam no meio, mostrando os passos, e os alunos em um círculo treinando. De tempos em tempos o condutor ou condutora se deslocam para sua direita para que todos tenham a chance de dançar.
Apesar de apoiarem a divulgação do forró em São Paulo, os professores são categóricos em sinalizar a importância do apoio via Pix. “Existe um trabalho sendo feito. Temos profissionais envolvidos, a gente precisa que para que o projeto aconteça cada um faça a sua parte. Cada um dentro da sua possibilidade”, diz Hiroshi.
As aulas acontecem dentro de um bar, mas o consumo não é revertido em pagamento para os professores. O bar cede o espaço para a atividade e ela é feita voluntariamente pelos professores. “A gente pergunta pro pessoal: se você compra três cervejas aqui, porque que uma delas não vira um Pix pra gente?”, indaga a professora. De acordo com eles, o retorno tem sido positivo.
Para os alunos também. “Eu gosto aqui do ambiente. Você consegue dançar, parar, descansar, comer alguma coisa, então isso é bem legal. Além de não ter aquela pressão de vir com alguém, você vai dançar com todo mundo”, conta o pesquisador Caio Braz, de 38 anos, aluno há um ano e meio do local.
Forrózin. Toda terça-feira, às 19h no Galpãozin Bar. Av. Corifeu de Azevedo Marques, 1272 - Butantã. Mais informações: www.instagram.com/galpaozin
Pé de Rede: forró cedo na Bela Vista
Criado em 2025, o Pé de Rede é um evento semanal de forró que começa e termina cedo para que todos aproveitem. “É bom para pessoas que saem do trabalho e vão direto e pessoas que querem emendar dali e fazer outras coisas”, coloca Rodolfo Lacerda, fundador do projeto e do Música em Rede.
A estrutura é sempre a mesma: aula de forró com Ellen Trizi e show com o arrumadinho do Forró das Mina, movimento de mulheres e LGBT+ do forró. “Arrumadinho é o nome que a gente dá para formações que são sempre inéditas e se juntam na hora, não é uma banda fixa”, explica ele.
“Eu sempre entendo o evento do forró e me interessei pelo Pé de Rede porque eu sei desse poder da troca humana. A gente vive um momento muito digital, com realidade virtual e tal e a gente precisa manter laços da nossa humanidade ali”, diz Lacerda. “A música tem isso, a cultura tem isso e o forró e a mistura pura disso.”
Pé de Rede. Toda sexta-feira, às 19h com término às 23h. Na Casa Sincopada: Rua Treze de Maio, 586 - Bela Vista. Mais informações: www.instagram.com/pederedeoficial
Bar do Baixo: forró na Vila Madalena
Na Vila Madalena, o Forró também marca seu espaço no Bar do Baixo. “Na minha adolescência, eu peguei a volta do forró, que já sofreu muito preconceito e quando eu virei sócia do Baixo fiz questão de colocar o Forró”, conta Mayara Vieira, proprietária do bar.
Ela explica que o público forrozeiro sempre teve problemas em bares uma vez que consome menos. Assim, muitos espaços cobram a entrada alta para não sair no prejuízo. “Mas a nossa ideia sempre foi ser gratuita. Começou chamando Forró Fiado e a ideia deu super certo: até hoje temos entrada livre, colaborativa, pra manter o forró acessível e vivo.”
Com curadoria de Gláucia Camarotto, o ritmo enche a casa às quintas, quando acontecem as aulas, e aos domingos, quando a casa recebe bandas de diferentes estados.
Bar do Baixo. Toda quinta, às 19h. Shows aos domingos, a partir das 18h. R. Girassol, 67 - Vila Madalena. Mais informações: www.instagram.com/bardobaixo
Forró em Cena: projeto social na zona sul
O Forró em Cena teve sua origem em 2018 dentro do Centro Cultural Monte Azul, na zona sul da cidade. De acordo com os criadores, seu principal propósito consiste em fomentar e preservar a cultura do Forró Pé de Serra. “Além das aulas, trabalhamos um pouco dos jogos teatrais, um pouco do teatro mais voltado para o aspecto da dança”, diz Davi Silva, professor de forró e fundador do projeto. Normalmente os eventos contam com banda ao vivo, DJ, aula de forró e uma intervenção artística - seja grafite, performance teatral, exposição ou lançamento de livros.
Os encontros acontecem em três lugares diferentes, todos na zona sul:
- Centro Cultural Monte Azul. Av. Tomas de Sousa, 552. Aulas todas segundas-feiras, das 19h30 às 21h.
- Corrente Libertadora Santo Amaro. R. Cerqueira César, 185. Aulas todas quartas-feiras das 18h às 20h.
- Bloco do Beco Jardim Ibirapuera. R. Bento Barroso Pereira, 2. Aulas todas quartas-feiras das 20h30 às 21h30.
Para o mês de junho, o Centro Cultural de São Paulo também oferece aulas de forró com a professora Thamyra Miranda gratuitamente e sem retirada prévia de ingressos. Acontecem às quintas-feiras, 18h, na área de convivência.
Outras opções pagas e com preço acessível
Há também alguns nomes já conhecidos na cidade que cobram taxa, caso do Forró dos Ratos, na Avenida São João (valor da entrada + R$ 60) ou o Canto da Ema (valor da entrada + R$ 28), em Pinheiros.
Para quem quer pagar um valor em conta, mas também aproveitar, outros endereços são:
- Forró da Cidade (R$ 15), quarta-feira, às 20h no Jai Club.
- Forró na House (a partir de R$ 10 - valor promocional), terça-feira, a partir das 19h.
Para quem quer fazer aula fixa, o Pé Descalço Pinheiros conta com planos mensais a partir de R$ 230. A Fuzuê Danças, com mensalidade de R$ 190, conta com cursos de quatro meses, com uma hora por semana. Já o Futuro Refeitório oferece planos mensais por R$ 239, com 15% de desconto para todos os alunos nos produtos da casa após a aula.
Também vale a pena acompanhar o Forró Pé de Calçada, que promove encontros e aulas (sem local ou data fixa) por São Paulo e região do ABC.



