A defesa de Mayanna Angelina Rodgers, mãe do menino de 3 anos morto após ser espancado pelo pai, o missionário norte-americano Dandre Jermaine Grayson, alega que ela também era vítima do homem. Ambos estão presos preventivamente. Os advogados afirmam que Mayanna viveu um ciclo de violência doméstica e era subjugada pelo marido.
Defesa alega que mãe era vítima de violência doméstica
“O relato é muito significativo de uma mulher que vive um ciclo de violência doméstica. A defesa está convicta nisso e vai trabalhar para elucidar os fatos nesse sentido”, declarou a advogada Isabel Cochlaf. Os três advogados que atuam na defesa, contratados por uma ONG, relatam um suposto caso de privação de liberdade. Eles contam que Mayanna casou com Dandre aos 19 anos e, em seguida, o casal viajou dos Estados Unidos para o Brasil, onde morou em outros dois estados antes de chegar ao Rio Grande do Sul.
“Ela era impedida por ele de pedir socorro. Há nove anos o sistema como um todo falha com essa família, porque é uma estrangeira num país que ela não conhece a lei, não tem nenhum familiar perto e uma rede completa falhou na proteção dela e das crianças”, afirmou Isabel. O advogado André von Berg descreveu Mayanna como “uma mulher absolutamente dominada” que “não tinha nenhum poder sobre a vida dela”.
Mãe era isolada e controlada pelo marido
Segundo os advogados, Mayanna não teria acesso a dinheiro, telefone celular, televisão ou rádio. Também seria proibida de contatar a própria família, que é religiosa e vive nos Estados Unidos. “Ele proibiu o contato dela com a família. Ela ficou nove anos sem poder falar com os pais. Quando eles mandavam e-mail, ele respondia no lugar dela”, relatou Isabel. A defesa afirma que ela não poderia deixar os domicílios pelos quais o casal passou nos últimos anos nem para parir os cinco filhos que tiveram. “Os partos todos foram feitos em casa por ele. Então, a gente vê que existe uma grande submissão”, afirmou André.
Missionário não era ligado a igreja no Brasil
Os advogados ainda dizem que, apesar de ser um missionário “autoproclamado”, Dandre não faria parte de nenhuma igreja em solo gaúcho. “Não foi uma missão da igreja que os enviou. Ele decidiu vir. Ele era um evangelizador, um pregador, mas pregava só para a família dele, dentro de casa, para a esposa e para os filhos”, disse André. “Ele usava a Bíblia para subjugar e para escravizá-la”, resumiu. Eles alegam que Mayanna não pode ser suspeita de omissão por, no entendimento da defesa, tratar-se também de uma vítima. Os advogados devem formular um pedido de liberdade nesta sexta-feira (10).
Entenda o caso do menino espancado
A Polícia Civil afirma que o menino de 3 anos teria sido espancado pelo próprio pai em Viamão. O missionário norte-americano confessou o crime e está preso desde domingo (5). Em depoimento à Polícia Civil, ele disse que a motivação para as agressões foi o filho não ter lhe dado “bom dia”. De acordo com a delegada Luana Tamiozzo Medeiros, substituta na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) e responsável pela investigação, o homem relatou ter desferido socos no peito e no abdômen da criança, além de ter batido a cabeça do menino contra o chão.
O crime aconteceu no distrito de Águas Claras, onde a família mora. O menino estava internado em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre e morreu na noite de quarta-feira (8). O próprio agressor levou o menino até o hospital de Viamão no domingo. Devido à gravidade dos ferimentos, o menino foi transferido para a capital. Ao constatar as múltiplas lesões, a equipe médica acionou o 18º Batalhão de Polícia Militar (BPM). O norte-americano foi preso em flagrante no hospital. Na segunda-feira (6), durante audiência de custódia, a Justiça converteu o flagrante em prisão preventiva.
Defesa da mãe pede liberdade
Em nota, a defesa de Mayanna diz que ela “é vítima e se encontrava em estado de grave vulnerabilidade no contexto de violência doméstica, física, emocional e espiritualmente”. Segundo as autoridades, a família vive no Brasil há nove anos e havia se mudado para Viamão há cerca de oito meses.



