Um estudo que mede as chances de ascensão social no Brasil escancara uma realidade dura: nascer em uma família pobre reduz drasticamente a possibilidade de obter um diploma universitário. De acordo com o Atlas da Mobilidade Social, filhos de lares que estão entre os 25% mais pobres têm menos de 2% de chance de concluir o ensino superior. No extremo oposto, crianças criadas nos 25% dos lares mais ricos alcançam uma probabilidade de quase 38%.
O que revela o Atlas da Mobilidade Social
O Atlas da Mobilidade Social é um levantamento que cruza dados socioeconômicos para entender como a renda e a educação dos pais influenciam o futuro dos filhos. No caso do ensino superior, a conclusão é clara: o diploma ainda é um sonho distante para a grande maioria dos jovens que crescem em situação de pobreza.
Enquanto a taxa de conclusão universitária entre os filhos dos 25% mais ricos gira em torno de 38%, a dos 25% mais pobres não chega a 2%. Isso significa que, em um universo de 100 jovens de origem pobre, apenas dois conseguem terminar uma faculdade. Para os de origem rica, são aproximadamente 38.
Essa diferença de quase 19 vezes evidencia um dos maiores entraves à mobilidade social no país. O acesso à universidade é historicamente um dos principais caminhos para a ascensão de renda, mas as barreiras começam muito antes do vestibular. A qualidade do ensino básico, a necessidade de trabalhar cedo para ajudar no sustento da família e a falta de uma rede de apoio são alguns dos desafios enfrentados por quem vem de baixo.
Os números da desigualdade
Os dados do Atlas mostram que a origem socioeconômica é um determinante quase absoluto do destino educacional. A diferença entre os percentuais é tão expressiva que permite afirmar que, no Brasil, a educação superior ainda é um privilégio hereditário. Filhos de famílias ricas têm, proporcionalmente, 19 vezes mais chances de concluir a universidade do que filhos de famílias pobres.
Essa realidade não é nova, mas o levantamento atualiza os números e reforça a urgência de debates sobre como reduzir as desigualdades. A fotografia que ilustra esta reportagem, tirada no campus de Engenharia da UFRJ, em 2016, mostra estudantes circulando por um dos mais tradicionais centros de ensino do país. Para muitos, a cena é cotidiana; para outros, um cenário inalcançável.
O impacto na mobilidade social
A baixa presença de jovens pobres nas universidades tem efeitos diretos na economia e na sociedade. Sem um diploma, a maioria desses jovens fica restrita a empregos de menor remuneração, perpetuando o ciclo de pobreza. A falta de ascensão educacional também reduz a diversidade nos ambientes profissionais e acadêmicos, o que impacta a inovação e a representatividade.
Estudos anteriores já mostravam que o Brasil é um dos países com menor mobilidade social da América Latina. O Atlas da Mobilidade Social agora traz um recorte específico do ensino superior, comprovando que a educação não está cumprindo plenamente seu papel de equalizador de oportunidades.
O que pode ser feito
Os dados reforçam a importância de políticas públicas que ataquem as causas estruturais da desigualdade. Investimentos na educação básica, programas de permanência universitária, como bolsas e auxílios, e a expansão do acesso a universidades públicas e privadas de qualidade são caminhos já apontados por especialistas em educação.
É preciso também atacar o abandono escolar, que atinge com mais força os estudantes de baixa renda. Muitos jovens abandonam a faculdade não por falta de capacidade, mas por falta de condições financeiras para se manter até a formatura. Políticas de assistência estudantil são fundamentais para que o ingresso se converta em conclusão.
Em suma, o Atlas da Mobilidade Social não traz apenas números alarmantes; ele serve como um chamado à ação. A conclusão do ensino superior para as camadas mais pobres é uma questão de justiça social e também de desenvolvimento econômico. Reduzir a distância entre os 2% e os 38% é um desafio que exige compromisso de toda a sociedade.



