Pela primeira vez, adolescentes da Fundação Casa de Cerqueira César (SP) tiveram acesso a uma experiência imersiva de astronomia dentro da unidade. A iniciativa, promovida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), levou um planetário itinerante ao local no dia 2 deste mês, proporcionando a 27 jovens em cumprimento de medida socioeducativa uma vivência única com projeções do céu noturno, planetas e constelações.
Jovens relatam impacto da experiência
As participantes Maria Eduarda, de 17 anos, e Yasmin, de 14, identificadas por nomes fictícios, contaram ao g1 que nunca haviam tido contato com um planetário antes. “Eu mesma nunca tinha ouvido nem falar e não sabia da existência. Foi uma experiência única e muito legal. Assim, se eu não estivesse aqui, eu não teria participado dessa atividade. Você vê todas as estrelas e fica sabendo das constelações, é muito lindo. Foi um momento especial”, afirmou Maria Eduarda. Yasmin completou: “Gostei bastante, porque nem sabia que existia buraco negro. Não sabia as histórias das estrelas e eu aprendi. Se eu não estivesse aqui, não iria nem saber dessas coisas”.
Conteúdo abordado e reações
De acordo com a Fundação Casa, a atividade apresentou conteúdos sobre planetas do Sistema Solar, fases da Lua, estações do ano e a história do telescópio espacial Hubble. A pedagoga Jaqueline Campos, mestre em Ciências pela USP e planetarista responsável, conduziu as sessões. Ela explicou que o projeto foi viabilizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e já passou por unidades em Araras e Botucatu no ano passado. “Nós pensamos justamente sobre o acesso. Quais são as oportunidades de acesso desses jovens a um recurso como um planetário? Muitos não conhecem”, disse Jaqueline.
Maria Eduarda inicialmente desconfiou da atividade, mas se surpreendeu: “Quando falaram que ia ter um planetário, fiquei: ‘o que é isso?’. Até falei: ‘Nossa, se for chato’. Fiquei perguntando para todo mundo o que era isso, achando que seria uma atividade chata ou uma palestra. Mas eles entregaram tudo”. Além das projeções, as jovens experimentaram uma montanha-russa virtual, que Yasmin destacou como um dos momentos mais marcantes.
Interesse despertado pela astronomia
Antes da atividade, o conhecimento das adolescentes sobre astronomia se limitava a constelações como as Três Marias. Após a experiência, ambas relataram novo interesse. “A história por trás e conseguir identificar uma [constelação], não tinha nem interesse. Depois desse dia, eu comecei a achar tudo muito lindo e surgiu o interesse”, disse Maria Eduarda. Yasmin ficou fascinada com a possibilidade de identificar mudanças climáticas pela observação do céu: “Uma senhora falou para a gente que alguns sinais apareciam no céu, podia ser sobre chuva e de calor. Assim, é super impressionante, sabiam identificar tudo. Depois dessa atividade, eu consigo hoje olhar e, pelo menos, identificar o escorpião ou as três marias”.
Durante a sessão, Júpiter e Marte foram os planetas que mais chamaram a atenção. Yasmin aproveitou para perguntar sobre a existência de vida extraterrestre. “Eu perguntei para um senhor que estava lá dando explicação se era verdade que existia ET. Falei: ‘será que dá para vir até a Terra os Ets?’. Ele falou que ainda não é comprovado que existem. Eu acho que existe”, contou.
Visão de futuro e reflexão
As adolescentes veem a experiência como uma oportunidade de ampliar horizontes. Maria Eduarda, que está há seis meses na unidade e próxima de completar 18 anos, pretende ingressar na faculdade após concluir o Ensino Médio. “Trouxeram isso para abrir a nossa mente e vermos que tem outras portas, que não é o que vivíamos. Colocar isso na nossa cabeça e deixar a gente pensando sobre. Espero que, no meu futuro, eu consiga ser independente, ter uma fonte de renda e arrumar um trabalho para viver a minha vida”, afirmou. Yasmin, há três meses na Fundação, quer continuar aprendendo sobre astronomia e compartilhar o conhecimento com a irmã. “Não quero depender de ninguém, mas principalmente, não quero voltar mais pra cá”, completou.
Jaqueline Campos destacou o engajamento dos jovens: “O engajamento que eles geram, muitas vezes dentro de escolas, não acontece. O prazer de ir até a Fundação e atender esses jovens é imenso. Eles precisam perceber que existem outras realidades e oportunidades diferentes das que eles enfrentaram até ali”.
Importância dos planetários para a ciência
O professor de física Rodrigo Raffa, de Itapetininga, explicou que o primeiro planetário moderno foi criado na Alemanha em 1923. “O planetário é um espaço de divulgação científica onde se projeta uma réplica do céu noturno em uma cúpula ou tela hemisférica. Os elementos principais são a cúpula, o projetor, o sistema de som e o software de controle que simula movimentos do céu em qualquer data, hora ou latitude”, disse. Ele avaliou que o planetário é uma ferramenta eficaz para popularizar a ciência, transformando conceitos abstratos em experiências visuais e interativas. “É uma ponte entre a teoria da sala de aula e a vivência prática do céu. Ver alunos e famílias tendo esse primeiro contato com o céu de forma imersiva é exatamente o tipo de democratização do conhecimento que motiva um trabalho de divulgação científica”, concluiu.



