Mulher que se passava por criança é reconhecida por vítima no Paraná
Mulher que se passava por criança reconhecida no Paraná

Uma mulher moradora do Paraná afirmou ter sido vítima de Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, presa em Santa Catarina por se passar por uma adolescente de 12 anos. A vítima, que preferiu não se identificar, chegou a tatuar o nome falso usado pela suspeita após criar um forte vínculo afetivo com a suposta adolescente. A tatuagem foi removida depois que o golpe foi descoberto.

Conhecimento em grupo de oração

Segundo a vítima, as duas se conheceram em 2021 por meio de um grupo de oração online. Amanda se apresentou como "Emily", de 13 anos. "Nós tínhamos um grupo de oração na época da Covid e nos reuníamos online. Ela surgiu dizendo que era uma criança de 13 anos, em fase terminal, e queria que orássemos para que ela morresse, porque a mãe vivia no hospital por conta dela. Ficamos atônitos: como uma criança de 13 anos pede para morrer? Então nos envolvemos nessa história", relatou a vítima.

Amanda passou cerca de dez meses contando histórias de doença, abandono, violência e perdas familiares aos integrantes do grupo. "Primeiro ela pediu para eu ser madrinha, porque, como estava morrendo, queria entrar no céu e precisava ser batizada. Quando a mãe dela morre, ela fala: 'Já que minha mãe morreu, posso te chamar de mãe?'", detalhou.

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Desconfiança e descoberta

As vítimas só começaram a desconfiar quando Amanda passou a pedir dinheiro. Procuraram hospitais citados por ela e não encontraram registros de internação. A confirmação veio durante uma videochamada: uma integrante pediu para conversar com uma suposta tia da adolescente e percebeu que a mulher na tela era a mesma que se apresentava como "Emily". Pressionada, Amanda admitiu que não era uma criança doente, mas uma adulta que inventou toda a história.

O caso foi registrado em boletim de ocorrência em 2022 e um inquérito foi instaurado em dezembro do mesmo ano. A Polícia Civil investigou, mas não foi possível chegar à autoria do crime. Após a prisão de Amanda em Santa Catarina, as vítimas a reconheceram e a Polícia Civil do Paraná reabriu as investigações.

Impacto emocional

"Comigo foi muito cruel, minha cunhada tinha acabado de falecer. O que perdi de vida, emocional e psicológico, ninguém vai restaurar. Ela chamava meus filhos de irmão, eles a chamavam de irmã e gravavam vídeos e áudios para ela todos os dias. Quando lembro que deixei de pegar minha sobrinha no colo – filha do meu irmão que perdeu a mãe – por causa dessa bandida. Se soltarem ela agora, fará mais vítimas", desabafou a vítima.

Trama complexa

Segundo a advogada das vítimas, Amanda criou uma trama cada vez mais complexa. Dizia precisar de transplante de medula óssea, relatou a morte da mãe em acidente de carro, afirmou viver com o pai e a avó, sofrer agressões, que o pai cometeu crimes contra ela e se suicidou. Também alegou que o câncer se agravou, estava em metástase e precisou ser internada. Durante um suposto internamento, "Emily" disse ter sido estuprada no hospital e precisou amputar um braço. As histórias provocaram comoção e fizeram os integrantes se envolverem emocionalmente. Amanda evitava encontros presenciais.

Casa de acolhimento

Uma casa de acolhimento em Campina Grande do Sul, Região Metropolitana de Curitiba, relatou ter recebido Amanda por cerca de sete dias em 2020. Na época, a instituição acolhia crianças e adolescentes. Amanda chegou em novembro de 2020, levada pelo Conselho Tutelar, com o nome de "Julia". Disse ter nascido em Fortaleza e contou uma história trágica sobre a família. "Ela entrou, sentou, com voz de menininha, bem infantilizada, e ali passou", relatou uma testemunha. Dias depois, foi encaminhada para atendimento médico.

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Prisão em Santa Catarina

O caso ganhou repercussão após a prisão de Amanda em Joinville. Segundo a Polícia Civil de SC, ela viveu por 14 meses na casa de uma família após alegar ter fugido de maus-tratos no Pará. A ata de audiência de custódia mostra que ela se aproximou da família por intermédio de um pastor. Inicialmente, disse ter 18 anos, experiência em panificação e buscava emprego. Com o tempo, relatou problemas de saúde e dificuldades financeiras, e o casal a acolheu. Após conquistar confiança, afirmou ter apenas 11 anos e ser vítima de abusos. O casal, sensibilizado, permitiu que morasse com eles e organizou uma festa de 12 anos para a suposta menina.

Em depoimento, Amanda confessou ter aplicado o mesmo golpe em outros cinco estados: Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Ceará. Um caso em Natal (RS) também veio à tona. Em Santa Catarina, a polícia investiga outras duas ocorrências em Florianópolis e Chapecó.

Posição da defesa

O g1 procurou a defesa de Amanda, mas não obteve retorno até a última atualização.