Custo real da escola pode ser 20% maior que a mensalidade
Custo real da escola pode ser 20% maior que mensalidade

O início do segundo semestre dá a largada para o período de rematrícula nas escolas particulares de todo o país. Com a divulgação de calendários e condições para o próximo ano letivo, este é um momento estratégico para reorganizar uma das principais contas do orçamento familiar. A antecedência permite comparar descontos, prazos e formas de pagamento, mas também exige atenção a um item frequentemente esquecido: as despesas extras que elevam o custo efetivo da educação.

Segundo especialista ouvido pelo InfoMoney, uma escola com mensalidade de R$ 1.000 pode custar, na prática, entre R$ 1.100 e R$ 1.200 por mês quando entram na conta material didático, uniforme, transporte, atividades extracurriculares e outras cobranças ao longo do ano. Esse custo ampliado, muitas vezes ignorado pelas famílias, deve ser calculado antes da rematrícula para evitar que uma despesa previsível se transforme em dívida.

Custos ocultos: o que incluir no cálculo

Leônidas Cristino, diretor financeiro do isaac, plataforma de soluções financeiras para instituições de ensino, afirma que considerar apenas a mensalidade é um dos principais erros no planejamento. "Recomendamos que a família considere não apenas o valor da mensalidade, mas todos os custos envolvidos. Além da matrícula, entram nessa conta todas as outras despesas obrigatórias ligadas à educação", diz.

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Caso a criança participe de esportes, cursos de idiomas, atividades culturais ou outras experiências complementares, esses gastos também precisam ser incorporados. Como referência, Cristino recomenda acrescentar entre 10% e 20% ao valor mensal da escola. "Se a mensalidade é de R$ 1.000, por exemplo, o planejamento deveria considerar um gasto entre R$ 1.100 e R$ 1.200 por mês para contemplar as despesas adicionais", explica. A margem, porém, é apenas uma estimativa. Em escolas que cobram material apostilado, transporte, alimentação ou atividades à parte, o custo adicional pode superar esse percentual.

Para chegar ao valor mais próximo da realidade, a família deve somar todas as despesas relacionadas à educação durante o ano. Entre os itens estão:

  • mensalidades;
  • matrícula ou rematrícula;
  • livros e material didático;
  • uniforme;
  • transporte escolar;
  • alimentação;
  • atividades extracurriculares;
  • passeios e viagens pedagógicas;
  • equipamentos eletrônicos;
  • reajustes e despesas imprevistas.

Um exemplo prático ajuda a dimensionar o impacto. Considerando uma mensalidade de R$ 1.000, o custo anual com 12 parcelas é de R$ 12.000. Somando matrícula de R$ 1.000, material e livros de R$ 1.500, uniforme de R$ 500 e atividades e passeios de R$ 1.200, o total chega a R$ 16.200 por ano, o que representa uma média mensal real de R$ 1.350.

Antecipar a rematrícula pode reduzir o custo

Segundo Cristino, muitas escolas começam a oferecer condições de pré-matrícula a partir de agosto. Quem acompanha esse calendário pode encontrar descontos e prazos mais longos para parcelamento. "À medida que a data de retorno das aulas se aproxima, os valores tendem a aumentar. Quem realiza a pré-matrícula antecipadamente costuma ter acesso a condições de pagamento mais favoráveis", afirma.

O número de parcelas também faz diferença. Uma rematrícula realizada em agosto pode ser dividida até dezembro. Quando a decisão é adiada para outubro ou novembro, a família terá menos meses para absorver o mesmo gasto. No entanto, antecipar não é necessariamente a melhor escolha em todos os casos. Famílias que dependem do 13º salário, por exemplo, podem ganhar mais segurança esperando o fim do ano.

"O mais importante é alinhar o cronograma e os valores praticados pela escola com a realidade financeira da família, escolhendo o momento que faça mais sentido para evitar o endividamento", diz Cristino. Ele alerta que o 13º salário não deve ser tratado automaticamente como verba disponível para a educação, já que compras de Natal, viagens, festas, impostos e outras despesas de fim e início de ano disputam a mesma renda.

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Educação pode consumir até 30% da renda familiar

Não existe um percentual único que determine quanto uma família pode gastar com a escola. Como parâmetro de planejamento, Cristino recomenda que o custo total da educação fique, em média, entre 25% e 30% da renda familiar. A referência deve ser adaptada à realidade de cada casa, especialmente porque despesas com moradia também podem consumir parcela semelhante do orçamento.

Somadas, as duas categorias podem comprometer entre 50% e 60% da renda, deixando menos espaço para alimentação, saúde, transporte, lazer e formação de reserva de emergência. "Mais importante do que seguir um percentual exato é estabelecer um orçamento familiar bem definido. A família precisa conhecer quanto pode destinar para cada grande categoria de despesa e, a partir disso, calcular o custo total da educação", afirma.

Reajustes e inadimplência: um alerta nacional

Outro custo que precisa ser considerado é o reajuste da mensalidade. As escolas podem revisar seus valores anualmente de acordo com a estrutura de despesas e os investimentos previstos. Cristino afirma que os reajustes observados no mercado frequentemente ficam entre 8% e 10%, embora os percentuais variem conforme a instituição. Em uma mensalidade de R$ 1.000, uma alta de 8% elevaria a parcela para R$ 1.080; com 10%, o valor passaria para R$ 1.100. Sem previsão, esse aumento pode comprometer outras metas financeiras.

O cenário de inadimplência reforça a necessidade de planejamento. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o Brasil tem 81,6 milhões de famílias endividadas. No setor de escolas privadas, a inadimplência chegou a 19,62% ao final de 2025, de acordo com o Mapa da Inadimplência Escolar 2026, elaborado pela Sponte by TOTVS com mais de 4 mil instituições. O número representa uma queda de 0,74 ponto percentual frente a 2024, quando a taxa foi de 20,36%, o maior pico histórico.

Já nas universidades, dados da Serasa levantados no final de 2025 mostram que 35% dos universitários tinham alguma dívida em aberto com a faculdade. Para 22% deles, o desemprego é o principal motivo do endividamento, seguido por problemas pessoais ou familiares (13%) e redução de renda (9%).

Segundo Cristino, o cartão de crédito pode ajudar na organização quando a fatura cabe integralmente no orçamento. O problema surge quando o parcelamento é usado para financiar gastos recorrentes sem renda suficiente para quitá-los. "Com juros elevados, o cartão acaba sendo um dos caminhos mais rápidos para ampliar o endividamento", alerta.