Crato 262 anos: arquitetura colonial e luta pela preservação histórica
Crato 262 anos: arquitetura colonial e luta pela preservação

A cidade do Crato, no Cariri cearense, celebra 262 anos neste sábado (20). Caminhar pelo centro histórico é mergulhar em séculos de história, refletidos em fachadas, portas e grossas paredes de pedra. Antes de se tornar vila no século 18, a região era habitada pelos índios cariris. A partir de 1714, colonizadores da Bahia, Sergipe e Pernambuco chegaram, atraídos pela paisagem e solo fértil, ocupando sesmarias.

Origens e ordenamento urbano

O arquiteto e pesquisador Waldemar Arraes explica que o antigo aldeamento indígena foi liderado pelos frades do hospício de Nossa Senhora da Penha. Para se transformar em vila, seguiu regras da coroa portuguesa. "A cidade nasceu a partir desse aldeamento. Depois se transformou em vila e cidade, no século 19. Existiam decretos da coroa portuguesa do século 18. Após a criação das vilas no país, a maioria desses aldeamentos se transformou em vila com a expulsão dos jesuítas pelo marquês de Pombal. A coroa tratou de organizá-las, com igreja, casa de Câmara e Cadeia, pelourinho, tudo alinhado para parecer português", conta.

Dessa primeira arquitetura, pouco restou. As edificações foram transformadas ou demolidas. Um dos exemplares remanescentes é a antiga Casa de Câmara e Cadeia, construída em 1877, na Praça da Sé com a Rua Senador Pompeu. Hoje abriga o Museu de Arte Vicente Leite (pavimento superior) e o Museu Histórico do Crato (térreo). De estilo neoclássico, já foi Prefeitura, Fórum, Junta Militar e Delegacia. É tombado em nível estadual.

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De capela a Catedral

A Sé Catedral Nossa Senhora da Penha, em frente à Praça da Sé, é outro exemplo de arquitetura colonial. Antes de ser um templo imponente, foi uma pequena capela de tapera. "Foi nesse ambiente que começou a catequese indígena. Um padre italiano organizava o espaço. Na época, havia muitas tribos cariris. O processo se inicia com uma pequena capela e uma grande esplanada, onde o povo ficava. Depois, casas da elite foram construídas no entorno", comenta Waldemar Arraes.

O historiador Iaré Lucas Andrade contextualiza que "a arquitetura colonial representa a maneira de pensar e a formação de identidade de um período. O Brasil se formou olhando para fora, para o modelo europeu. As regiões colonizadas por portugueses e espanhóis refletem essa formação arquitetônica dos séculos 16 e 18". Em 1817, o país se encaminhava para a independência. "A igreja foi construída de forma escalonada: uma torre em uma época, outra em outra. No início do século 19, ganhou formatação com colunatas sóbrias e portas em arcos, diferente das igrejas barrocas de Minas Gerais e Salvador. A elite local queria se espelhar na modernidade europeia", explica.

A Sé Catedral do Crato está em processo de tombamento pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult).

Estação Ferroviária

Inaugurada em 8 de novembro de 1926, a Estação Ferroviária do Crato reflete o ecletismo arquitetônico do início do século 20. Foi cenário de eventos políticos e sociais importantes. Com a decadência das ferrovias, fechou em 1989 e se transformou em espaço cultural. É tombada pela Secult. O complexo da RFFSA inclui Casa do Agente, Terminal de Passageiros e Casa de Bagagem. Aguarda tombamento pelo Iphan. A superintendente do Iphan Ceará, Cristiane Buco, afirma: "Já fizemos parecer positivo, mas processos de tombamento podem levar décadas. Está em Brasília para ajustes e deve ser tombado em breve".

Cassino Sul Americano

Na praça Siqueira Campos, o Cassino Sul Americano abrigou o cinema da cidade. Hoje funciona um restaurante. A fachada eclética tem molduras em arco abatido e janelas com venezianas; o interior foi modificado. O prédio aguarda tombamento pela Secult. O aposentado Raimundo Modesto de Brito recorda: "Assistia filmes com minha primeira esposa, era outro tempo, tempo bom, de gente feliz!"

Ainda há casarões antigos, alguns habitados, outros abandonados. A casa onde viveu a revolucionária Bárbara de Alencar, na antiga Rua Grande, hoje abriga a Secretaria Estadual da Fazenda. Uma escultura em sua homenagem foi colocada em frente.

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Educação patrimonial e reconstrução virtual

A falta de conscientização ameaça o acervo histórico. O secretário de Cultura do Crato, Wilton Dedê, afirma que a prefeitura está catalogando os prédios para lançar um almanaque didático. "Falta investimento em educação patrimonial. Alguns prédios são derrubados, outros perdemos. Cada espaço guarda uma história; quando desaba, a história também vai", lamenta.

Para reverter o esquecimento, Waldemar Arraes e um grupo de arquitetos desenvolvem a reconstrução virtual tridimensional do Centro Histórico do Crato, do final do século 19 até os anos 1920. O projeto de maquete digital realista ganhará sala exclusiva em um museu, permitindo passeios virtuais. "Com tecnologias computacionais, reconstruímos edifícios no computador de forma realista. É uma forma de conscientizar as pessoas para a preservação, mostrando como era e como está hoje", explica Arraes.

O arquiteto André Sampaio complementa: "Esse trabalho lembra que ainda temos material de valor em relação ao patrimônio. É importante proteger o que resta, para que as próximas gerações conheçam essa arquitetura. Cada edificação tem sua identidade e um conjunto de histórias". Maykon Dantas da Silva reforça: "Estamos desenvolvendo peças gráficas da evolução da Casa de Câmara e Cadeia, desde a primeira datação até hoje, facilitando o entendimento".