Em 1918, o cronista Pinheiro Junior, sob o pseudônimo 'P', já descrevia a importunação dos vendedores de bilhetes de loteria nas ruas de São Paulo como uma das coisas mais aborrecidas da cidade. Em sua coluna 'Coisas da Cidade' do jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 17 de outubro daquele ano, ele relatava como era impossível esperar um bonde, conversar com um amigo ou parar diante de uma loja sem ser abordado por um bilheteiro.
A persistência dos bilheteiros
Segundo Pinheiro Junior, os vendedores não se limitavam a oferecer os bilhetes. Eles encenavam verdadeiros dramas para constranger os possíveis compradores: enfiavam o bilhete no bolso do casaco ou deixavam-no cair no chão, na esperança de que a 'insistência da sorte grande' impressionasse o pedestre. 'Naturalmente, não se quer comprar. Mas o homenzinho não desanima. Evoluciona em torno de nós a insistir. Vai teimar insuportavelmente', escreveu o cronista.
O jogo não era monopólio do governo
Na época, as loterias não eram monopólio do governo — o que só ocorreria a partir de 1961. Diversas instituições, incluindo estados e municípios, promoviam várias loterias, vendidas nas ruas de São Paulo. Pinheiro Junior pedia à prefeitura que proibisse a venda de bilhetes nas ruas, assim como já havia acontecido no Rio de Janeiro. 'É preciso que o sr. prefeito e os srs. vereadores se dêem ao trabalho de passar um dia destes pela rua Quintino Bocayuva, das 2 às 3 da tarde, ou por alguma casa de loterias quando se está a extrahir qualquer loteria importante, — para verem quanto padecemos nós, com os bilheteiros', argumentou.
Comparação com as bets atuais
O fenômeno descrito por Pinheiro Junior atravessa o tempo. Hoje, as bets (apostas esportivas online) ocupam o lugar dos bilheteiros, com presença massiva em todas as mídias. A possibilidade de ganhar algo sem esforço continua a atrair pessoas, e os vendedores de jogos de azar precisam estar sempre presentes no cotidiano para fisgar clientes.
O cronista e sua obra
José Martins Pinheiro Junior nasceu em Silveiras (SP) em 12 de abril de 1884. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1907 e, dois anos depois, ingressou no jornal O Estado de S. Paulo como redator, cargo que exerceu por 35 anos. Além da coluna 'Coisas da Cidade', escreveu a 'Revista das Revistas' e foi um dos fundadores da 'Revista do Brasil' (1916) e do Diário da Noite (1926). Como advogado, foi nomeado Curador Fiscal das Massas Falidas de São Paulo em 1931, cargo que ocupou até 1954. Faleceu em 2 de outubro de 1958. No Acervo Estadão, constam 3.311 textos publicados por ele entre 1910 e 1945.
Contexto histórico
A crônica de 1918 faz parte de uma série de textos que revelam o cotidiano da cidade de São Paulo no início do século XX. Naquela época, a venda de bilhetes de loteria era uma prática generalizada, causando aborrecimento aos munícipes. A reclamação de Pinheiro Junior ecoa até os dias de hoje, mostrando que a relação entre os cidadãos e os jogos de azar sempre foi tensa.



