A ex-prefeita de São João do Ivaí, no Norte do Paraná, Carla Suzi Emerenciano, foi condenada por improbidade administrativa após facilitar um processo seletivo para contratar a própria tia como professora de inglês. A decisão da Vara da Fazenda Pública, assinada pelo juiz Márcio Carneiro, suspendeu os direitos políticos de Carla por sete anos, proibiu-a de contratar com o poder público por três anos e impôs multa.
Defesa alega legalidade e anuncia recurso
Ao g1, a ex-prefeita afirmou que não houve irregularidade e que recorrerá da decisão. "Essa é uma questão que será esclarecida de forma muito tranquila, pois não houve nenhum crime cometido, e iremos recorrer da ação, e temos certeza da absolvição, pois ainda acredito na Justiça. Tenho certeza que não há nada de irregularidade, visto todas as ações terem sido acompanhadas pelo departamento jurídico da prefeitura, seguindo todos os preceitos da legalidade e moralidade", declarou Carla.
Secretária e tia também condenadas
Daiene Bueno, secretária de educação à época, e a tia da ex-prefeita (nome não divulgado) também foram condenadas. Ambas foram proibidas de contratar com o poder público por três anos; a tia ainda teve os direitos políticos suspensos por sete anos, e a secretária foi multada. A defesa de Daiene afirmou que "através dos recursos judiciais cabíveis, comprovará que a condenação foi desproporcional e injusta" e buscará "comprovar a verdade até última instância".
Esquema revelado por mensagens
O caso veio à tona após ação civil pública do Ministério Público do Paraná. A investigação descobriu que o esquema começou antes da posse de Carla, em dezembro de 2020, com troca de mensagens entre ela e a tia. A tia perguntou sobre a possibilidade de trabalhar como professora, e a sobrinha confirmou a contratação e o salário. Em janeiro de 2021, já no mandato, as duas definiram cargo, carga horária e remuneração antes da abertura formal do processo seletivo.
Segundo o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), "as provas colhidas nos autos, incluindo mensagens extraídas de aparelho celular apreendido mediante medida cautelar e laudos periciais produzidos pela Polícia Científica do Paraná, demonstraram que os processos seletivos foram estruturados em etapas sucessivas e articuladas para garantir a contratação da tia da prefeita".
Edital sob medida e inscrição única
Após a publicação do primeiro edital, com prazo de inscrição de uma semana, a tia questionou o valor da remuneração. No mesmo dia, uma errata alterou a carga horária e dobrou o valor da hora trabalhada, sem republicação do certame ou reabertura de inscrições. Apenas a inscrição da tia foi homologada, e ela foi aprovada com classificação isolada.
Quando o contrato terminou, um novo processo seletivo foi aberto. Antes da publicação, Carla avisou a tia por aplicativo de mensagens, enviou o conteúdo do novo edital e recomendou sigilo. "Atendendo a pedido da tia para ver o edital antes de sua publicação no Diário Oficial, sob a justificativa de verificar equívocos nas pontuações, a prefeita enviou pelo aplicativo de mensagens o arquivo editável do edital. Horas depois, a tia devolveu o arquivo modificado, confessando ter alterado a tabela de pontuação de títulos. A prefeita publicou o edital com as sugestões da tia", detalhou o TJPR.
O tribunal ainda destacou que "a abertura do processo seletivo não foi concebida como instrumento impessoal de recrutamento fundado em necessidade temporária de excepcional interesse público, mas como meio de formalizar contratação previamente ajustada em canal privado, com carga horária e remuneração moldadas às conveniências pessoais da futura candidata". O processo corre em sigilo.
Carla foi eleita com 3.405 votos e exerceu mandato de 2021 a 2024. Em 2025, um carro de luxo comprado por ela foi leiloado para recuperar dinheiro público.



