Uma das lideranças mais importantes do século, o cacique Raoni Mẽtyktire, do povo Mebêngôkre (Kayapó), está internado desde 19 de junho no Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sob cuidados intensivos de uma equipe médica especializada em saúde indígena. Estima-se que Raoni tenha 93 anos, embora não se saiba ao certo a data do seu nascimento. Seu povo vive em terras indígenas entre o norte de Mato Grosso e o sul do Pará, formando um dos maiores corredores contínuos de floresta protegida da Amazônia brasileira.
Saúde e alerta espiritual
Em entrevista ao The Conversation Brasil, o neto de Raoni, Takakpe Tapayuna Mẽtyktire, 33 anos, pedagogo, intérprete do avô e assessor político-institucional do Instituto Raoni, falou sobre a saúde do cacique. "Conforme está passando pela idade, meu avô está sofrendo muita fragilidade. Ele tem o cuidado dos médicos e nós estamos acompanhando a saúde física e mental dele", disse Takakpe. Ele destacou a importância da interação social e espiritual para os anciãos: "Na idade em que ele está, os anciãos sempre relembram as memórias dos antepassados. Isso faz se sentirem bem e em segurança espiritualmente."
Takakpe revelou que Raoni teve um alerta espiritual antes de adoecer. "Antes de adoecer, quando ele começou a sentir algumas coisas espiritualmente, já comunicou a gente. 'Não estou me sentindo firme para poder atender os convites.' Disse que tínhamos de juntar os primos e falar com nosso tio, Megaron Txucahamãe, para poder suceder a luta." Raoni cancelou um encontro com o Papa Leão XIV e, dias depois, adoeceu e foi hospitalizado.
Preocupações e legado
Uma das principais preocupações do cacique é se a nova geração dará continuidade à sua luta. "É conosco, com a luta pelos avanços na nossa organização social e política dentro do nosso território e institucionalmente", afirmou Takakpe. Outra preocupação é evitar que não indígenas com dinheiro convençam alguns parentes a tomar as terras. "Nós não pensamos no dinheiro, pensamos na vida. O que nos sustenta é a terra, o que nos sustenta é o rio, o que nos sustenta é a natureza."
Raoni sempre enfatizou a importância do estudo aliado à cultura. "Ele costuma dizer: 'Vocês mesmos têm que escrever as ideias de vocês, para defender o povo de vocês. Estudem, mas não percam a nossa cultura. Tem que sustentar a nossa cultura tradicional. Desse jeito vocês terão força para enfrentar qualquer ataque.'" Takakpe seguiu esse conselho, formando-se em Pedagogia Intercultural Indígena pela Universidade Federal de Goiás e atuando como professor e tradutor.
Mudanças climáticas e sustentabilidade
Para Takakpe, as mudanças climáticas são uma pauta mundial, mas ainda há empresários que pensam no dinheiro e desmatam. "Algumas pessoas entenderam que precisam proteger o clima, mas também estamos diante de empresários que pensam pelo dinheiro, desmatam muito, querem produzir mais, ganhar mais, e isso prejudica mais e mais o planeta." Ele acredita que o livro "Memórias do Cacique" (Companhia das Letras, 2025), escrito a partir de entrevistas de Raoni em língua Mebêngôkre, pode ajudar os não indígenas a entender a cultura e apoiar a causa.
Território sagrado e demarcação
Takakpe destacou a importância da Terra Indígena Kapoto-Nhĩnore, lugar de origem do grupo Mẽtyktire, onde o irmão de Raoni foi morto por fazendeiros. "É um território sagrado e tradicional para nós e hoje estamos lutando pela sua demarcação." Os estudos de identificação e delimitação foram aprovados pela Funai em 2023, mas o processo é lento. "Ele fica muito desanimado com a demarcação demorada. Um dos sonhos do meu avô é ver demarcado o território onde ele nasceu. Podiam dar essa alegria e fazer essa homenagem a ele."



