A Justiça de Campinas condenou o escritório de advocacia Cremasco e os advogados José Antonio Cremasco e Thais Proença Cremasco a devolverem R$ 239.551,93 a um cliente que não recebeu indenização trabalhista. Além do valor principal, os réus terão que pagar R$ 20 mil por danos morais. A decisão, publicada na sexta-feira (3), expôs acusações mútuas entre pai e filha sobre a responsabilidade pela retenção dos valores.
O caso que levou à condenação
Segundo a decisão do juiz Felipe Guinsani, da 7ª Vara Cível de Campinas, um trabalhador contratou o escritório Cremasco para defendê-lo em uma ação trabalhista na 10ª Vara do Trabalho de Campinas. Ele venceu o processo, no valor total de R$ 319.402,58. Pelo contrato, 25% seriam retidos a título de honorários advocatícios, cabendo ao cliente R$ 239.551,93.
O homem descobriu, por meio de um alvará judicial, que o pagamento já havia sido feito a uma conta relacionada ao escritório. Após notificar extrajudicialmente os advogados e não obter resposta, ingressou com ação para receber o valor. O juiz entendeu que os advogados levantaram os valores e deixaram de repassá-los ao cliente, retendo quantia superior à prevista no contrato.
Acusações entre pai e filha
Em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo, Thais Proença Cremasco responsabilizou o pai, José Antonio, pelas supostas apropriações. Ela nega ter se apropriado dos valores e afirma que, no caso da condenação e em outros semelhantes, o dinheiro não foi depositado em sua conta. Segundo ela, soube do problema por meio dos próprios clientes.
Thais sustenta que os contratos eram com o escritório do pai e que ela não trabalha mais no local desde 2024, após romper relações devido às reclamações de clientes. Ela afirma que José Antonio determinava a conta para onde os valores dos processos deveriam ser enviados. "Os advogados da equipe transferiam os recursos para a conta indicada por ele, e cabia exclusivamente ao pai fazer o repasse aos clientes", declarou.
Quando os clientes reclamavam da falta de pagamento, Thais diz que levava os questionamentos ao pai, que respondia: "O processo é meu, o cliente é meu, passe o cliente para mim que eu vou resolver". Ela afirma que nunca imaginou que o pai pudesse estar se apropriando do dinheiro: "Jamais eu, enquanto advogada, enquanto filha, imaginei que ele poderia estar se apropriando de dinheiro de clientes".
Thais também afirma que, antes do rompimento em 2024, José Antonio teria assinado um documento reconhecendo a responsabilidade pelas dívidas com os clientes. Ela diz que, embora seja "muito difícil reconhecer isso como filha", considera "muito nítido" que José Antonio cometeu apropriação indébita. A confiança no pai fez com que ela assinasse documentos em branco e emprestasse seu nome, acreditando que ele "jamais seria capaz de cometer todas essas atrocidades". Por fim, informa que se colocou à disposição para ajudar as supostas vítimas, propondo pedir a penhora de honorários advocatícios de futuros processos do escritório para ressarcir os clientes.
Versão de José Antonio
José Antonio Cremasco, por sua vez, atribui a responsabilidade à filha. Ele afirma que, entre 2022 e 2024, Thais "detinha total gerência tanto da conta corrente de minha conta empresarial como de sua própria". Diz que, mesmo sem ter a gestão financeira do escritório nesse período, vem encaminhando e pagando processos de clientes, inclusive em situações em que os valores não foram depositados em sua conta empresarial nem ficaram à sua disposição.
Ele afirma que Thais não tem mais vínculo com a Advocacia Cremasco desde novembro de 2024 e que há um processo judicial de prestação de contas referente ao período em que ela teria administrado as finanças. Sustenta que não há notícia de clientes que deixaram de receber valores em processos anteriores a 2022 ou posteriores a 2025, restringindo os problemas ao período em que atribui a gestão financeira à filha.
José Antonio informa que, em agosto de 2025, contratou um profissional especializado em administração de escritórios, sem relação pessoal com ele, para organizar financeiramente os recebimentos e evitar novos problemas. Ele afirma que o Poder Judiciário continua emitindo alvarás de levantamento em nome de Thais, embora a procuração especial para recebimento tenha sido revogada quando ela deixou o escritório. Por fim, reconhece a responsabilidade pelo nome do escritório e diz que está pagando os clientes em atraso à medida que recebe novos valores.
Investigações e outras vítimas
A Secretaria da Segurança Pública informou que a Polícia Civil investiga outros supostos casos de apropriação de valores destinados a trabalhadores em processos sob responsabilidade do mesmo escritório. Há, pelo menos, nove inquéritos, sendo um deles instaurado em 2025 após denúncia encaminhada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo.
A EPTV conversou com outras duas supostas vítimas. O ambulante Felipe Costa Araújo sofreu um acidente na empresa de pintura onde trabalhava, foi demitido e moveu uma ação trabalhista. Ele ganhou o processo em 2018, mas passou a desconfiar que a parte a que tinha direito do valor recebido pelo escritório Cremasco não foi repassada. "Comecei a ligar para eles e querer o dinheiro e eles só me enrolando, me enrolando, me enrolando. E aí eu cansei e coloquei outro advogado para ver o que estava acontecendo. Quando fui ver, eles já tinham recebido o dinheiro", contou Felipe.
Já Edson Vidotti moveu um processo trabalhista contra a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) em 2021 e ganhou. A empresa fez os pagamentos em seis parcelas, uma delas superior a R$ 200 mil, mas o escritório não fez o repasse. "Eu ia lá e eles falavam: 'não caiu mais, não caiu dinheiro'. Várias vezes. Não atendia a gente corretamente", relatou. De acordo com o advogado Danilo Andrietta, que defende Edson, o escritório Cremasco transferiu apenas R$ 55 mil, retendo em torno de R$ 370 mil, que seria de direito dele após o desconto dos honorários. "A justificativa deles é que eles estavam com problemas operacionais e dificuldades de identificar qual recurso era de qual cliente e que, por conta disso, eles não haviam conseguido fazer a transferência. Uma justificativa que não fazia o menor sentido", disse Danilo.



