Filha de advogado assassinado em Cuiabá relata medo e busca por justiça
Filha de advogado assassinado em Cuiabá relata medo

Lívia Nery, filha do advogado Renato Gomes Nery, de 72 anos, assassinado em julho de 2024 em Cuiabá, afirmou que a família ainda convive com o medo e a insegurança quase dois anos após o crime. Ela prestou depoimento como testemunha de acusação na manhã desta quarta-feira (15), antes do início do júri de Alex Roberto de Queiroz Silva, acusado de ser o executor do homicídio.

Família ainda convive com apreensão

Segundo Lívia, o período entre o assassinato e o julgamento foi marcado por apreensão e pela necessidade de proteção policial. "Ficamos por meses sem saber sobre a nossa vida. No início, isso foi realmente desesperador. Quando descobrimos envolvimento da polícia no meio também foi muito complicado", declarou. Ela acrescentou: "Acreditamos que essa real tranquilidade vai vir mesmo depois que finalizar todos os julgamentos, na hora que a gente vê que isso terminou".

A família deposita na Justiça a esperança de recuperar a segurança perdida com a morte do patriarca. "A gente tá muito apreensivo. Esse é apenas o primeiro júri, mas eu espero que tudo ocorra bem. Na semana passada, completou dois anos da morte do meu pai, então de alguma forma agora a justiça está sendo feita", disse Lívia.

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Motivação do crime: disputa por terras

De acordo com a investigação, o assassinato de Renato Nery foi motivado por uma disputa judicial envolvendo mais de 12 mil hectares de terras em Novo São Joaquim. O Ministério Público aponta que o crime foi encomendado pelo casal Julinere Goulart Bastos e César Jorge Sechi, que teriam pago R$ 200 mil pela execução.

A investigação revelou que os policiais militares Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira atuaram como intermediários, articulando a execução, fornecendo a arma usada no crime e intermediando o pagamento ao atirador. Ambos também respondem por fraude processual qualificada e abuso de autoridade, por supostamente tentarem atrapalhar as investigações.

Papel de cada investigado

  • César Jorge Sechi e Julinere Goulart Bastos – mandantes do assassinato;
  • Alex Roberto de Queiroz Silva – atirador;
  • Sargento da PM Heron Teixeira Pena Vieira – intermediador que recebeu dinheiro, arma e contratou Alex para executar;
  • PM Ícaro Nathan Santos Ferreira – intermediador que forneceu a arma usada e facilitou a transferência do pagamento;
  • PM Jackson Pereira Barbosa – intermediador que coordenou o crime e realizou pagamentos.

O assassinato

Renato Gomes Nery foi baleado em julho de 2024, quando chegava ao escritório onde trabalhava, em Cuiabá. Segundo a Polícia Civil, o atirador já aguardava o advogado no local e fugiu em uma motocicleta após os disparos. Uma câmera de segurança registrou o momento em que Renato caminha até a entrada do escritório, é atingido pelos tiros e cai no chão. O advogado morreu um dia após o ataque. O corpo dele foi sepultado em Cuiabá, na manhã de 7 de julho de 2024.

Rastreamento financeiro

Em março deste ano, a Polícia Civil rastreou R$ 215 mil supostamente ligados ao pagamento pelo assassinato, após quebra de sigilo bancário autorizada pela Justiça. Segundo as investigações, a empresária Julinere Goulart Bastos, apontada como uma das mandantes do crime, fez uma transferência de R$ 200 mil em 4 de março de 2024. De acordo com a polícia, o dinheiro passou por contas de terceiros em uma sequência de movimentações financeiras usada para ocultar a origem e o destino final dos valores.

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Cronologia das movimentações financeiras

  • 4 de março de 2024 – A empresária investigada realizou transferências que somam aproximadamente R$ 200 mil, com valores passando por contas de terceiros;
  • 5 de março de 2024 – Parte do dinheiro foi usada para a compra de um veículo no valor aproximado de R$ 115 mil, registrado em nome de terceiro;
  • 5 de março de 2024 – Também foram transferidos R$ 40 mil para a mãe de um dos investigados;
  • 6 de março de 2024 – O restante do valor foi encaminhado para a conta do próprio investigado;
  • 8 de março de 2024 – Foi identificado pagamento direto de R$ 15 mil da suspeita apontada como mandante ao segundo investigado;
  • 12 de março de 2024 – Um dos investigados prestou depoimento confirmando a dinâmica do pagamento pelo crime.

A quebra de sigilo bancário autorizada pela Justiça permitiu rastrear o fluxo financeiro. A análise identificou movimentações fracionadas e uso de intermediários, indicando possível lavagem de dinheiro. O total rastreado nas movimentações relacionadas ao crime chegou a R$ 215 mil.

Diante das evidências reunidas, o rastreamento do fluxo financeiro e os depoimentos colhidos, a Polícia Civil concluiu que o caso se trata de crime de mando, caracterizado pelo pagamento para a prática de homicídio qualificado.