FAB divulga relatório final de queda da Voepass que matou 62
FAB divulga relatório final de queda da Voepass

A Força Aérea Brasileira (FAB) divulga nesta quinta-feira, 23, o relatório final sobre as causas da queda do avião da Voepass, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, interior de São Paulo. O acidente matou 62 pessoas — 58 passageiros e 4 tripulantes — e completa um ano, 11 meses e 14 dias de investigação. O documento, elaborado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), não tem o objetivo de apontar culpados, mas sim identificar as causas para evitar tragédias semelhantes. Paralelamente, um inquérito policial apura responsabilidades civis e criminais.

Processo de investigação técnica

A investigação do Cenipa começou no próprio dia do acidente, com a coleta de informações e entrevistas com testemunhas logo após a liberação do local pelos bombeiros. A equipe colheu materiais e realizou registros fotográficos dos destroços para identificar indícios de falhas. Também buscou gravações que capturaram o momento do acidente e verificou as condições meteorológicas no horário e percurso do voo. O Manual de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos da FAB orienta que "deve ser dada grande prioridade para dados altamente perecíveis, os quais, normalmente, somente estarão disponíveis nas primeiras horas após a ocorrência". As entrevistas de testemunhas precisam ser feitas nas primeiras horas, enquanto as lembranças estão claras, mas o investigador "não deve menosprezar a falibilidade humana e deve ter muita cautela ao analisar as declarações", segundo o manual.

Outro foco foi a localização da caixa-preta, sistema que registra dados e voz do avião, incluindo as últimas conversas da tripulação, velocidade, aceleração, condições climáticas, altitude e ajustes de potência. A caixa-preta, feita de aço e titânio, é ultrarresistente e pintada de laranja para facilitar a localização entre os destroços. O equipamento é fundamental para verificar a comunicação entre os tripulantes e possíveis alertas ao controle aéreo.

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Fases da investigação

Na fase inicial, a equipe também realizou entrevistas aprofundadas com testemunhas, funcionários das empresas envolvidas (operadora do voo, fabricante da aeronave, aeroporto, controlador aéreo) e levantou registros da aeronave e das empresas. Fatores humanos como histórico de saúde e treinamento da tripulação, exames toxicológicos e laudos de autópsia foram analisados. Um relatório preliminar foi divulgado em 30 dias pelo Cenipa.

A apuração avançou para a fase de avaliação aprofundada, com análise dos registros da caixa-preta no Laboratório de Leitura e Análise de Dados de Gravadores de Voo (Labdata) do Cenipa, em Brasília. Técnicos decodificaram e analisaram os registros, utilizando simuladores para recriar as condições de voo. Exames em laboratório dos componentes do avião também foram realizados para verificar mau funcionamento.

Reconstituição e recomendações

Com todo o material, os técnicos reconstituíram a sequência de eventos que levou ao acidente. Em alguns casos, foi necessária a reconstituição da aeronave a partir dos destroços para examinar falhas, além de maquetes e simulações virtuais. O relatório final detalha as causas e fatores contribuintes, além de trazer recomendações de segurança para evitar novos casos. Em tragédias anteriores, como a do voo da TAM em 2007 (199 mortes), o Cenipa recomendou que a Anac intensificasse a fiscalização, a Infraero implementasse áreas de escape e a TAM melhorasse o treinamento das tripulações.

Estatísticas de acidentes aéreos no Brasil

O Cenipa investiga todos os acidentes aeronáuticos no país. Nos últimos 10 anos (janeiro de 2016 a julho de 2026), o Brasil registrou 1.644 acidentes aéreos, dos quais 384 foram fatais, com 799 mortes. São considerados acidentes aeronáuticos casos com ferimento grave ou morte de pelo menos um ocupante, danos estruturais que afetem o voo ou exijam grandes reparos, e desaparecimento de aeronaves.

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A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirma exigir e fiscalizar normas de segurança conforme padrões internacionais, incluindo treinamentos e certificação de empresas e profissionais. O Ministério de Portos e Aeroportos diz atuar para fortalecer políticas públicas que reduzam acidentes, defendendo a concessão de aeroportos para garantir investimentos em infraestrutura e segurança, além de programas de capacitação e linhas de financiamento para troca de frota.

Relatório parcial apontou falhas múltiplas

Um relatório parcial do Cenipa, revelado pela Folha de S. Paulo e confirmado pelo Estadão, apontou que a queda foi causada por um conjunto de falhas de pilotos, da Voepass e da Anac. Segundo a versão preliminar, a Voepass ignorou falhas de segurança, com um contexto organizacional deficiente que tolerava desvios e desprezava alertas, como problemas no sistema de degelo detectados em voos anteriores. O documento também citou "distração" dos pilotos durante o voo, com conversas informais em procedimentos críticos, oferecendo elevado risco. Em relação à Anac, o relatório disse que a agência não tomou decisões que mitigariam os riscos, apesar de fiscalizações apontarem ausência de padrões técnicos na manutenção das aeronaves.

A Anac informou que ainda não teve acesso ao documento e só se posicionará quando o relatório final for oficialmente enviado. A Voepass, procurada, não se manifestou ao Estadão; em resposta à Folha, afirmou que não comentaria os apontamentos e que segue colaborando com as autoridades de forma transparente.

Detalhes do acidente

O voo partiu de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP). No início da tarde de 9 de agosto de 2024, o ATR-72-500 caiu em Vinhedo, matando 62 pessoas. A aeronave despencou 13 mil pés (4 mil metros) em dois minutos: estava a 17 mil pés às 13h20 e a 4 mil pés (1,22 km) às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido. O avião caiu cerca de 20 minutos antes do pouso, atingindo o quintal de uma casa em um condomínio residencial. Alguns corpos ficaram carbonizados. O piloto Danilo Santos Romano comentou sobre falha no sistema de degelo, conforme relatório preliminar de 6 de setembro de 2024. Foram registrados alertas de baixa velocidade e desempenho degradado devido ao acúmulo de gelo.