População de onças-pintadas cai pela metade no Contínuo de Paranapiacaba
Onças-pintadas: população cai 50% em área de Mata Atlântica

A onça-pintada (Panthera onca), maior felino das Américas e predador de topo na América do Sul, enfrenta um declínio populacional alarmante. No Contínuo de Paranapiacaba, um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica, o monitoramento fotográfico revelou que a população local caiu pela metade entre 2020 e 2023. Especialistas apontam como principais causas a caça, atropelamentos, perda de habitat e impactos das mudanças climáticas induzidas pelo homem.

Perda de habitat e fragmentação

Beatriz de Mello Beisiegel, bióloga e coordenadora do projeto "As Onças Pintadas do Contínuo de Paranapiacaba", explica que a redução da qualidade e extensão do habitat é um fator crítico. "Um dos motivos é a diminuição de habitat e de qualidade de habitat. Estradas como a SP-250 são parte importante disso. Em 2009-2011 fizemos a primeira estimativa populacional; em 2020-2023 atualizamos e a população caiu pelo menos pela metade", comenta.

O Contínuo de Paranapiacaba abrange os parques estaduais Intervales, Turístico do Alto Ribeira (Petar), Nascentes do Paranapanema, Carlos Botelho, a Estação Ecológica de Xitué, além de Áreas de Proteção Ambiental e florestas particulares, totalizando cerca de 4 mil km² de floresta contínua. As onças-pintadas necessitam de grandes corredores florestais para se deslocar saudavelmente. "Para a onça-pintada é muito importante que não seja uma floresta fragmentada. Do maciço florestal até Itapetininga, há corredores de mato ciliar, mas para as onças-pintadas não são suficientes; elas só usam o contínuo florestal que vai de Tapiraí a Miracatu até o norte do Paraná", detalha.

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Animais monitorados e identificação

Em maio, um casal de onças-pintadas foi filmado atravessando a SP-250 entre Guapiara e Apiaí. Embora moradores tenham associado os animais aos conhecidos Escuro e Estrela, Beatriz ressalta que a identificação segura só é possível pelas rosetas (manchas na pelagem), que não aparecem no vídeo. "Dar nome aos bichos conquista as pessoas, mas não dá para afirmar com segurança. Identificamos os indivíduos pelas rosetas", afirma.

A fêmea Estrela possivelmente teve um filhote no fim de 2024, com Escuro como pai. Cerca de três meses antes de ser registrada com sinais de parto recente, o casal foi filmado acasalando. "Observamos uma situação típica de fêmea com filhote recém-nascido. Ela foi filmada repetidas vezes perto da SP-250, área perigosamente próxima da rodovia", explica. Seis meses depois, uma armadilha fotográfica capturou um filhote, que acredita ser descendente do casal. O trecho da SP-250 é considerado crítico pela ausência de passagens seguras para a fauna.

Ameaças: caça e atropelamentos

A caça ainda é a principal ameaça. Após a divulgação do vídeo, algumas pessoas sugeriram matar os animais por suposto perigo. Beatriz alerta que cada indivíduo perdido impacta profundamente uma população pequena e vulnerável. "Quando uma onça é morta, o prejuízo é enorme. Estudos mostram que, em grupos reduzidos, a perda de qualquer animal altera a dinâmica da espécie. O impacto é maior se for uma fêmea em idade reprodutiva."

Ela cita o caso da onça Soneca, monitorada com colar de rastreamento em 2014, morta quatro meses após a captura. "Uma única fêmea pode gerar várias ninhadas. Ao perdê-la, deixamos de ter futuros filhotes que ajudariam a manter a população." A população do Contínuo de Paranapiacaba funciona como um sistema interligado; os mesmos indivíduos podem percorrer grandes distâncias. "O mesmo animal fotografado em Carlos Botelho pode aparecer no Petar. Não são populações isoladas, mas um grupo pequeno e vulnerável. A morte de cada onça faz enorme diferença", conclui.

Relação com humanos e conservação

Apesar de ser o principal predador terrestre das Américas, ataques a humanos são extremamente raros. Beatriz afirma que nunca houve registro no Contínuo de Paranapiacaba. "Qualquer pessoa que veja uma onça-pintada na natureza deve saber que o contato é à distância, pois o animal tem distância de fuga. Se não tiver como fugir, pode atacar." Situações de ataque ocorrem quando o animal não encontra rota de escape, está defendendo alimento ou filhotes, ou em disputas territoriais.

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Beatriz destaca a fragilidade da população: "Sobraram poucas. Conhecemos alguns indivíduos e dois foram flagrados atravessando uma rodovia perigosa. Elas precisam ser protegidas porque enfrentam inúmeras ameaças."

Diferenças entre onça-parda e onça-pintada

A onça-parda tem ampla distribuição geográfica, do Canadá à Argentina, pesa entre 30 e 50 kg e é mais adaptável. Já a onça-pintada, maior e mais poderosa, está restrita a áreas de floresta contínua. Em regiões com populações saudáveis de onça-pintada, as pardas evitam áreas mais utilizadas pela espécie, ocupando topos de morro e caçando presas menores. Essa coexistência reduz a competição. Onde a onça-pintada está reduzida, a dinâmica é diferente.