A Justiça de Cananéia, no litoral de São Paulo, condenou Uanderson Gonçalves da Cruz a 57 anos, 7 meses e 24 dias de prisão em regime fechado pela morte da ex-companheira Camila Gomes, de 43 anos. O Tribunal do Júri concluiu que ele invadiu a casa da vítima e a espancou até a morte com socos e chutes, na frente da avó dela, de 83 anos. A defesa recorrerá da decisão.
Detalhes do crime
O caso ocorreu em junho de 2025, no bairro Acaraú. Uanderson foi detido pela Polícia Militar após fugir para o Centro da cidade, minutos depois do crime. As agressões foram presenciadas por vizinhos e pela avó da vítima. Uma câmera de monitoramento flagrou o momento em que o suspeito fugia em uma bicicleta. Nas imagens, é possível ouvi-lo justificando as agressões aos vizinhos: “É briga de casal”.
O Ministério Público denunciou Uanderson pelos crimes de feminicídio qualificado por motivo torpe e meio cruel, mediante recurso que dificultou a defesa da vítima, e por ter sido praticado na presença da avó dela. Além disso, foram imputados os crimes de furto e violação de domicílio, já que o suspeito entrou na casa pelo basculante do banheiro durante a madrugada. Todas as acusações foram aceitas pelos jurados.
Pena e fundamentação
A pena total foi de 57 anos, 7 meses e 24 dias de prisão em regime fechado pelos crimes de feminicídio qualificado e furto, além de 8 meses e 12 dias de detenção em regime semiaberto por violação de domicílio. O juiz Lucas Semaan Ezequiel destacou que “as circunstâncias e as consequências do crime extrapolaram o ordinário à espécie e, dessa forma, determinam o incremento da pena”. Ele reconheceu a violência do crime e elevou a pena pelos antecedentes e reincidência do réu.
O MP afirmou que “a condenação imposta hoje não apaga a dor da perda, mas cumpre o papel fundamental de aplicar a lei e garantir que a sociedade paulista não tolera a impunidade”. A decisão “reflete o rigor da Justiça diante de um crime marcado pela extrema covardia e brutalidade”. O órgão destacou ainda que o caso causou profunda comoção em Cananéia, uma cidade de pequeno porte, onde os laços comunitários são mais próximos.
Defesa anuncia recurso
O advogado Claudio Roberto Fraga, que representa o suspeito, disse que irá recorrer da decisão. Ele afirmou que, embora a defesa respeite a soberania do Conselho de Sentença, discorda da pena fixada pelo juiz-presidente. Segundo ele, a pena de mais de 57 anos é “fruto de uma construção dosimétrica que viola princípios basilares do direito penal, em especial o princípio que veda a dupla valoração de uma mesma circunstância em fases distintas da aplicação da pena”.
De acordo com a defesa, o magistrado utilizou determinadas circunstâncias do crime para aumentar a pena na primeira fase do cálculo e, depois, essas mesmas circunstâncias voltaram a ser consideradas na terceira fase. Uma delas é a qualificadora de que o crime foi cometido na presença da avó. “Em direito penal, isso é vedado. Uma mesma circunstância não pode ser usada duas vezes para prejudicar o réu”, disse Fraga. Ele pedirá ao Tribunal de Justiça de São Paulo a revisão técnica da pena.
Detalhes do caso
Segundo o boletim de ocorrência, Uanderson invadiu o local pela janela do banheiro e foi até o quarto de Camila. No local, ele a agrediu com socos e chutes, na frente da avó dela. Camila tentou fugir, mas foi alcançada pelo suspeito e agredida novamente até ficar desacordada. Em seguida, ele fugiu em uma bicicleta.
Imagens obtidas pela TV Tribuna mostram dois vizinhos verificando o movimento na rua após ouvirem os pedidos de socorro da avó de Camila. O vídeo mostra Uanderson passando por eles em uma bicicleta e justificando a agressão: “É briga de casal”.
Adriane Aparecida de Souza, uma das vizinhas, contou que saiu com o marido para prestar socorro após o suspeito virar a esquina. “O portão estava quebrado. Quando o meu esposo viu a situação, ele já falou o meu nome, né? Eu saí correndo, gritando o nome dela. Aí, vi ela jogada no chão, toda machucada. De longe, deu para ver [que a Camila estava] com muita dificuldade para respirar”, relatou.
A vizinha e o marido acionaram a Polícia Militar, que chegou junto com uma ambulância. Camila foi socorrida, mas morreu no pronto-socorro em decorrência de traumatismo cranioencefálico.
Prisão
O suspeito foi detido posteriormente por uma equipe da PM, no Centro da cidade, com o celular da ex-namorada. A corporação foi informada que, na tarde anterior ao crime, o casal havia se separado. Eles mantinham uma união estável há cerca de dois meses, segundo a polícia.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, foram solicitados exames ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico Legal, e o caso foi registrado como feminicídio na Delegacia de Cananéia.



