O 1º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro condenou nesta sexta-feira (17) os irmãos Pedro Emanuel D'onofre Andrade e Otto Samuel D'onofre Andrade, ambos ex-policiais militares, pelo homicídio triplamente qualificado do bicheiro Fernando Iggnácio, morto em 2020. A sentença foi proferida pelo juiz Thiago Portes, que fixou as penas em anos de prisão (os valores exatos não foram divulgados na sentença original).
Promotora destaca cooptação de policiais pelo jogo do bicho
No segundo dia do júri, a promotora Andréa Fava, do Grupo de Atuação Especializada em Júri (Gaejuri) do Ministério Público, iniciou as alegações lembrando que pelo menos quatro dos réus envolvidos no crime atuaram como policiais militares. Entre eles estão Rodrigo Silva das Neves, condenado a mais de 32 anos de prisão; Márcio Araújo de Souza, homem de confiança de Rogério Andrade; e os irmãos Pedro e Otto. "Esse é um aspecto nefasto, a cooptação de agentes da lei, que deveriam zelar pela sociedade, pela repressão do crime, agentes que são cooptados pela grande máfia da contravenção, do capo Rogério Andrade, que responde como mandante deste crime em outro processo", afirmou a promotora.
Crime planejado com profissionais da morte
Fava classificou o assassinato como meticulosamente planejado, com atuação de executores profissionais: "Não se trata de um crime no calor da emoção. Se trata de um crime com características de profissionais da arte de matar, de homens que eram policiais militares". A promotora também lembrou que a vítima, Fernando Iggnácio, era um dos 'capos' do jogo do bicho no Rio de Janeiro, e citou a disputa sangrenta entre ele e Rogério Andrade pela herança do bicheiro Castor de Andrade.
Defesa chama acusação de 'colcha de retalhos'
O advogado Flávio Fernandes, que defende os irmãos, afirmou que as provas são insuficientes para condená-los e questionou as investigações da Delegacia de Homicídios. Segundo ele, a acusação é uma 'colcha de retalhos'. Fernandes citou que não foi feito exame de digitais nas armas encontradas na casa de Rodrigo Silva das Neves. "A delegacia de homicídios é um antro de corrupção. Vários crimes sem solução, diversos crimes que tentaram imputar a pessoas inocentes aquela prática", pontuou. Ele ainda alegou insanidade mental de Pedro D'onofre Cordeiro e pediu sua declaração de inimputabilidade, além de negar qualquer relação de seus clientes com Rogério Andrade.
Júri ouviu testemunhas e exibiu vídeos
O primeiro dia do júri começou por volta das 12h, com a oitiva de seis testemunhas, entre elas o delegado Moyses Santana, titular da DH na época do crime; o policial civil Luciano Konig; o coordenador de voo da Heli-Rio; o zelador do prédio de Rodrigo; o instalador de câmeras da Heli-Rio; e a perita Maria Laura Almeida Barbosa. Foram reproduzidos em vídeo os depoimentos do piloto do helicóptero Diego Tichetti e da administradora Vanessa Mouzo, que faltaram na quinta-feira. Os réus permaneceram em silêncio.
Reconhecimento do local dias antes do crime
O delegado Moysés Santana afirmou que Pedro Emanuel fez um voo de helicóptero para reconhecimento do local três dias antes do homicídio. No dia 7 de novembro de 2020, Pedro esteve na Heli-Rio e realizou um voo panorâmico com uma mulher, percorrendo a mesma rota que Fernando Iggnácio faria três dias depois: de Ilha Grande até o Rio. O coordenador de voo e uma atendente confirmaram que Pedro pagou a viagem em dinheiro, entre R$ 1,3 mil e R$ 1,5 mil. O policial civil Luciano Konig, responsável por análises de dados de celulares, afirmou que o planejamento do crime foi longo: "Possivelmente desde janeiro daquele ano eles estavam fazendo atos preparatórios para aquele homicídio. Há imagens do fardamento utilizado no crime desde janeiro daquele ano". Konig também revelou que Pedro e Otto participaram de um encontro dias após o crime, preocupados com possíveis imagens de câmeras de segurança.
Júri desmembrado e mandante preso
O julgamento dos irmãos foi desmembrado do de Rodrigo Silva das Neves, condenado em abril a 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão. A defesa dos irmãos passou por mudanças: eles destituíram o advogado Flávio Fernandes, que posteriormente foi reintegrado. O pedido de incidente de insanidade mental para Pedro foi negado. O bicheiro Rogério Andrade, apontado como mandante do crime, foi preso em outubro de 2024 e teve a liberdade negada pelo STF. Ele responde a processo separado.



