Jaques Wagner alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero
Jaques Wagner alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero

A 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18), tem como alvo o senador Jaques Wagner (PT). A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação, cita um apartamento de alto padrão no bairro do Horto Florestal, em Salvador, como uma das supostas vantagens recebidas pelo senador em troca de atuação em favor de interesses do Banco Master.

O imóvel de luxo

Segundo a Polícia Federal, o imóvel está localizado no empreendimento Poème Horto, na Rua da Sapucaia, uma região de imóveis de luxo na capital baiana. A unidade mencionada é o apartamento 1702, avaliado em R$ 2,4 milhões. O empreendimento está sendo construído pela empresa pernambucana Moura Dubeux, com previsão de entrega para setembro de 2026. O condomínio é voltado para um público de alta renda, com apartamentos amplos, áreas comuns sofisticadas e estrutura de lazer completa.

O Poème Horto possui uma única torre com 36 pavimentos residenciais e apenas dois apartamentos por andar, totalizando 72 unidades. Os imóveis foram projetados em duas configurações: apartamentos com 173,18 m² e unidades maiores, com 203,91 m², podendo ser de 3 ou 4 suítes. Todos contam com hall privativo e depósito individual. Nas unidades maiores, a suíte principal pode ter dois closets e dois banheiros, além de dois chuveiros e duas cubas. A planta inclui ainda sala para dois ambientes, cozinha ampla, com possibilidade de integração à área social, e varanda gourmet com espaço para acomodar mesas de oito a dez lugares. Os apartamentos contam com acabamentos de alto padrão e previsão para personalização de revestimentos, bancadas, metais e louças. Os projetos também incluem aquecimento a gás para os chuveiros, iluminação natural ampliada e layouts flexíveis, que permitem ampliar salas ou reduzir o número de suítes.

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Além das dimensões dos imóveis, o condomínio chama atenção pela infraestrutura de lazer. Entre os equipamentos disponíveis estão piscina com raia de 25 metros, piscina infantil, spa aquecido, academia com mais de 130 m², salão de festas, salão de jogos, brinquedoteca, playground e espaço gourmet. A área externa ainda dispõe de quadra de tênis/poliesportiva, espaços para animais de estimação, bicicletário e estrutura para recebimento de encomendas. Há também vagas de estacionamento para visitantes. Na segurança, o empreendimento possui guarita blindada, controle de acesso de veículos, clausura para pedestres, circuito interno de monitoramento por câmeras, fechaduras eletrônicas e sistema de vigilância na garagem. Localizado em uma região conhecida por áreas verdes e imóveis valorizados, o condomínio fica próximo a hospitais, academias, restaurantes e centros comerciais.

O que diz a investigação

Segundo informações obtidas pela TV Globo e que constam nos autos, o foco central desta fase é a relação de proximidade entre Jaques Wagner e o banqueiro Augusto Lima, dono do Banco Pleno e apontado como aliado estratégico de Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master. A autoridade policial aponta que a relação entre Jaques e Augusto Ferreira Lima seria antiga, próxima e marcada por elevado grau de confiança pessoal, circunstância que teria criado ambiente propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa de interesses privados do Banco Master.

A apuração teve um avanço após a análise de mensagens encontradas no celular de Augusto Lima, que revelaram a dinâmica do suposto esquema. A investigação reúne mensagens, áudios, ligações telefônicas, contratos, comprovantes de transferências bancárias, registros de empresas, planilhas de pagamentos e dados extraídos de celulares apreendidos em fases anteriores da Operação Compliance Zero.

A PF investiga se o senador atuou diretamente em favor de projetos de interesse do grupo financeiro. Entre as medidas citadas estão a chamada "Emenda Master" e uma proposta legislativa que visava ampliar o limite do crédito consignado, setor onde o grupo de Vorcaro e Lima possui forte atuação por meio do Credcesta. Em contrapartida, os investigadores suspeitam que Wagner tenha sido beneficiado com:

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  • Propina: repasses que somariam R$ 3,5 milhões, realizados por meio de uma empresa ligada ao enteado e à nora do senador.
  • Imóvel de luxo: a transação suspeita de um apartamento no Poeme Residence (unidade 1702), no Horto Florestal, avaliado em mais de R$ 2,4 milhões.
  • Mordomias: uso frequente de aeronaves particulares e recebimento de ingressos para shows.

De acordo com a representação, o senador teria mantido interlocução direta com Augusto Ferreira Lima sobre temas relacionados à elevação da margem consignável da remuneração disponível para trabalhadores regidos pela CLT, aposentados e pensionistas do RGPS, além de autorizar empréstimos e financiamentos por beneficiários do BPC e de outros programas federais de transferência de renda, ensejando a apresentação da Emenda nº 30 à Medida Provisória nº 1.106/2022 (convertida na Lei nº 14.431/2022). Também são investigadas a tentativa de aprovação da PEC nº 65/2023, com repercussões sobre o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e a atuação parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação de potencial aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

Quem é Augusto Lima

Augusto Lima, dono do Banco Pleno e ex-sócio de Daniel Vorcaro, é alvo da PF e possui ligações com petistas da Bahia. Jaques Wagner, que já foi governador da Bahia por dois mandatos e ocupou diversos ministérios, havia sido citado anteriormente por intermediar contatos entre o grupo financeiro e altas autoridades. Nesta manhã, policiais federais cumpriram 18 mandados de busca e apreensão, inclusive em um endereço do senador em Salvador, no Corredor da Vitória.

A Operação Compliance Zero continua a investigar o fluxo financeiro do Banco Master, que já resultou em prejuízos estimados em R$ 12 bilhões e na liquidação extrajudicial do Banco Pleno, de Augusto Lima, pelo Banco Central.

Quem é Jaques Wagner

Jaques Wagner nasceu no Rio de Janeiro, mas fez carreira política na Bahia, onde foi deputado federal e governador. Sua iniciação na vida política teve origem no movimento estudantil, a partir de 1968. Ele foi presidente do diretório acadêmico da Faculdade de Engenharia da PUC do Rio de Janeiro. Em 1973, foi obrigado a abandonar o curso devido a perseguições do regime militar. Mudou-se para Salvador e começou a trabalhar no Polo de Camaçari, como técnico em manutenção. Pouco tempo depois, militava no meio sindical. De 1987 a 1989, foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Petroquímica (Sindiquímica). Sua ligação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem dessa época; ambos se conheceram em um congresso de petroleiros. Também foi um dos responsáveis pela organização da CUT na Bahia.

Seu primeiro cargo eletivo foi em 1990, como deputado federal, sendo reeleito duas vezes (1994 e 1998). Wagner também ocupou o Ministério do Trabalho no governo Lula (2003-2004) e foi ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Com a crise do "mensalão", em 2005, foi designado Ministro das Relações Institucionais. Em 2006, foi eleito governador da Bahia, quebrando um ciclo de quatro mandatos consecutivos do PFL. Cumpriu dois mandatos (2007-2014). Também foi ministro da Defesa (janeiro a outubro de 2015) e assumiu a Casa Civil (até março de 2016), no segundo mandato de Dilma Rousseff. Chegou a ser Ministro-Chefe do Gabinete Pessoal da Presidência em 2016.