Nove advogados presos na Bahia têm audiência de custódia; quatro viram preventivas
Advogados presos na Bahia: audiência de custódia converte prisões

Nove advogados presos na última sexta-feira (3) durante a Operação Sintonia de Gravata, deflagrada contra facções criminosas na Bahia, passam por audiências de custódia nesta segunda-feira (6). Até o momento, quatro deles tiveram a prisão temporária convertida em preventiva e foram encaminhados ao sistema prisional. A operação investiga a atuação de grupos criminosos envolvidos em tráfico de drogas, aquisição e posse ilegal de armas de fogo, além da articulação entre detentos e agentes em liberdade.

Operação mira chefes de facções e advogados que atuavam como intermediários

Segundo as investigações, os 10 advogados presos são suspeitos de favorecer a atuação de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Eles atendiam a 12 homens apontados como chefes do tráfico, que já estavam presos e, conforme apurado, comandavam crimes de dentro dos presídios por intermédio dos advogados. Durante a operação, foram cumpridos mandados de prisão contra os detentos e os advogados, além de 15 mandados de busca e apreensão na Bahia.

Entre os alvos estão líderes de facções como Gleidson Bonfim do Nascimento (Bonde do Maluco, atuação em Lauro de Freitas), Ian Pedro Santos (Comando Vermelho, Casa Nova), José Lucas Silva Rocha, vulgo "Índio" (Comando Vermelho, Eunápolis), Leandro da Conceição Santos, vulgo "Léo Gringo" (Bonde do Maluco, Lauro de Freitas), Manoel Luiz dos Santos Neto, vulgo "Honda" (Comando Vermelho, Juazeiro), Marlos Araújo Souza Júnior, vulgo "Bolão" (Bonde do Maluco, Senhor do Bonfim), Victor de Freitas Silva, vulgo "da Jega" (Comando Vermelho, Feira de Santana), Wesley William Alves dos Santos (PCC, Juazeiro), Averaldo Ferreira da Silva Filho, vulgo "Averaldinho" (Bonde do Maluco, Salvador), Décio Douglas Silva Oliveira, vulgo "Vaqueiro" (Bonde do Maluco, Bom Jesus da Lapa), Fábio Santana Oliveira, vulgo "Panda" (Comando Vermelho, Capim Grosso) e Francileno de Jesus Nunes, vulgo "Su", "Coroa" e "Mineiro" (Comando Vermelho, Vitória da Conquista).

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Advogados e seus supostos vínculos com facções

A investigação detalhou o papel de cada advogado. Maria Tereza Novaes Martins atuaria em favor de Victor de Freitas Silva ("Da Jega"), do Comando Vermelho em Feira de Santana. Izabela da Silva de Oliveira defendia Averaldo Ferreira da Silva Filho ("Averaldinho"), do Bonde do Maluco em Salvador. Luan Mascarenhas de Souza atuava para Francileno de Jesus Nunes ("Su, Coroa ou Mineiro"). Ícaro Cardoso Viana representava Gleidson Bonfim do Nascimento, Ademilton Mercês Alves e Décio Douglas Silva Oliveira ("Vaqueiro"). Luã Santos da Costa atuava por Leandro da Conceição Santos Fonseca ("Léo Gringo") e Wesley Willian Alves dos Santos. Fernanda Oliveira Borges defendia Marlos Araújo Souza Junior ("Bolão"), do Terceiro Comando Puro (TCP) em Senhor do Bonfim. Tamires Felix Alves Silva atuava por Décio Douglas Silva Oliveira ("Vaqueiro"). Maria Mariana Batista de Oliveira representava Fábio Santana Oliveira ("Panda"), José Lucas Silva Rocha ("Índio") e Victor de Freitas Silva ("Da Jega"). Raiza da Silva defendia Ian Pedro Santos, do Comando Vermelho em Casa Nova. Joanderson Almeida dos Santos também advogava para Leandro da Conceição Santos Fonseca ("Léo Gringo").

Vídeos e áudios mostram traficantes ditando ordens a advogados

O Fantástico divulgou no domingo (5) imagens de câmeras instaladas com autorização judicial no parlatório do presídio, que registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, momentos em que os advogados recebiam e transmitiam instruções detalhadas sobre compra e venda de armas, contabilidade do tráfico de drogas, planejamento de homicídios e sequestros. Os bilhetes com as diretrizes eram escondidos sob as roupas íntimas para burlar a fiscalização.

O coordenador do Gaeco do MP-BA, Luiz Ferreira de Freitas Neto, afirmou: "Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime. Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios".

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As gravações revelaram atuações específicas: Ícaro Cardoso Viana foi registrado recebendo instruções para recolher duas pistolas com a tia de um criminoso e anotando preços de drogas com codinomes como "peixe" (cocaína), "óleo" (crack) e "chá" (maconha). Fernanda Oliveira Borges foi filmada retirando papéis com informações das vestes, enquanto detentos ditavam balanços financeiros e ordens de cobrança sob ameaça. Maria Mariana Batista de Oliveira, em um vídeo, chora com um preso ao informá-lo sobre a morte de um comparsa; em seguida, o detento afirma que pretende matar policiais, enquanto a advogada repassa dados sobre o paradeiro de uma carabina e munições, além de instruções sobre como embalar cocaína.

Prisões preventivas e reações das defesas

Quatro advogados tiveram as prisões convertidas em preventivas no domingo: Izabela da Silva de Oliveira, Luã Santos da Costa, Maria Mariana Batista de Oliveira e Tamires Felix Alves Silva. Raiza da Silva também teve a preventiva homologada nesta segunda-feira. Os demais aguardam audiência. A Associação dos Advogados Criminalistas da Bahia (AACB), que representa parte dos investigados, manifestou "profunda preocupação com a forma como vêm sendo conduzidos e divulgados os desdobramentos da operação". A defesa de Raíza Araújo questionou a legalidade das gravações, afirmando que "não se tinha autorização judicial para gravá-la". A defesa de Fernanda Oliveira disse que está tomando conhecimento do teor da denúncia. A defesa de Luan Mascarenhas considerou a prisão "ilegal, desnecessária e desproporcional" e pediu o relaxamento.

A OAB Bahia informou que acompanhou o cumprimento dos mandados e solicitou acesso aos autos ao Tribunal de Justiça. A presidente da seccional, Daniela Borges, determinou que o material seja encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina para eventual suspensão preventiva dos advogados envolvidos.