Programa Jovem Aprendiz transforma vida de adolescentes em abrigos no RJ
Jovem Aprendiz transforma vida de adolescentes em abrigos no RJ

Para adolescentes que vivem em abrigos, conseguir um emprego significa mais do que uma renda: é a oportunidade de construir um futuro diferente, onde suas vidas não são definidas pelas dificuldades, mas pelo potencial de conquistas. Nesta quarta-feira, 15 de julho, celebra-se o Dia Mundial das Habilidades dos Jovens, instituído pela ONU para conscientizar sobre a importância de preparar a juventude para a vida adulta com educação de qualidade e capacitação profissional.

Parcerias público-privadas do TJRJ

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) apoia essa proposta por meio de parcerias entre setor público e privado. O órgão criou a Comissão de Articulação de Programas Sociais (Coaps), responsável por inserir jovens institucionalizados por medidas protetivas ou socioeducativas em cursos de capacitação e no mercado de trabalho, via programa Jovem Aprendiz.

Ema Vitória Alves, de 19 anos, é um exemplo dessa transformação. Ela teve o primeiro contato com o mercado de trabalho por intermédio da Coaps. “Eu perdi a minha mãe aos dois anos de idade e, um tempo depois, fui acolhida. Desde criança, tinha o sonho de ter a minha própria casa e sabia que precisaria dela quando chegasse à maioridade. Então, quando comecei a trabalhar como Jovem Aprendiz, juntava tudo o que ganhava até conseguir comprar uma pequena casa no bairro em que me criei”, orgulha-se a jovem, reconhecida pela equipe pelo empenho.

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Realidade dos adolescentes institucionalizados

Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento de abril de 2026 apontam que há mais de 36 mil menores de idade institucionalizados no Brasil. Uma pequena parte está direcionada para adoção; a maioria, cerca de 80%, está nos abrigos por outros motivos, principalmente o cumprimento de medida protetiva — aplicada quando a integridade física, psicológica ou a própria vida da criança ou do adolescente corre risco.

A Unidade de Reinserção Social Angélica Goulart, em Del Castilho, na Zona Norte do Rio, é um dos equipamentos públicos destinados a receber adolescentes sob medida protetiva. Desde a reinauguração, em 2024, 47 meninos já passaram pelo local, que atualmente acolhe 12. “Quando um adolescente completa 17 anos e não tem perspectiva de ser reintegrado à família extensa ou ser adotado, a equipe técnica inicia o processo de desenvolvimento da autonomia dele”, explica a juíza titular da Vara da Infância, Juventude e Idoso de Teresópolis, Vania Mara Gonçalves.

Histórias de superação

Caio (nome alterado para preservar a identidade, conforme o ECA), um dos abrigados na unidade, trabalha como Jovem Aprendiz na Comlurb e planeja os próximos passos. “Trabalho na área de logística há alguns meses e fiz um curso na Firjan. No meu dia a dia, mapeio as ruas onde o caminhão da coleta vai passar. Achei a tarefa legal porque comecei a conhecer mais a cidade. Um dia, gostaria de comprar uma casa bonita, pintada de azul-claro, com uma piscina, e ter um cachorro pitbull”, projeta.

A vontade de conquistar o próprio espaço e ter independência financeira é um anseio comum entre eles. “Os jovens daqui ficam muito ansiosos para participar do Jovem Aprendiz. Quando fazem 14 anos, é uma pedição danada”, brinca a diretora da unidade, Elisabeth Oliveira. “Eles têm o desejo de construir a própria vida e veem no programa uma oportunidade real. Ensinamos sobre a importância da responsabilidade no trabalho, de administrar os recursos e de desenvolver autonomia e autocuidado.”

Impacto na autoestima e inclusão social

Para a juíza titular da 1ª Vara da Infância e Juventude Protetiva da Capital, Lysia Maria Mesquita, o ingresso em cursos de qualificação e no mercado formal tem impacto imediato na autoestima dos menores. “O adolescente acolhido geralmente tem uma autoestima baixa por não ter um trajeto social estável ou por ter uma escolaridade defasada. No entanto, quando são escolhidos para exercer uma função, o olhar deles sobre si muda. Eles gostam de ser reconhecidos pelo trabalho e de ser remunerados. Isso faz com que reconheçam o próprio potencial”, avalia a magistrada.

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Gestor do programa Jovem Aprendiz da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde — que desde 2023 já recebeu 14 adolescentes encaminhados pela Coaps —, Leandro Alves comprova o valor da iniciativa. “Buscamos dar propósito ao programa, dando destinos a eles através da empregabilidade e do senso de pertencimento social. É gratificante proporcionar essa transformação profissional e de vida. A principal mudança observada é a ampliação de perspectivas e o acesso a um ambiente que eles antes achavam inacessível”, destaca.

Além de abrir portas para o mercado de trabalho, os programas de aprendizagem e qualificação voltados a adolescentes em acolhimento atuam como ferramenta de ruptura de ciclos de exclusão social, promovendo um caminho digno e seguro para as novas gerações.