Conde Bennigsen: monarquista russo que apoiou a URSS contra nazistas no Brasil
Conde Bennigsen: monarquista que apoiou a URSS contra nazistas

Em 22 de junho de 1941, o conde Emmanuel Bennigsen, de 66 anos, saiu de sua biblioteca em São Paulo para comprar um jornal. Nas ruas, meninos corriam com edições extras gritando a notícia: a Alemanha invadira a União Soviética.

Bennigsen vivia no Brasil desde 1936. Deputado da Duma Imperial, ex-governador de Petrogrado nomeado pelos brancos durante a guerra civil, era um monarquista convicto que rejeitava tanto os bolcheviques quanto os russos que flertavam com o fascismo na emigração. Agora via Hitler marchando sobre a Rússia. "Foi uma impressão muito pesada", escreveria ele mais tarde em suas memórias. "Eu nunca perdi a fé na minha pátria."

Entre dois fogos: a comunidade russa de São Paulo

A comunidade russa de São Paulo era majoritariamente antibolchevique. O bispo Teodósio, da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, fazia sermões violentos contra a "conspiração judaico-maçônica" que teria destruído a Rússia. Bennigsen, que fora maçom até 1933, não suportou. Quando o convidaram para o conselho paroquial, disse diretamente ao bispo: "Diante dos vossos sermões, duvido que possa ser vosso colaborador." Nunca mais o chamaram.

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A partir de 1941, sua posição ficou ainda mais solitária. Enquanto muitos emigrados brancos torciam pela vitória alemã, Bennigsen via na resistência soviética a defesa da própria Rússia. Escreveu dois artigos pró-Rússia para o Estadão. A redação recusou ambos — considerou o otimismo "infundado". Bennigsen previa que os alemães não tomariam Moscou; em dezembro, a história deu-lhe razão.

O comitê russo e o evento no Pacaembu

Depois de submarinos alemães afundarem navios brasileiros, o Brasil entrou na guerra em 1942. Bennigsen ajudou a criar o Comitê Russo de Ajuda às Vítimas da Guerra. A polícia política (Dops) resistiu por meses. Só em 1943 o comitê foi autorizado. Bennigsen tornou-se presidente e fazia praticamente tudo: contabilidade, negociações com a polícia, redação de artigos.

Em 18 de março de 1944, organizaram um grande evento beneficente no Ginásio do Pacaembu. Mais de 11,5 mil pessoas compareceram — um recorde. Havia desde príncipes e industriais até "gente simples que queria mostrar simpatia pela Rússia", como anotou o conde. Acima do palco, alguém pendurou uma grande bandeira soviética. A polícia exigiu que fosse retirada — e a bandeira teve de ser arriada diante de todos, com constrangimento geral.

A arrecadação bruta atingiu mais de 535 mil cruzeiros. Comerciantes árabes — em grande parte sírios e libaneses — contribuíram sozinhos com 180 mil cruzeiros. Num único "dia de costura", mais de mil costureiras confeccionaram 500 casacos e paletós. O dinheiro foi usado para comprar remédios, roupas e alimentos enviados à URSS.

"Right or wrong, my country"

Depois da guerra, Bennigsen foi chamado à polícia. O Diário da Noite, do Rio, acusou-o de ser "agente de Stalin". Ele respondeu no mesmo jornal: "Não sou comunista, mas sou russo e não esqueço a frase inglesa 'right or wrong, it is my country'."

Morreu em São Paulo em 1955, praticamente esquecido. Nem uma placa no Brasil. Nem uma na Rússia. A sua história é um raro exemplo de integridade em tempos impossíveis: um monarquista que, sem deixar de ser quem era, apoiou a Rússia quando ela mais precisava — mesmo que essa Rússia fosse soviética.

Num mundo cada vez mais polarizado, a trajetória de Emmanuel Bennigsen lembra que, por trás das bandeiras e ideologias, às vezes resta apenas uma lealdade simples: à terra onde se nasceu.

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