Capela dos Aflitos reabre em SP após restauro de R$ 3,2 milhões
Capela dos Aflitos reabre em SP após restauro de R$ 3,2 mi

A Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, localizada no bairro da Liberdade, centro de São Paulo, foi reaberta neste sábado (27) com uma missa que também celebrou os 247 anos de sua construção. O restauro do prédio, iniciado em abril de 2025, recebeu investimentos superiores a R$ 3,2 milhões para modernização, acessibilidade, preservação e revitalização do espaço histórico.

Obras de restauro e modernização

Com as obras, a capela recebeu iluminação adequada, a fachada foi refeita, o velário foi reconstruído, e os maciços em taipa de pilão que apresentavam erosão severa foram consolidados. Os bancos foram restaurados, assim como o telhado e a sacristia. Também foi construído um local para o sepultamento dos remanescentes humanos encontrados durante a pesquisa arqueológica.

Outro destaque é a reintrodução do relógio que foi perdido na década de 1950. O local agora conta com acessibilidade geral, incluindo mapa e piso tátil, áudio e libras. Foram restaurados os sinos, além de pisos, esquadrias em madeira, forro, paredes e pinturas decorativas.

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Investimentos e parcerias

Em 2024, o local recebeu R$ 2 milhões por meio do edital do Proac, da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo de São Paulo e do Ministério da Cultura, pela Carollo Arquitetura e Restauro, responsável pela obra, em parceria com a Unamca. Novos recursos foram necessários, e em 2025 a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, liberou R$ 1,2 milhão à Mitra Arquidiocesana de São Paulo, proprietária e administradora da capela, que possibilitou o início do processo de restauro.

Também foi realizada a instalação de sistema de climatização para preservação de acervo, um novo sistema de monitoramento por câmeras, portão de acesso automatizado e atualização das partes elétrica e hidráulica, assim como o sistema de combate a incêndio por gás inerte.

Descobertas arqueológicas e memória histórica

Todo o processo de revitalização foi marcado por descobertas arqueológicas, como cinco a dez pessoas sepultadas, confirmando o uso histórico da área como parte do Cemitério dos Aflitos, datado de 1775 e ativo até meados do século 19. Lá eram sepultadas pessoas indígenas, africanas e seus descendentes. As execuções dessas pessoas ocorriam no Campo da Forca, hoje a Praça da Liberdade, e aqueles cujos corpos não eram mutilados acabavam sepultados em torno da capela.

“A reforma da Capela foi muito requisitada pelos munícipes, principalmente da comunidade negra, para ter um espaço contando parte de sua história no bairro da Liberdade. É uma grande realização poder entregar este espaço para a cidade”, diz Totó Parente, Secretário Municipal de Cultura e Economia Criativa.

Histórico de intervenções e a Unamca

Ao longo dos anos, a Capela dos Aflitos passou por várias intervenções. Em 1779, quando foi inaugurada, o espaço era menor e depois expandiu. Em 1890, passou por uma grande reforma, assim como em 1960. Em 1994, um incêndio de causa desconhecida (acredita-se que foi elétrico) danificou o local, e o restauro iniciado em 1995 não foi concluído. Com o tempo, a situação se agravou até que, em 2018, a construção de um prédio ao lado causou rachaduras nas paredes e fez o telhado ceder, trazendo infiltrações. No mesmo ano, surgiu a União dos Amigos Capela dos Aflitos (Unamca) para cuidar da zeladoria e requisitar recursos para a restauração. A obra do prédio ao lado foi interrompida, dando início a um novo processo de ressignificação da área.

“É gratificante devolver, em conjunto com a prefeitura e o governo, esse patrimônio cultural para a cidade de São Paulo, para o país e para o mundo, já que estamos falando também da memória sobre a escravidão transatlântica. A gente está falando de uma memória do mundo também em relação a esse passado e agora continuar zelando pelo legado ancestral que toma a paisagem do bairro da Liberdade”, diz Lucas Almeida, diretor do coletivo Unamca.

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Memorial dos Aflitos e lançamento de livro

Por essa história, será construído o Memorial dos Aflitos, para preservar a história no bairro. Para novembro deste ano, mês da consciência negra, está previsto o lançamento de um livro sobre as escavações arqueológicas do local e sobre educação patrimonial.

Chaguinhas, o santo popular da Liberdade

O cabo do exército Francisco José das Chagas, conhecido como Chaguinha, foi um dos executados na Praça da Liberdade, acusado de ser um dos principais articuladores da revolta nativista de 1821. Mais tarde, Chaguinha passou a ser considerado um santo popular. Antes da execução, ele ficou preso dentro da Capela dos Aflitos, e até hoje, na porta do velário que foi preservada, as pessoas batem três vezes e deixam bilhetes com pedidos para o santo.