Prova Nacional Docente revela que 1/3 dos professores não tem domínio mínimo para dar aulas
1/3 dos professores não tem domínio mínimo para dar aulas

Mais de um terço dos professores avaliados pelo Ministério da Educação (MEC) não apresenta condições mínimas para dar aulas, de acordo com os resultados da Prova Nacional Docente, divulgados recentemente. A primeira edição do exame, conhecido como Enem dos Professores, contou com a adesão de 1.508 municípios e 22 redes estaduais de ensino. O levantamento apontou que a maior deficiência na formação docente está na área de Matemática, onde mais da metade dos avaliados não atingiu o nível básico estabelecido pelo governo federal. Dos 760 mil participantes, 266 mil ficaram abaixo do patamar mínimo de proficiência.

Uma tragédia educacional

O diretor-executivo da organização Todos Pela Educação, Olavo Nogueira Filho, resumiu o cenário de forma contundente: a formação inicial dos professores brasileiros está na UTI. A situação é grave e compromete o futuro de gerações, uma vez que profissionais responsáveis por alfabetizar, ensinar Matemática e formar leitores não dominam o conteúdo essencial de sua própria atividade. O problema não se origina no professor que obteve mau desempenho na prova, mas sim nas licenciaturas frágeis, nos cursos de baixa qualidade, na expansão desordenada da educação a distância (EAD) e na tolerância oficial com instituições que diplomam sem efetivamente formar.

O mínimo exigível

A cobrança pelo domínio do conteúdo por parte de quem vai ensinar não deve ser vista como elitismo ou desprezo pela realidade socioeconômica dos professores. Trata-se do mínimo necessário. Nenhuma política educacional séria pode se sustentar sobre a fantasia de que apenas boa vontade é suficiente para ensinar. O professor precisa conhecer o que ensina, saber como ensinar e dispor de condições adequadas para exercer sua profissão. Valorizar o professor significa levá-lo a sério, o que implica exigir formação rigorosa, selecionar melhor, remunerar de forma justa e criar carreiras capazes de atrair bons profissionais.

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Um ciclo perverso

Durante décadas, o Brasil preferiu evitar essa verdade elementar. Multiplicaram-se planos, metas e conferências, mas o país conviveu com vícios de origem que fazem com que a formação daqueles de quem depende a melhora da escola pública seja deficiente. O resultado está nas salas de aula, no desempenho insuficiente dos estudantes, na desigualdade que se perpetua e, agora, nos números da Prova Nacional Docente. Assim se fecha um ciclo perverso: a escola básica deficiente alimenta licenciaturas frágeis.

Licenciaturas de baixa qualidade

Não há como enfrentar esse quadro sem encarar a realidade de parte relevante dos cursos de formação. Por anos, o Brasil permitiu que licenciaturas proliferassem com baixa exigência acadêmica, pouca integração com a escola real e escasso compromisso com o domínio dos conteúdos. A formação pedagógica, quando existe, frequentemente se perde em generalidades. Em paralelo, a formação específica, em muitos casos, não assegura o conhecimento que será cobrado em sala de aula. A prática supervisionada é muitas vezes tratada como formalidade burocrática e, na tradição corporativista do país, como conspiração de gestores públicos para perseguir professores.

O agravante da EAD

A expansão da educação a distância agravou ainda mais essa distorção. O problema central é fazer da formação docente um produto barato, escalável e descolado da experiência concreta da escola. Ensinar exige relação, observação, acompanhamento e capacidade de lidar com alunos reais, não apenas com plataformas e avaliações remotas. A consequência inevitável é o prejuízo imposto a milhões de crianças e jovens. Felizmente, o MEC começou a construir barreiras para conter a farra da EAD.

Prova Nacional Docente como ferramenta

A Prova Nacional Docente representa um avanço, desde que não seja tratada como solução isolada. Avaliar é necessário, mas o exame, por si só, não reformará a formação docente. Será inútil se seus resultados forem recebidos com resignação ou relativização corporativa. A prova deve orientar políticas concretas: reestruturar cursos ruins, elevar a exigência das licenciaturas, aproximar universidades e escolas, fortalecer estágios e impedir contratações sem aferição mínima de competência.

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Vergonha nacional e emergência

A tragédia revelada pelo Enem dos Professores deveria produzir um sentimento de vergonha nacional. Não a vergonha que humilha o docente individualmente, mas a vergonha republicana que obriga o Estado, as universidades, as redes de ensino e a sociedade a reagir. Se a formação docente está na UTI, cabe perguntar se o Brasil terá coragem de tratá-la como emergência nacional.