Empresas localizadas em Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais, estão implementando a redução da jornada de trabalho antes mesmo da conclusão do debate no Senado Federal. A iniciativa já provocou alterações nas escalas, na rotina dos colaboradores e até no funcionamento de estabelecimentos, como um restaurante da cidade.
Hotel adota nova jornada no fim de 2024
Um hotel da região implantou a nova jornada no final de 2024. Com 34 funcionários, a unidade reorganizou as equipes em dois formatos: os recepcionistas passaram a trabalhar na escala 12x36, que consiste em um dia de trabalho seguido de um dia e meio de folga, enquanto os demais colaboradores adotaram a escala 5x2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso.
De acordo com a gerente geral Thaís Helena Silva, a mudança foi uma estratégia para atrair e reter profissionais em um mercado competitivo. “A rede hoteleira é bastante complexa para a contratação e nós verificamos que estávamos perdendo muitos colaboradores para as indústrias. Então, buscamos o que as indústrias ofereciam e que nós não tínhamos. Entre os benefícios, estava o fator da escala. Decidimos mudar de 6x1 para 5x2, para proporcionar mais qualidade de vida e atrair e reter pessoas aqui na unidade”, afirmou.
A rede, que possui oito hotéis, sendo seis no Sul de Minas, já estuda expandir o modelo para outras unidades.
Impacto na rotina dos funcionários
Para os colaboradores, a mudança trouxe impacto direto no dia a dia. O supervisor de recepção Allyson Eder Lucas, que trabalha no hotel há sete anos, relata que agora consegue equilibrar melhor o descanso e as tarefas pessoais. “Antes, na escala 6x1, a gente ficava muito limitado a usar o dia de folga apenas para descansar e fazer as coisas de forma muito corrida, era difícil. Agora, conseguimos usar um dia para descansar e outro para resolver pendências em casa e assuntos no centro”, disse.
Restaurante adapta funcionamento
Outro exemplo vem do setor de alimentação. A empresária Lidiane Alves também decidiu antecipar a mudança e implementou a escala 5x2 para os 14 funcionários do restaurante em março. Para viabilizar a adaptação, ela alterou o funcionamento do negócio e deixou de abrir ao público às terças, quartas e quintas-feiras.
A decisão envolve custos e desafios na contratação de mão de obra. “Pelo que converso em congressos e encontros de empreendedores, a maior dificuldade do empreendedor hoje no Brasil é a contratação de mão de obra. Está muito difícil. Para mim, já foi complicado montar uma equipe coesa. Quando surgiu a possibilidade, pensei que teria que contratar mais um funcionário para cada função, o que aumentaria o custo em pelo menos 20%, e eu teria que repassar esse custo”, explicou. “É um teste que estamos fazendo porque, graças a Deus, não pago aluguel. Se pagasse, não sei como seria”, completou.
Especialistas veem laboratório para o mercado
Especialistas avaliam que a antecipação da jornada reduzida funciona como um laboratório para as empresas, permitindo entender como adaptar a operação caso a proposta seja confirmada no país. “O Sul de Minas tem um mercado de trabalho muito aquecido e, para segmentos como hotéis e restaurantes, há grande dificuldade de mão de obra. Isso torna interessante para essas empresas serem mais atrativas”, afirmou o especialista em gestão Danilo Lefol.
A Federação do Comércio de Minas Gerais defende mais debate sobre o tema e apresentou uma proposta alternativa baseada na flexibilização da jornada por horas, mantendo os direitos trabalhistas. “É o trabalho por hora com direitos garantidos. A proposta foi feita após pesquisa nacional, para que os trabalhadores não percam direitos. Ela permite que a pessoa trabalhe 20, 30 ou 40 horas por semana, até em mais de uma empresa, com todos os direitos”, disse o diretor da Fecomércio e presidente da Sindvale, Alexandre Magno.
Melhora no atendimento
Apesar dos desafios, empresas que já fizeram a mudança relatam melhora no atendimento e no desempenho das equipes. “Quando a pessoa tem mais qualidade de vida, ela tem mais qualidade no serviço. Isso impacta diretamente no atendimento ao cliente”, concluiu a gerente Thaís Helena Silva.



