Uberlândia, a segunda maior cidade de Minas Gerais, enfrenta um fenômeno preocupante: a participação de adolescentes de 16 e 17 anos nas eleições caiu drasticamente nas últimas três décadas. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que, para as eleições de 2026, apenas 3.360 eleitores com menos de 18 anos estão registrados, representando 0,62% do eleitorado local e 0,44% da população. Em 1994, esse número era de 5.951, o equivalente a 2,4% do eleitorado e 1,5% da população. Enquanto isso, o total de eleitores na cidade quase triplicou no mesmo período, evidenciando uma queda relativa e absoluta na participação jovem.
Cenário contrasta com crescimento geral do eleitorado
O encolhimento do eleitorado adolescente ocorre em meio a um aumento global de votantes em Uberlândia. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população da cidade também cresceu, mas o eleitorado total cresceu em ritmo mais acelerado. Esse descompasso acentua a redução proporcional dos jovens nas urnas, um movimento que especialistas atribuem a múltiplos fatores, desde desinteresse pela política institucional até descrença na eficácia do voto.
Perfil educacional dos jovens eleitores
Os dados do TSE mostram que a maioria dos adolescentes eleitores em Uberlândia está no Ensino Médio: 92% ainda cursam essa etapa, 2% já a concluíram, e apenas 0,11% são analfabetos. Além disso, 0,6% já ingressaram no Ensino Superior. Esses números indicam que a baixa participação não está ligada à falta de escolaridade, mas a outros fatores como falta de compreensão do sistema político e influência das redes sociais.
Especialistas apontam desconhecimento dos cargos eletivos
A socióloga e cientista política Alecilda Oliveira, que leciona sociologia para adolescentes, observa diariamente a dificuldade dos jovens em entender a política. "Vejo uma grande confusão em saber o que os representantes políticos fazem e, às vezes, até uma rejeição dos adolescentes em falar sobre a política. Confundem os papéis de prefeitos, governadores e presidente com os de vereadores, deputados estaduais e deputados federais", explica. Ela destaca a necessidade de formar cidadãos mais conscientes: "A gente precisa formar cidadãos que estejam mais conscientizados com o que é a participação política. E a escola é um caminho".
Desinteresse ou descrença?
Para Oliveira, a queda na participação não se deve apenas ao desinteresse, mas também à percepção de que o voto tem pouco impacto na vida cotidiana. "Os jovens tendem a perguntar qual mudança direta aquilo vai provocar na vida deles. Quando não conseguem enxergar essa transformação, acabam entendendo que participar da eleição não é algo importante", afirma. Ela sugere que o cenário atual reflete um desgaste da confiança nas instituições políticas.
Juventude como força histórica
O professor Moacir de Freitas Júnior, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), lembra que a juventude sempre foi protagonista em momentos-chave da história brasileira. "Em todos os momentos políticos chave da história do Brasil a juventude se fez presente e foi a principal força", destaca. Ele cita movimentos como a campanha "O Petróleo é Nosso", a luta contra a ditadura militar, a redemocratização, os caras-pintadas e as manifestações de 2013.
Engajamento coletivo versus institucional
O historiador político Fernando Perlatto, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), argumenta que os jovens estão engajados, mas em espaços não institucionais. "A gente percebe o engajamento dos jovens, muitas vezes nas redes sociais, em coletivos, em diversos espaços. Inclusive, o engajamento não apenas à esquerda, mas também o engajamento conservador", afirma. Ele ressalta que esse engajamento não se converte em participação eleitoral.
Redes sociais e desinformação
Os especialistas apontam que o consumo de informação política em ambientes digitais é um desafio. Alecilda Oliveira alerta para a influência dos algoritmos e da desinformação. Moacir de Freitas Júnior complementa: "Isso afeta mais diretamente os jovens, não só porque são mais suscetíveis, mas porque se informam muito mais pelas redes sociais. A polarização política também não ajuda a atrair os jovens para a política".
Futuro da democracia
Moacir de Freitas Júnior alerta que o afastamento dos jovens enfraquece a democracia. "Se não renovarmos os compromissos democráticos, logo estaremos nos perguntando por que precisamos da democracia. E aí será tarde", conclui. Ele reforça que a democracia é uma construção constante e que a participação jovem é essencial para sua manutenção.



