Violência de gênero nas escolas: tipos e impactos
Violência de gênero nas escolas: tipos e impactos

A violência de gênero nas escolas nem sempre se manifesta de forma explícita. Muitas vezes, está presente em xingamentos, 'brincadeiras' de cunho sexual, humilhação entre colegas, controle sobre os corpos das meninas, homofobia, transfobia e também no silêncio das instituições diante dessas situações.

Para Ana Nery, especialista em Gênero e Inclusão da Plan Brasil, essas violências ocorrem de forma cotidiana e frequentemente naturalizada, atingindo principalmente meninas e estudantes LGBTQIAPN+. 'As pesquisas mostram que essas violências vão muito além de episódios extremos e incluem práticas simbólicas, institucionais, verbais, físicas, sexuais e digitais', afirma.

Ao longo de cinco posts em parceria com a Plan International Brasil, a Série Especial Ser Menino discute temas como os tipos de violência de gênero que acontecem nas escolas e entre crianças e adolescentes; o que precisa mudar; quais são os possíveis caminhos e o que esperar do futuro.

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Nesta segunda entrevista, Ana Nery aborda os diferentes tipos de violência de gênero presentes nas escolas e entre crianças e adolescentes, e como elas começam cedo, atravessando relações, comportamentos e processos de socialização.

Tipos de violência de gênero nas escolas

Violência verbal, simbólica e psicológica: Esse é o tipo mais frequente no cotidiano escolar e, muitas vezes, não reconhecido como violência por professores e gestores. Inclui xingamentos misóginos e sexistas; comentários depreciativos sobre o corpo, a aparência ou o comportamento das meninas; sexualização precoce e culpabilização das meninas pela violência sofrida; reforço de estereótipos de gênero. A pesquisa mostra que um quarto dos professores afirma que xingamentos sexistas acontecem com frequência, e mais de 60% dizem que a sexualização de meninas ocorre ao menos uma vez por mês, embora muitas vezes não seja reconhecida como violência de gênero. A UNESCO aponta que todas as escolas brasileiras convivem com casos de bullying, sendo meninas e estudantes LGBTQIA+ alvos recorrentes de ataques baseados em gênero e sexualidade; o Brasil figurava em 4º lugar no ranking mundial de bullying em 2023.

Assédio sexual e violência sexual no ambiente escolar: O assédio sexual aparece desde a infância e se intensifica na adolescência, sendo relatado principalmente por meninas. Inclui olhares invasivos, comentários sobre partes do corpo; 'brincadeiras' de cunho sexual; cantadas indesejadas; toques não consentidos e compartilhamento de imagens íntimas sem consentimento. Segundo a pesquisa 'Livres para Sonhar': 56% das estudantes afirmaram ter presenciado, no último semestre letivo, situações de sexualização e cantadas indesejadas e 42% relataram ter visto meninos tocando o corpo de meninas de forma desrespeitosa ou sem consentimento no mesmo período. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do UNICEF indicam que 60% das vítimas de estupro no Brasil são meninas com menos de 13 anos, revelando que a violência sexual começa muito cedo e atravessa os espaços escolares.

Violência institucional e práticas discriminatórias da escola: A violência de gênero também é produzida pelas normas, regras e omissões institucionais da escola. Inclui regras de vestimenta mais rígidas para meninas; controle e vigilância sobre seus corpos; negação ou desvalorização de denúncias e encaminhamento inadequado de casos graves (tratados como 'conflitos' ou 'indisciplina'). A pesquisa 'Livres para Sonhar' revela que muitos casos de toque sem consentimento e divulgação de imagens íntimas, que configuram crimes, são tratados apenas internamente pela escola, sem encaminhamento à rede de proteção. Além disso, 17% dos professores afirmaram ter conhecimento de casos de assédio sexual praticado por docentes contra alunas no último semestre, reforçando que a escola nem sempre é um ambiente seguro.

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Violência entre pares: rivalidade feminina e controle da sexualidade: Embora a violência de gênero seja majoritariamente praticada por meninos contra meninas, ela também se manifesta entre as próprias meninas, a partir de normas machistas internalizadas. Inclui julgamentos sobre 'reputação' e vida sexual; competição e humilhação entre meninas e conflitos motivados por disputas afetivas. A mesma pesquisa identificou relatos frequentes de 'rivalidade feminina' que reproduz normas de controle da sexualidade das meninas, muitas vezes culminando em agressões físicas e verbais.

Violência contra estudantes LGBTQIA+: Meninos gays, estudantes trans e jovens que não correspondem à performance de masculinidade ou feminilidade esperada são alvos recorrentes. Inclui insultos homofóbicos e transfóbicos, exclusão social e violência física e simbólica. Mais da metade dos professores relatou já ter presenciado ataques contra estudantes LGBTQIA+, sendo os xingamentos a forma mais comum. Segundo dados utilizados pelo Ministério Público Federal, 3 em cada 4 estudantes LGBTQIA+ já sofreram agressões verbais por orientação sexual, e 27% relataram violência física.

Violência de gênero no ambiente digital (cyberviolência): A violência extrapola o espaço físico da escola e se intensifica no ambiente digital. Inclui cyberbullying; difusão de imagens íntimas sem consentimento; assédio e exploração sexual online e adultização e sexualização precoce. Relatórios da SaferNet Brasil mostram que 64% das denúncias recebidas em 2025 se referem a abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes na internet, com crescimento acelerado envolvendo adolescentes, inclusive em contextos escolares. Casos de compartilhamento de imagens íntimas entre colegas aparecem explicitamente na pesquisa 'Livres para Sonhar', muitas vezes tratados sem a gravidade necessária pela gestão escolar.