Inscrição persa decifrada no Theatro Municipal do Rio após 117 anos
Inscrição persa decifrada no Theatro Municipal do Rio

Uma inscrição em persa antigo gravada no Salão Assyrio do Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi decifrada após 117 anos, revelando uma referência direta ao palácio do rei persa Artaxerxes. O texto, escrito em cuneiforme, permaneceu sem tradução desde a inauguração do teatro em 1909.

A descoberta foi feita pelos professores Alex Mazzanti (Latim, UFRJ) e Matheus Treuk (Arqueologia, Uerj). A inscrição diz: "Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario."

O mistério do Salão Assyrio

O Salão Assyrio, localizado no subsolo do teatro, mistura referências das civilizações Assíria e Persa, com colunas inspiradas na Apadana – o salão de audiências dos reis persas – e capitéis em forma de touro. "Na prática, o Rio de Janeiro ganhou uma pequena Apadana", afirmou o arqueólogo Matheus Treuk.

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Durante décadas, o espaço funcionou como restaurante, recebeu apresentações de Pixinguinha e dos Oito Batutas, foi museu e hoje abriga um café e espetáculos. A inscrição, porém, nunca havia sido traduzida.

Como a tradução foi feita

Alex Mazzanti percebeu a inscrição durante uma visita guiada. "Eu vi a inscrição em cuneiforme e perguntei aos guias o que estava escrito. Eles disseram que ninguém sabia", contou. Ele havia estudado persa antigo e, com a ajuda de Treuk, especialista em escrita cuneiforme, decifrou o texto.

"O cuneiforme persa é uma escrita bastante acessível para quem trabalha com ela", explicou Treuk. A frase, no entanto, não existe exatamente em nenhum monumento persa conhecido – foi uma adaptação criada pelos decoradores franceses do teatro.

Conexão com a França e a Pérsia

A decoração do Salão Assyrio foi inspirada em artefatos persas levados ao Museu do Louvre após escavações em Susa, em 1886. Essas peças foram exibidas na Exposição Universal de Paris de 1889, e a empresa francesa responsável pela decoração do teatro reproduziu os relevos e inscrições.

"Quem criou esse painel adaptou uma inscrição antiga e acrescentou a expressão 'do Apadana', indicando claramente a origem da inspiração", disse Treuk.

Um patrimônio único no mundo

Para os pesquisadores, o Salão Assyrio é uma joia do patrimônio nacional. "Não existe nada igual. As instalações europeias desapareceram, e aqui temos um conjunto permanente", afirmou Treuk. Clara Paulino, presidente da Fundação Theatro Municipal, destacou: "Essa parceria entre patrimônio, universidade e pesquisa é fundamental. Recuperamos não apenas o significado da inscrição, mas também o contexto histórico."

A partir de agora, a inscrição decifrada passa a integrar oficialmente as visitas guiadas ao Salão Assyrio.

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