Falha em sistema de degelo e omissão da Voepass causaram queda em Vinhedo, diz FAB
Falha em degelo e omissão da Voepass causaram queda em Vinhedo

A Força Aérea Brasileira (FAB) divulgou nesta quinta-feira o relatório final da investigação sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), ocorrida em agosto de 2024. Segundo o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o desastre foi causado por acúmulo de gelo nas asas, decorrente de falhas no sistema de descongelamento da aeronave.

Investigação aponta falhas graves na manutenção

A investigação identificou falhas graves na manutenção da aeronave pela empresa, que não comunicou panes anteriores. De acordo com o Cenipa, essa era uma prática comum em voos da Voepass, que não registrava as falhas para que os aviões pudessem continuar operando com autorização das autoridades. O acidente deixou 62 mortos e levantou questionamentos sobre a segurança das operações aéreas da antiga Passaredo, que chegou a ser considerada a quarta maior companhia aérea do país.

Cenário meteorológico extremo e falhas recorrentes

Segundo a investigação, a aeronave enfrentou um cenário meteorológico extremo, com alta umidade e formação de gelo severo, que levou ao acúmulo de gelo nas asas. O sistema usado para derreter o gelo já havia apresentado falhas em viagens anteriores, que não foram comunicadas. Mesmo com as falhas, a investigação aponta que a aeronave poderia ter continuado a operar, mas com restrições em relação à altitude e duração dos trajetos e proibição de voos em condições de gelo severo.

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A comissão verificou que o comandante do voo estava ciente das condições meteorológicas e das panes apresentadas pela aeronave no trajeto anterior ao do desastre. "A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", disse o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa.

Alertas ignorados e cultura de omissão

Ao não seguir as condições recomendadas para o voo, o sistema alertou oito vezes a tripulação sobre o acúmulo de gelo nas asas. A caixa-preta mostra que, enquanto os alertas eram disparados, o piloto e o copiloto conversavam sobre assuntos pessoais. Além disso, não houve solicitação de emergência por parte da tripulação às autoridades, mesmo com um alerta grave de que a aeronave poderia entrar em pane.

Em voo da aeronave na noite anterior, os investigadores identificaram uma falha no sistema de degelo das duas asas. Essa pane não foi registrada oficialmente pela tripulação no diário de bordo — documento obrigatório usado para registrar falhas, manutenção, peças substituídas e outros fatores. A mesma falha se repetiu na asa direita nos outros dois voos anteriores ao desastre. Novamente, elas não foram comunicadas no diário de bordo.

Histórico de falhas não reportadas

Levando em conta que o mesmo erro foi repetido por três tripulações diferentes, os investigadores analisaram um ano de voos da aeronave e identificaram que o avião já havia apresentado outras falhas, que também não eram propriamente registradas. A investigação concluiu que a Voepass tinha uma cultura organizacional de normalização de desvios, em que pilotos e mecânicos não relatavam as panes da aeronave no diário de bordo, para que ela pudesse continuar operando.

Além disso, o Cenipa identificou um outro voo da Voepass, meses antes da queda em Vinhedo, que entrou em condição de stall — quando a aeronave perde sustentação. Esse voo não foi comunicado à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) nem ao Cenipa.

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