O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), foi filmado xingando indígenas que protestavam na barragem da cidade de José Boiteux, no Vale do Itajaí, que passa por uma obra e fica dentro do território tradicional do povo Xokleng. O episódio ocorreu na quarta-feira (8) durante a agenda oficial e foi registrado em vídeo.
Ofensas durante entrevista
Na primeira situação, enquanto concedia entrevista, o governador afirmou que estava "restaurando tudo que foi destruído pelos indígenas". Em seguida, interrompeu a própria fala, olhou na direção dos manifestantes e disse: "Vai para a put* que o pariu".
Ao retomar a entrevista, Jorginho disse que o governo "nunca esteve em uma fase tão boa". Uma mulher questionou as falas dele e o governador a rebateu: "a senhora não quer ir à merda"? A mulher respondeu que é cacique e exigiu respeito. O governador, por sua vez, perguntou: "e eu com isso?".
Nota do governo de SC
Sobre o ocorrido, o governo de Santa Catarina declarou em nota que "um grupo de indígenas se aproximou do local em protesto, com cartazes e reivindicações diversas, incluindo pautas de responsabilidade federal e temas que não estão diretamente ligados ao governo do estado". O comunicado, porém, não faz referências às ofensas proferidas pelo governador.
Contexto da barragem
A chamada Barragem Norte fica em José Boiteux, região que historicamente sofre com alagamentos e enchentes. A estrutura é um instrumento para contenção das cheias que eventualmente atingem Blumenau, a mais importante cidade da região, e municípios vizinhos. Um ponto de impasse no local é que a barragem fica em uma área onde vivem indígenas, que são afetados pela estrutura.
Obras e compensações
O governo diz que se comprometeu em construir casas e outras estruturas como forma de compensação à comunidade local para atuar na área. De acordo com a nota oficial, a atual gestão destaca que foi a primeira, depois de três décadas, a assumir efetivamente a manutenção da barragem e a avançar no cumprimento de um acordo firmado há cerca de 20 anos entre Governo Federal, Governo Estadual e comunidades indígenas.
Pelo acordo judicial, estavam previstas 20 casas. No entanto, a gestão estadual decidiu ampliar essas melhorias previstas. Fazem parte das obras acordadas: construção de 91 casas, duas igrejas e duas casas pastorais (R$ 14,6 milhões); implantação e macadamização da estrada que liga a Aldeia Bugio ao município de José Boiteux, com extensão de 7,5 quilômetros e construção de uma ponte (R$ 7 milhões); construção da escola da comunidade indígena (R$ 6,5 milhões); construção de museu, campo de futebol e sanitários (R$ 5,5 milhões); projeto da escola e do museu (R$ 217 mil).
Ao todo, o Estado está aplicando cerca de R$ 34 milhões em melhorias estruturais na Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ, onde está localizada a Barragem Norte, de José Boiteux, cumprindo uma determinação judicial da década de 90 que deveria ter sido executada pelo Governo Federal, por meio da Funai, mas foi negligenciada desde então.
Mesmo diante das manifestações, o Governo afirma que vai manter o cronograma da reforma da barragem e das casas, por entender que as obras são essenciais para proteger vidas e reduzir os riscos de enchentes no Vale do Itajaí.



