A 3ª Vara Criminal de João Pessoa, em sentença assinada pela juíza Ana Christina Soares Penazzi Coelho, absolveu o pastor Péricles Cardoso de Melo e sua esposa da acusação de estelionato continuado. A investigação apontava um golpe de cerca de R$ 3 milhões contra fiéis de uma igreja na capital paraibana.
Decisão judicial aponta falta de intenção criminosa
Segundo a magistrada, embora esteja comprovado que o pastor recebeu empréstimos, cartões de crédito e transferências de dezenas de fiéis, causando prejuízos expressivos, a acusação não conseguiu demonstrar, além de dúvida razoável, que ele já tivesse a intenção de enganar as vítimas no momento em que solicitava os valores. O crime de estelionato exige a comprovação de dolo específico e antecedente, ou seja, a fraude deve existir desde o início da negociação, e não apenas resultar do posterior descumprimento da promessa de pagamento.
Testemunhas relatam pagamentos iniciais
A sentença destaca que diversas testemunhas relataram que o pastor honrou os primeiros pagamentos antes de deixar de quitar as dívidas, o que, para a juíza, enfraquece a tese de fraude previamente planejada. Ela também ressaltou que não foram encontradas provas de enriquecimento pessoal do acusado e que boa parte dos recursos foi aplicada em obras e melhorias da igreja. Na avaliação da magistrada, o conjunto de provas indica um quadro de "insensatez financeira e descontrole na gestão dos recursos de terceiros".
Esposa do pastor é absolvida por falta de provas
Em relação à esposa do pastor, a juíza concluiu que não houve prova de participação no suposto esquema. Nenhuma pessoa afirmou ter sido abordada ou convencida por ela, e os depoimentos indicaram que todas as negociações eram conduzidas exclusivamente por Péricles.
Mais de 30 vítimas identificadas
O inquérito policial identificou mais de 30 vítimas dos golpes. A congregação onde ele era pastor também teria sido vítima de furto, estimado em R$ 17 mil. Uma vítima, que preferiu não se identificar, deu detalhes à TV Cabo Branco sobre como o golpe ocorria. Segundo o homem, o líder religioso pedia dinheiro para reformas na igreja ou como doação para ele próprio.
Vítima relata abordagem suspeita
“No começo achei estranho, porque ele chegou com uma maquineta, e aí disse ‘você passa o cartão aqui’, a gente saca o valor e com esse valor vamos comprando material de construção, pagando a mão de obra, e as coisas iriam acontecer”, disse a vítima. Ele viu algumas reformas acontecerem, mas começou a desconfiar quando, após pedir o cartão do fiel emprestado, o pastor atrasou o pagamento pela primeira vez. “Eu perguntei o que aconteceu, o pastor disse que ‘houve um problema na maquineta, um problema com o banco, que não estou conseguindo sacar o dinheiro’. Eu achei estranho, mas ele era uma pessoa tão amigável. Ele começou a chorar dizendo que não queria sujar meu nome”, relata.
Dívida de R$ 90 mil sobe para R$ 140 mil com juros
Com todos os cartões somados, as dívidas no nome dessa vítima chegaram a aproximadamente R$ 90 mil. Hoje, por conta dos juros, o valor está em torno de R$ 140 mil. “Ele ia fazendo novas vítimas, e uma coisa que ajudava muito era que ele pedia discrição. Dizia ‘olha, ajude seu pastor, não comente nada com ninguém’. Na hora de aplicar os golpes, ele não poupou ninguém”, conta.



