Corregedoria apura menção a delegado em inquérito da PF sobre lavagem de dinheiro
Corregedoria apura menção a delegado em inquérito da PF

Corregedoria instaura procedimento após citação em áudio

A Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo abriu um procedimento para apurar as circunstâncias da menção ao nome do delegado Fabio Pinheiro Lopes, atual diretor do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope), em um inquérito da Polícia Federal que investiga uma suposta rede de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas.

"Assim que tomou conhecimento dos fatos, a Corregedoria da Polícia Civil instaurou um procedimento correcional para apuração de todas as circunstâncias, incluindo o compartilhamento de informações com a Polícia Federal. A instituição reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a apuração dos fatos e a garantia dos direitos de todos os envolvidos", informou em nota a Secretaria da Segurança Pública (SSP).

Áudio interceptado pela PF menciona pagamento a "Fabio Caipira do Deic"

Segundo relatório da PF, o nome de Pinheiro Lopes foi citado em um áudio enviado em maio de 2024 pelo advogado Romany Cutolo Bonente, conhecido como "Roma", ao empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, responsável pelo núcleo financeiro do esquema investigado e alvo de sanções dos Estados Unidos na última semana. Ambos foram alvos de mandados de prisão pela Operação Exchange, deflagrada na última sexta-feira (3), e são considerados foragidos.

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Na conversa interceptada, Roma relata problemas na administração de dívidas milionárias atribuídas a Shimada e afirma que precisava fazer um pagamento ao "Fabio Caipira do Deic", apelido pelo qual é conhecido o delegado, que na época comandava o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). "Eu tenho que mandar R$ 100 mil pro Fabio Caipira do Deic, entendeu? Eu tenho que mandar e ponto, acabou", disse Roma no áudio, segundo transcrição reproduzida na decisão judicial que autorizou a operação.

Os investigadores registraram que o episódio pode indicar uma possível prática de corrupção e defenderam o aprofundamento das apurações. O delegado não é alvo da Operação Exchange nem foi denunciado ou acusado formalmente no caso.

Delegado nega envolvimento e anuncia processo contra advogado

Procurado, o delegado Fabio Pinheiro Lopes disse que nunca conheceu ou investigou Shimada, e que nunca tinha ouvido falar de Roma. Afirmou ainda que nunca foi alvo de apuração, inquérito ou procedimento da PF, e que vai processar criminalmente o "suposto advogado". "Se eles [os investigadores] têm o telefone do Shimada, eles vão ver que esses caras nunca falaram comigo, nunca estiveram no Deic, nunca estiveram onde eu estou. Que tipo de vantagem eu poderia oferecer para esse cara se eu não tenho nenhum tipo de investigação contra ele?", declarou ao g1.

O delegado também registrou um boletim de ocorrência por calúnia, difamação e tráfico de influência contra Roma, a quem acusa de ter usado seu nome indevidamente para extorquir Shimada. "Fui durante anos um delegado muito atuante, responsável por várias operações e prisões amplamente veiculadas pela mídia. Isso infelizmente dá motivos para advogados inescrupulosos usarem o meu nome para extorquir os seus clientes", afirmou o diretor do Dope.

Antecedentes: afastamento do Deic em 2024 e arquivamento de apuração

Em dezembro de 2024, Fabio Pinheiro Lopes foi afastado do comando do Deic após ser citado na delação do empresário Vinícius Gritzbach, assassinado no Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos. Em depoimento ao Ministério Público, Gritzbach afirmou ter pago R$ 5 milhões a um advogado que prometia obter vantagens em uma investigação por lavagem de dinheiro conduzida pelo Deic em 2022.

À época, o delegado negou as acusações e afirmou que elas eram falsas, sustentando que Gritzbach mentiu em sua colaboração premiada ou foi enganado pelo advogado. Ainda assim, o afastamento foi determinado pelo governo paulista durante as apurações. "Puto, injustiçado, eu tenho 32 anos de polícia, você pode ver minha carreira", respondeu Pinheiro Lopes a jornalistas sobre como se sentia diante do afastamento. "O governador [Tarcísio de Freitas] tem as razões dele, mas tenho certeza que na hora que tudo se esclarecer, ele vai ver que se antecipou e a gente vai voltar para o lugar da gente", declarou o delegado na época.

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Meses depois, Pinheiro Lopes passou a chefiar a divisão de materiais bélicos do Departamento de Administração e Planejamento da Polícia Civil. Em janeiro de 2026, ele foi nomeado para a diretoria do Dope pelo então secretário-chefe da Casa Civil do governo, Arthur Lima, conforme publicação no Diário Oficial. A apuração pelo MP foi arquivada em março de 2025 por falta de provas. A Procuradoria-Geral de Justiça concluiu que as acusações de corrupção feitas por Gritzbach não foram corroboradas por outras evidências produzidas durante a investigação.