A Justiça de São Paulo decidiu levar a júri popular quatro homens acusados de executar e intermediar o falso atentado a tiros contra o então prefeito de Taboão da Serra, José Aprígio da Silva (Podemos), em outubro de 2024. A decisão de pronúncia, datada de 24 de junho e divulgada em julho, atinge Gilmar de Jesus Santos, Odair Junior de Santana, Clóvis Reis de Oliveira e Anderson da Silva Moura, que responderão por tentativa de homicídio qualificado perante o Tribunal do Júri. A decisão não identifica os mandantes do crime, cuja apuração segue em inquérito separado.
Investigação aponta simulação de atentado
O primeiro inquérito policial, concluído em fevereiro de 2025, apontou que os disparos contra o carro de Aprígio poderiam fazer parte de uma simulação de atentado para beneficiá-lo politicamente durante a campanha eleitoral. Segundo a investigação, o plano teria sido articulado por integrantes do próprio grupo político de Aprígio, mas a ação saiu do controle. Seis disparos de um fuzil AK-47 perfuraram a blindagem do veículo e atingiram Aprígio no ombro esquerdo. No carro estavam também o motorista, um secretário e um videomaker.
O segundo inquérito, encerrado em 21 de janeiro de 2026, não conseguiu identificar os mandantes. A Polícia Civil afirmou ter esgotado todos os meios investigativos. O Ministério Público, no entanto, optou por manter a investigação, solicitando quebra de sigilos bancário e telefônico dos sete investigados, incluindo Aprígio, além de novos laudos periciais.
Delator revela plano de simulação
A descoberta do plano ocorreu após a delação premiada de Gilmar de Jesus Santos, que afirmou que o atentado foi encomendado por pessoas ligadas ao grupo político de Aprígio para “parecer real” e repercutir na imprensa. Segundo Gilmar, a ideia era manipular a opinião pública e impulsionar a campanha de Aprígio, que havia ficado atrás de Engenheiro Daniel (União Brasil) no primeiro turno. “Era pra mim poder fazer um falso atentado… que o prefeito estava baixo nas pesquisas, que era pra aumentar a pesquisa”, disse o delator em audiência.
Gilmar afirmou que o plano original não era matar o prefeito, mas simular uma tentativa de homicídio. Ele disse que os participantes receberam a garantia de que não haveria risco real porque o veículo era blindado e os disparos seriam direcionados a pontos previamente definidos, como vidros e pneus. O delator também afirmou que o próprio prefeito teria conhecimento do plano, que envolveria o então secretário municipal de Obras.
Decisão judicial: dolo eventual e júri popular
Apesar da tese de simulação, a juíza entendeu que o uso de um fuzil AK-47 contra um veículo ocupado por quatro pessoas, em via pública, evidencia a assunção do risco de produzir mortes — hipótese jurídica conhecida como dolo eventual. Por esse motivo, os acusados foram pronunciados por tentativa de homicídio qualificado. Caberá ao Tribunal do Júri decidir, após análise das provas, se houve intenção de matar ou se os fatos se enquadram na tese de simulação que expôs as vítimas a risco concreto de morte.
O delegado responsável pela investigação afirmou estar convencido de que não havia intenção efetiva de matar Aprígio, pois os disparos foram efetuados a menos de dois metros de distância com um fuzil AK-47, mas o atirador disparou do lado oposto ao assento ocupado pelo prefeito. Caso a intenção fosse executá-lo, seria possível atingir diretamente os ocupantes.
Ex-prefeito chora e nega envolvimento
Em depoimento em vídeo à Justiça, ainda no primeiro inquérito, José Aprígio chorou, relatou sequelas do ferimento e disse desconhecer o ataque. “Eu não gostaria de acreditar que partiu do meu grupo político [o ataque a tiros], mas a gente… tudo é possível. A gente não pode dizer que também, né… que não foi. Eu quero que a Justiça apure, que vai chegar no culpado, e quero ver esse culpado na cadeia. E eu quero dizer pra ele: ‘Por que você fez isso comigo?’”, afirmou o ex-prefeito em audiência com o promotor Juliano Atoji. “Tô sentindo muita dor no braço”.
A defesa de Aprígio, por meio do advogado Allan Hassan, afirmou que a conclusão da polícia reforça a inocência do ex-prefeito, que não foi indiciado. “O que evidencia a inexistência de provas que o vinculem à absurda narrativa de que teria participado de qualquer suposta ‘armação’, versão esta que sempre foi rechaçada pela defesa desde o início”, disse. A defesa reiterou que Aprígio foi vítima de um grave atentado que quase resultou em sua morte.
Detalhes do atentado e situação dos acusados
O ataque ocorreu na Avenida Aprígio Bezerra da Silva, via municipalizada da Régis Bittencourt que homenageia o pai do prefeito. O carro utilizado pelos criminosos, um veículo vermelho adulterado, foi incendiado em Osasco após a fuga. Segundo o Ministério Público, Gilmar e Odair foram os responsáveis pelos disparos. Gilmar e Anderson foram presos; Odair, Clóvis e Jefferson Ferreira de Souza (foragido) seguem foragidos. Todos respondem por quatro tentativas de homicídio, adulteração de veículo, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Episódio viralizou após um vídeo editado que mostra Aprígio sangrando, gravado pelo videomaker que estava no carro, ser divulgado à imprensa 30 minutos depois do ataque pela assessoria do prefeito. Atualmente, Aprígio, de 74 anos, está temporariamente afastado da política desde que perdeu a disputa pela prefeitura para Daniel em 2024.



