Laudo da Sema descarta contaminação no Rio Tarauacá após vazamento de 15 mil litros de óleo
Laudo descarta contaminação no Rio Tarauacá após vazamento de óleo

Um laudo da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) não identificou contaminação nas amostras de água coletadas após o derramamento de 15 mil litros de óleo no Rio Tarauacá, no município de Jordão, interior do Acre, ocorrido em 24 de abril. Segundo o órgão, a água pode ser utilizada, pois todos os parâmetros analisados apresentaram resultados dentro da normalidade.

Vazamento após naufrágio de balsa

O vazamento ocorreu após o naufrágio de uma balsa da Transportadora RI Ltda. O acidente gerou preocupação entre moradores ribeirinhos, mobilizou órgãos ambientais e levou à decretação de situação de emergência no município. Quatro dias após o desastre, em 28 de abril, a Sema coletou as amostras. A transportadora foi multada em R$ 3 milhões e ainda pode recorrer.

Resultados das análises

Conforme a Sema, o relatório técnico com os laudos laboratoriais foi encaminhado ao Ministério Público do Acre (MP-AC) e à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O g1 entrou em contato com representantes da empresa e com o MP-AC, mas não obteve resposta até a última atualização.

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Em nota, a Sema afirmou que o laudo confirmou que os compostos ligados ao combustível e outros metais não apresentaram concentrações indicativas de contaminação. Os resultados incluem: Óleos e Graxas: 4,00; Benzeno: 0,0034; Tolueno: 0,0019; Etilbenzeno: 0,0050; Xilenos: 0,0036; BTEX Total: 0,0139; Benzo[a]pireno: 0,0139; Chumbo: 0,01 — todos abaixo dos limites de referência.

Embora a turbidez estivesse elevada (variando de 530,09 a 898,50), a análise técnica apontou que essa condição era devida ao período chuvoso amazônico, caracterizado pelo aumento de sedimentos, matéria orgânica e partículas em suspensão durante as cheias, e não pelo vazamento. Parâmetros como temperatura da água, oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), demanda química de oxigênio (DQO) e condutividade elétrica não indicaram alterações incompatíveis com a avaliação técnica.

“Os laudos não identificaram qualquer tipo de contaminação relacionada ao derramamento de óleo. Como as análises não apontaram alteração na qualidade da água, ela pode ser consumida. Todos os resultados foram negativos para contaminação após a avaliação”, informou a Sema.

Especialista alerta para riscos ocultos

Apesar do resultado, o professor e pesquisador em Geografia, Ciência, Inovação e Tecnologia para a Amazônia da Universidade Federal do Acre (Ufac), Rodrigo Peréa, explica que um laudo negativo não significa que o desastre ambiental deixou de existir. Segundo ele, a dinâmica dos rios amazônicos pode fazer com que o combustível desapareça rapidamente da coluna d'água, dificultando sua detecção em análises feitas dias depois.

“A água corrente se renova a cada segundo. Se as amostras foram coletadas dias após o pico do vazamento, ou em áreas onde a correnteza já havia levado o combustível, os níveis de óleo ficam abaixo do limite de detecção dos equipamentos. Um laudo não anula o desastre ambiental”, ponderou.

O pesquisador destaca que os maiores impactos não estão necessariamente dissolvidos na água, mas na superfície do rio e nos sedimentos do fundo. A película de diesel bloqueia a troca de oxigênio entre a água e o ar, contamina a vegetação e afeta peixes, aves e insetos. “O dano causado por um derramamento de diesel não está apenas no que se dissolve na água. O impacto ocorre na superfície, na vegetação ciliar e nos organismos que dependem desse ambiente. Isso afeta diretamente a pesca e a segurança alimentar das comunidades ribeirinhas e indígenas”, diz.

Óleo pode permanecer no fundo do rio

Peréa também afirma que o comportamento do diesel nos rios amazônicos permite que parte do combustível fique retido em áreas de pouca correnteza e no fundo do rio. As partículas de óleo aderem aos sedimentos, afundam e permanecem armazenadas na lama por anos. “O laudo da água pode dar negativo, mas a lama no fundo do rio continua retendo hidrocarbonetos. O rio não é um tubo reto e pode liberar lentamente substâncias tóxicas. Existem curvas e áreas de remanso onde o óleo fica acumulado e continua contaminando a base da cadeia alimentar”, afirmou.

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Peixes que vivem no fundo, como mandis, surubins e cascudos, podem absorver essas substâncias ao se alimentarem em áreas contaminadas, criando uma contaminação silenciosa que atinge as populações que dependem da pesca. “O perigo agora não é mais enxergar a mancha de óleo descendo o rio, mas consumir peixes que se alimentaram em sedimentos contaminados. A contaminação pode permanecer entre um e três anos. Era necessário conter o diesel com barreiras flutuantes, alertar todas as comunidades rio abaixo e garantir abastecimento de água potável antes da chegada da pluma de óleo”, disse.

Questionado sobre os riscos para moradores que utilizam água do rio, Rodrigo Peréa afirma que o consumo representa risco à saúde. “Coar ou ferver a água não resolve o problema. A única alternativa segura é utilizar outra fonte, como água da chuva armazenada corretamente, água mineral ou poços sem conexão com o rio. O risco também se estende ao preparo de alimentos e banho”, completou.

Nota oficial da Sema

O Governo do Acre, por meio da Sema, concluiu que não há evidências de contaminação da água do Rio Tarauacá em decorrência do vazamento de óleo diesel ocorrido após o tombamento parcial de uma balsa em Jordão, em abril de 2026. A conclusão consta no Relatório Técnico Definitivo elaborado pelo Departamento de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental da Sema.

Após o acidente, a Sema coordenou ações emergenciais em conjunto com órgãos estaduais e federais, incluindo instalação de barreiras de contenção, bombeamento do combustível remanescente, retirada da embarcação e monitoramento da qualidade da água em pontos nos municípios de Jordão e Tarauacá. As análises laboratoriais não detectaram concentrações de compostos associados ao óleo diesel em níveis que indicassem contaminação. Os parâmetros físico-químicos permaneceram dentro do esperado para o período, sendo a elevada turbidez compatível com o regime de cheias amazônico.

Durante as vistorias, as equipes técnicas não identificaram manchas persistentes de óleo, odores de combustível, nem registros de mortandade de peixes ou outros animais aquáticos. A avaliação técnica aponta que as condições de forte correnteza e elevado volume de água contribuíram para a dispersão e diluição do material, enquanto a retirada da embarcação eliminou a fonte do derramamento. Com base nos resultados, a Sema informa que não há necessidade de medidas extraordinárias e que o Rio Tarauacá continuará sendo monitorado pela Rede Estadual de Monitoramento da Qualidade da Água, que possui 17 pontos em nove rios do Acre.