A viúva do motorista de aplicativo Celso Novais, morto durante o atentado que matou o empresário e delator do PCC Vinícius Gritzbach, confrontou um dos advogados de defesa na saída do Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo, após a anulação do júri dos policiais militares acusados pelo crime. Simone Dionizia Fernandes abordou o advogado Claudio Dalledone enquanto ele falava com a imprensa na segunda-feira (22). "Meu filho está há dois anos sem o pai em casa, e vocês cancelaram o julgamento. Isso não é justo. Estou há dois anos lutando por Justiça", disse ela. Simone acusou a defesa de ter adotado uma estratégia para provocar a interrupção do julgamento e afirmou que a decisão fez com que revivesse o trauma da morte do marido. "Foi um show lá dentro, foi uma estratégia da defesa, eles são atores. Estou sentindo tudo de novo, tudo veio à tona quando o juiz falou. Só eu sei a luta sozinha em casa com três filhos. Só eu sei o que estou passando", afirmou.
Júri anulado após abandono da defesa
O júri popular dos três policiais militares acusados de participar do assassinato de Gritzbach e de Celso Novais foi anulado depois que os advogados de defesa abandonaram o plenário após uma discussão com o promotor de Justiça Rodrigo Merli Antunes. A discussão ocorreu após o promotor mencionar que um dos advogados de defesa havia sido vítima de um suposto atentado em Sorocaba. Os defensores alegaram que o episódio não tinha relação com o caso em julgamento e decidiram deixar o plenário. Antes da interrupção, o júri ouviu sobreviventes do atentado ocorrido no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e a própria Simone, que prestou depoimento sobre as consequências da morte do marido para a família.
Nova data será marcada
O júri deve ser remarcado em nova data com sorteio de novos jurados. Segundo o TJ, "houve abandono do plenário parte da defesa dos réus após desentendimento com o promotor, e, por isso, dissolução do conselho de sentença. O júri será redesignado para data oportuna." O júri popular havia começado na manhã desta segunda-feira e tinha previsão de durar cinco dias. Ao todo, 21 testemunhas seriam ouvidas.
Tensão durante o depoimento do perito
A tensão começou antes, durante o depoimento de um perito criminal que trabalhou no caso. O advogado Renan Canto estava questionando a testemunha quando foi interrompido pelo promotor, que o acusou de não ter lido o processo. O advogado protestou, e o promotor rebateu dizendo que ele conversava com "bandido" e "matador de aluguel". Os outros advogados se levantaram para defender o colega, e em meio aos gritos de protesto, Antunes dizia "blá-blá-blá". "O sujeito é folgado", disse o advogado Claudio Dalledone. "Acredito que não vai ter júri com esse sujeito aqui", acrescentou, chamando o promotor de cínico e descortez. Renan Canto ameaçou abandonar o plenário, caso o promotor não fosse repreendido. Após protestos, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo pediu que ele não transitasse próximo aos advogados durante os questionamentos.
Reações após a anulação
Em nota, a defesa dos policiais militares acusados manifestou repúdio aos "ataques pessoais e às ofensas dirigidas aos advogados que exercem a defesa técnica dos acusados durante a sessão plenária do Tribunal do Júri". O promotor Rodrigo Merli Antunes rebateu, dizendo que foram os advogados que tentaram interromper a sessão. "Quem disse que ia abandonar o plenário foi a defesa. Isso demonstra que eles pretendem não levar o julgamento adiante, qualquer incidente vão usar pra se vitimizar", disse a jornalistas. "Essa banca conhecida de advogados, eles parecem leões na imprensa, mas aqui se mostraram gatinhos", provocou o promotor.
Depoimentos das testemunhas
A primeira testemunha do júri foi William Souza Santos, uma das vítimas do ataque. Ele afirmou que não conhecia nenhuma das vítimas nem conseguiu identificar os atiradores. "Era uma sexta-feira. Normalmente o aeroporto é movimentado, mas naquele horário nem tanto. Mais tarde, com o embarque e desembarque de passageiros e a chegada dos funcionários, o fluxo seria bem maior", relatou. William foi atingido em três dedos da mão. A segunda testemunha foi a gerente de TI Samara. Ela estava retornando de uma viagem a Salvador quando ouviu os tiros. Disse que ficou paralisada e correu para trás de uma coluna. "Eu estava bem atrás, só ouvi os barulhos dos tiros e depois os gritos. Não vi o carro nem as pessoas que desceram atirando. Eram muitos tiros, na hora achei um barulho agudo, achei que fosse outra coisa, nunca tinha ouvido. Foram rajadas, aí teve uma pausa, vários tiros de novo e daí parou", relatou. Samara disse ter feito acompanhamento psicológico por um tempo, mas que atualmente está bem.
Depoimento da viúva e do perito
A terceira testemunha foi Simone Novais, viúva de Celso. Ela contou que soube que algo tinha acontecido quando um amigo ligou, depois recebeu um vídeo de dentro da ambulância em que ele falava: "Levei um tiro, estou dentro da ambulância". Foi a última vez em que falou com o marido, com quem tem três filhos. "Não estamos conseguindo seguir com a vida, me preocupa especialmente o filho de 15 anos, eles eram muito apegados", afirmou. Ela disse também que, depois da morte de Celso, sua vida financeira ficou "uma bagunça". A quarta testemunha foi o perito criminal Leandro, responsável pela análise dos vestígios. Ele afirmou que a perícia identificou 27 disparos de fuzil — 21 de calibre 7.62 e seis de 5.56. Segundo o perito, um dos tiros atingiu uma área interna do aeroporto a mais de 80 metros de distância e poderia ter acertado uma pessoa na cabeça.
Outras testemunhas e réus
A quinta testemunha foi Danilo Lima Silva, que por 2 anos e meio foi motorista de Vinícius. Disse que Vinícius andava com veículo com blindagem nível 5 e dois carros tinham luzes de sirene. Afirmou que já ouviu dizer que foram achados rastreadores nos carros emprestados. A sexta testemunha foi o capitão Vinicius Gomes de Campos Cajuela, da corregedoria da PM. Os réus que respondem ao processo são: Fernando Genauro da Silva, tenente da PM, acusado de dirigir o carro usado na fuga; Denis Antonio Martins, cabo da PM, responsável por atirar em Gritzbach; e Ruan Silva Rodrigues, soldado da corporação, que também atirou. Os três estão presos e são acusados de homicídio qualificado pela morte de Gritzbach e de Celso Novais, além de duas tentativas de homicídio. Os advogados dos três afirmam que eles são inocentes e dizem que "houve um direcionamento investigativo voltado à sua incriminação, sem a devida apuração de fatos e circunstâncias envolvendo outros investigados".
Segurança reforçada no fórum
O Fórum de Guarulhos terá um esquema especial de segurança para o julgamento. A presidência do tribunal determinou a suspensão das audiências de outros processos ao longo do período. Durante os dias do júri, o fórum passará por um bloqueio temporário, com circulação restrita às pessoas diretamente ligadas ao caso. O esquema contará com apoio de grupos táticos da polícia. A sala do júri tem capacidade para 80 pessoas e será ocupada apenas por magistrados, promotores, advogados, réus, jurados e servidores do tribunal. Não será permitida a entrada de público sem vínculo direto com o julgamento.



