O júri popular dos três policiais militares acusados de participar do assassinato do empresário e delator do PCC Vinícius Gritzbach e do motorista de aplicativo Celso Novais foi anulado nesta segunda-feira (22), cerca de nove horas após ter começado no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo. A interrupção ocorreu depois que os advogados de defesa deixaram o plenário em meio a uma discussão com o promotor de Justiça Rodrigo Merli Antunes. O júri deve ser remarcado em nova data com sorteio de novos jurados.
Por que o julgamento foi interrompido?
A discussão começou quando o promotor mencionou que um dos advogados de defesa havia sido vítima de um suposto atentado em Sorocaba. Os defensores afirmaram que o episódio não tinha relação com o caso Gritzbach e consideraram a referência inadequada. Após o desentendimento, os advogados decidiram abandonar o plenário.
Por que o júri foi anulado?
Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), o julgamento não poderia prosseguir sem a presença da defesa. Em nota, o tribunal informou que "houve abandono do plenário por parte da defesa dos réus após desentendimento com o promotor e, por isso, dissolução do Conselho de Sentença". Na prática, a saída dos advogados levou ao encerramento da sessão e à anulação de todos os atos realizados até então.
O que acontece agora?
O TJ-SP informou que o júri será redesignado em data ainda não definida. Isso significa que todo o julgamento terá de começar novamente, desde o início. Também será necessário formar um novo Conselho de Sentença, composto por sete jurados responsáveis por decidir pela condenação ou absolvição dos réus.
Os depoimentos dados nesta segunda-feira valem?
Não. Com a dissolução do Conselho de Sentença, o julgamento precisará ser reiniciado integralmente. Assim, as testemunhas deverão ser convocadas novamente para prestar depoimento no novo júri. Antes da interrupção, haviam sido ouvidos sobreviventes do atentado ocorrido no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e a viúva do motorista de aplicativo Celso Novais, morto por engano durante o ataque.
Quem são os réus?
São réus no processo: o tenente Fernando Genauro da Silva, apontado pela Promotoria como o motorista do carro usado na fuga; o cabo Denis Antonio Martins, acusado de ser um dos atiradores; e o soldado Ruan Silva Rodrigues, também apontado como um dos autores dos disparos. Os três estão presos e respondem por homicídio qualificado pelas mortes de Gritzbach e de Celso Novais, além de duas tentativas de homicídio. Todos negam participação no crime.
Tensão no julgamento
A tensão começou antes, durante o depoimento de um perito criminal que trabalhou no caso. O advogado Renan Canto estava questionando a testemunha quando foi interrompido pelo promotor, que o acusou de não ter lido o processo. O advogado protestou, e o promotor rebateu dizendo que ele conversava com "bandido" e "matador de aluguel". Os outros advogados se levantaram para defender o colega, e em meio aos gritos de protesto, Antunes dizia "blá-blá-blá". "O sujeito é folgado", disse o advogado Claudio Dalledone. "Acredito que não vai ter júri com esse sujeito aqui", acrescentou o advogado, que também chamou o promotor de cínico e descortez. Renan Canto chegou a caminhar em direção à porta, ameaçando abandonar o plenário, caso o promotor não fosse repreendido. Após protestos dos defensores, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo pediu que ele não transitasse próximo aos advogados quando eles estivessem questionando as testemunhas.
"O Ministério Público faz um jogo de cena para que o júri não termine", afirmou Dalledone em coletiva de imprensa durante o intervalo do julgamento. "O promotor quer dissolver o conselho", acrescentou. Antunes rebateu dizendo que foram os advogados que tentaram interromper a sessão. "Quem disse que ia abandonar o plenário foi a defesa. Isso demonstra que eles pretendem não levar o julgamento adiante, qualquer incidente vão usar pra se vitimizar", disse a jornalistas. "Essa banca conhecida de advogados, eles parecem leões na imprensa, mas aqui se mostraram gatinhos", provocou o promotor.
Depoimentos das testemunhas
A primeira testemunha do júri popular foi William Souza Santos, uma das vítimas do ataque ocorrido no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. William, que trabalhava no aeroporto havia sete anos, afirmou que não conhecia nenhuma das vítimas nem conseguiu identificar os atiradores. "Era uma sexta-feira. Normalmente o aeroporto é movimentado, mas naquele horário nem tanto. Mais tarde, com o embarque e desembarque de passageiros e a chegada dos funcionários, o fluxo seria bem maior", relatou. Durante o ataque a Gritzbach, William foi atingido em três dedos da mão.
A segunda testemunha foi a gerente de TI Samara. Ela estava retornando de uma viagem a Salvador, na Bahia, e ia pedir um carro de aplicativo quando ouviu os tiros. Disse que ficou paralisada no primeiro momento e correu para trás de uma coluna com outras pessoas. Foi quando se deu conta de que tinha sido baleada na barriga. "Eu estava bem atrás, só ouvi os barulhos dos tiros e depois os gritos. Não vi o carro nem as pessoas que desceram atirando. Eram muitos tiros, na hora achei um barulho agudo, achei que fosse outra coisa, nunca tinha ouvido. Foram rajadas, aí teve uma pausa, vários tiros de novo e daí parou", relatou. Samara disse ter feito acompanhamento psicológico por um tempo, após o episódio, mas que atualmente está bem.
A terceira testemunha da acusação foi Simone Novais, funcionária pública e esposa do motorista de aplicativo Celso Araujo Sampaio de Novais, que também morreu no crime. Simone contou que soube que algo tinha acontecido quando um amigo ligou para ela, depois recebeu um vídeo de dentro da ambulância em que ele falava: "Levei um tiro, estou dentro da ambulância". Foi a última vez em que falou com o marido, com quem tem três filhos. "Não estamos conseguindo seguir com a vida, me preocupa especialmente o filho de 15 anos, eles eram muito apegados", afirmou. Ela disse também que, depois da morte de Celso, sua vida financeira ficou "uma bagunça". Os filhos o viram na UTI, entubado; o mais novo chegou a chacoalhar o pai pedindo: "Levanta, levanta". "Foi desesperador ver meu filho puxando ele para levantar. O de 15 anos se fechou ali."
A quarta testemunha de acusação foi o perito criminal Leandro, responsável pela análise dos vestígios do caso. Ele afirmou que a perícia realizou um escaneamento do local do crime e identificou 27 disparos de fuzil — 21 de calibre 7.62 e seis de 5.56. Segundo o perito, um dos tiros atingiu uma área interna do aeroporto a mais de 80 metros de distância e poderia ter acertado uma pessoa na cabeça. A perícia também verificou danos em um ônibus da GCM, possivelmente causados por ricochete.
A quinta testemunha de acusação foi Danilo Lima Silva, que por 2 anos e meio foi motorista de Vinícius. Durante seu depoimento, ele disse que Vinícius andava com veículo com blindagem nível 5 e dois carros tinham até luzes de sirene, como viatura. Disse também que Vinícius emprestava os carros para várias pessoas, pois eram “meio que comunitários”. Afirmou que já ouviu dizer que foram achados rastreadores nos carros emprestados, sendo que um PM que fazia escolta dele teria achado o equipamento. Danilo ressaltou que no dia do ataque viu dois homens descerem do carro para atirar, sendo um deles bem alto.
A sexta testemunha ouvida foi o capitão Vinicius Gomes de Campos Cajuela, da corregedoria da PM.
Reação da viúva
Na saída do fórum, após o cancelamento do júri, Simone Dionizia Fernandes, viúva do motorista de aplicativo Celso Novais, se aproximou do advogado de defesa Claudio Dalledone, que concedia entrevista à imprensa, e o acusou de ter provocado a anulação do julgamento. Em meio à comoção, ela afirmou que o filho está há dois anos sem o pai e classificou a saída da defesa do plenário como uma estratégia. "Meu filho está há dois anos sem o pai em casa, e vocês cancelaram o julgamento. Isso não é justo. Estou há dois anos lutando por Justiça", disse. Simone afirmou ainda que a interrupção da sessão a fez reviver o trauma da morte do marido. "Foi um show lá dentro, foi uma estratégia da defesa, eles são atores. Estou sentindo tudo de novo, tudo veio à tona quando o juiz falou. Só eu sei a luta sozinha em casa com três filhos. Só eu sei o que estou passando", declarou.
O caso Gritzbach
Gritzbach foi morto com tiros de fuzil na área de desembarque do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em 8 de novembro de 2024. O motorista, que não o conhecia, foi atingido por um disparo durante o ataque e morreu. Antes de ser executado, o empresário havia delatado ao Poder Judiciário um esquema de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro envolvendo criminosos do Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e policiais corruptos. Em troca, receberia o benefício da redução da sua pena caso fosse condenado por lavagem de dinheiro para as facções.
Outros réus e o que diz a defesa
O réu Kauê do Amaral Coelho, conhecido como "Jub" ou "Jubileu" e apontado como o "olheiro" está foragido. A defesa apresentou recurso e o processo foi desmembrado. Outros dois réus, Diego dos Santos Amaral, conhecido como "Didi", e Emilio Carlos Gongorra Castilho, conhecido como "Cigarreira", "João Cigarreiro", "Bill" ou "Pai", apontados como mandantes do crime, também estão foragidos. Segundo o processo, eles não foram citados nem constituíram defesa, motivo pelo qual a ação em relação aos dois permanece suspensa.
"A defesa de Fernando Genauro, Denis e Ruan reitera que os três acusados, desde o primeiro momento, negam qualquer participação no homicídio de Antônio Vinicius Gritzbach e sempre sustentaram que houve um direcionamento investigativo voltado à sua incriminação, sem a devida apuração de fatos e circunstâncias envolvendo outros investigados", diz nota dos advogados Claudio Dalledone Junior, Renan Canto, Mauro Ribas, Renato Soares, Nayara Thibes e Taynara Sturaro.
Segurança reforçada
O Fórum de Guarulhos terá um esquema especial de segurança para o julgamento. Para garantir a integridade dos trabalhos e das pessoas envolvidas, a presidência do tribunal determinou a suspensão das audiências de outros processos ao longo do período. Durante os dias do júri, o fórum passará por um bloqueio temporário, com circulação restrita às pessoas diretamente ligadas ao caso. O esquema contará com apoio de grupos táticos da polícia, que atuarão em conjunto com o policiamento rotineiro. A sala do júri tem capacidade para 80 pessoas e será ocupada apenas por magistrados, promotores, advogados, réus, jurados e servidores do tribunal. Não será permitida a entrada de público sem vínculo direto com o julgamento.



