O Ministério da Saúde enviou uma equipe do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS) ao Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, em São Luís, para investigar denúncias de falhas no atendimento nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas. A auditoria, coordenada pelo diretor do DenaSUS, Rafael Bruxellas, conta com cinco técnicos e deve concluir um relatório nos próximos dias.
Denúncias de aumento de mortes e negligência
Documentos enviados aos órgãos de fiscalização apontam que o hospital teria registrado 113 mortes em 2025, sendo 101 nas UTIs — um aumento de aproximadamente 159% em relação a 2024, quando foram contabilizados 39 óbitos nas unidades intensivas. A Prefeitura de São Luís contesta os números, afirmando que houve 112 mortes em 2024 e 117 em 2025, uma variação de 4,5%. No entanto, dados do DataSUS registram apenas 31 mortes em 2025, divergindo das informações municipais.
Profissionais ouvidos sob anonimato apontam subnotificação. “Você perde os dados, você deixa de planejar coisas de saúde pública, medidas de saúde pública para evitar esse tipo de óbito”, disse uma médica da unidade. Mais da metade dos 31 óbitos registrados no SUS em 2025 poderia ter sido evitada, segundo documentos da apuração.
Relatos de famílias
Entre os casos investigados está o de Kerliane, 7 anos, que morreu em 29 de abril após ser internada com dor na perna. A mãe, Jainara Sousa dos Santos, afirma que a filha recebeu alta sem drenagem de um coágulo e, ao retornar com agravamento, foi entubada em uma “grande sala” antes de ser transferida para a UTI. “A perna da minha filha foi só inchando e ela disse que era normal. Quando pensaram em fazer a drenagem, ela faleceu”, lamentou. O atestado de óbito indica parada respiratória, sepse, pneumonia hematogênica e artrite séptica.
O promotor Herbertb Figueiredo, da 1ª Promotoria da Saúde, afirmou: “Esses casos demonstram negligência no atendimento, sobrecarga de trabalho e imperícias por parte da equipe do IBMED”.
Outro caso é o de Otto, 9 meses, que morreu após 17 dias de internação. A mãe, Leyciane Barbosa, relata que o bebê foi transferido da UTI para enfermaria sem condições clínicas, piorou e só depois foi levado a outro hospital. “Tenho plena convicção de que meu filho morreu por negligência”, disse. A família precisou comprar materiais como luvas, sondas e um anticonvulsivante de R$ 600.
Os gêmeos Bento e Bernardo, 4 meses, morreram com intervalo de 24 horas após diagnóstico de bronquiolite. “Enterrar dois filhos em menos de 24 horas é inadmissível”, afirmou o pai, Ismael. A mãe, Samila, declarou: “Faltou atenção, faltou profissionalismo”.
Redução da equipe médica e mudança na gestão
Profissionais denunciam que, a partir de 13 de outubro de 2025, após a contratação do Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) para gerir as UTIs, o número de médicos caiu de 53 para três em alguns plantões — um por UTI. “Com esse quantitativo, mesmo um médico experiente não daria conta”, disse uma pediatra. “Na maioria das vezes, não é um pediatra que está no plantão.”
Funcionários relatam falhas em prescrições, falta de materiais e dificuldades em procedimentos de emergência. Em um episódio, duas médicas não conseguiram realizar desfibrilação em uma criança com parada cardíaca, que morreu.
Indicadores internos de janeiro a junho de 2026 mostram 65 mortes na unidade, 53 delas nas UTIs, um crescimento de 38,89% em relação ao mesmo período de 2025.
Investigações e respostas das autoridades
A Defensoria Pública do Maranhão pediu a anulação do contrato com o IBMED, apontando redução da equipe e contratação de profissionais sem especialização. O Ministério Público do Maranhão, o MPF e a polícia investigam o caso.
A Prefeitura de São Luís nega desabastecimento generalizado e omissão de dados, atribuindo diferenças a atrasos no processamento. Afirma que o quadro de profissionais atende às exigências da Anvisa e que o contrato com o IBMED cumpre a legislação. O Conselho Regional de Medicina acompanha a situação, e o Ministério da Saúde já apura as denúncias.



