Após uma fase de testes em sete cidades, a Uber expandiu nacionalmente o 'Uber Mulher', funcionalidade que permite a usuárias mulheres e não binárias solicitarem viagens prioritariamente com motoristas mulheres. Desenvolvido pela equipe brasileira da companhia, o recurso chegou ao aplicativo no final de junho como parte de ações de segurança e bem-estar voltadas para esse público no país.
Recepção positiva e desafio de ampliar base feminina
De acordo com a diretora-geral da Uber no Brasil, Silvia Penna, a nova tecnologia teve boa recepção entre as passageiras, especialmente as que se sentem mais seguras sendo conduzidas por mulheres. No entanto, para popularizar a ferramenta, é necessário contar com um número maior de motoristas mulheres na plataforma. Segundo dados da empresa, enquanto o percentual de homens e mulheres clientes se equivale entre os mais de 30 milhões de usuários no país, no caso de motoristas, as mulheres representam apenas 8% da base cadastrada.
Em 2018, a Uber lançou o 'U-Elas', ferramenta que permite que motoristas mulheres transportem apenas passageiras mulheres, caso se sintam inseguras ao conduzir homens. Segundo Penna, houve um aumento de 160% no número de motoristas cadastradas, mas ainda há barreiras culturais que limitam esse crescimento e estão no radar de investimentos da Uber para oferecimento de suporte.
Barreiras sociais e práticas
'Existem barreiras sociais e práticas que temos que trabalhar em muitas mãos. Muitas vezes, elas têm menos acesso a veículos e à Carteira Nacional de Habilitação (CNH), têm menos tempo disponível, visto que a divisão de cuidados em casa, por vezes, ainda é desigual', avalia a executiva. 'A Uber cresceu muito no número de mulheres motoristas nos últimos anos, mas temos um caminho muito longo a percorrer.'
A expectativa é que a opção das usuárias pelo 'Uber Mulher' também incentive essa adesão. As passageiras contam com três formatos para se conectar às profissionais: reservar a viagem com antecedência mínima de 30 minutos; ativar nas configurações a preferência por mulheres, para que o aplicativo priorize essas motoristas antes de redirecionar o chamado para os homens; e escolher a opção 'Uber Mulher' diretamente na tela inicial.
Entrevista com Silvia Penna
As mulheres ainda representam menos de 10% da base de motoristas parceiros da Uber no Brasil. Quais são os principais fatores que ainda impedem uma participação maior delas na plataforma?
Existem barreiras sociais e práticas que temos que trabalhar em muitas mãos. Muitas vezes, elas têm menos acesso a veículos e à CNH, têm menos tempo disponível, visto que a divisão de cuidados em casa, por vezes, ainda é desigual. Temos que trabalhar juntos para facilitar essa entrada, mas é muito importante trazer informações de ganho financeiro, entender quais são as barreiras e trabalhar em sinergia com os institutos e especialistas para poder trazer mais confiança e entender quais são os medos. Informação e formação são muito importantes, além de ajudá-las. Por exemplo, temos um programa de convite que tem um valor diferenciado para a mulher, exatamente para facilitar se precisarem tirar uma EAR (Exerce Atividade Remunerada). É muito importante que consigamos cada vez mais investir e facilitar para que mais mulheres dirijam conosco. Isso favorece o ecossistema inteiro: as mulheres têm mais independência financeira, elas conseguem ter mais flexibilidade dentro da Uber, e as mulheres usuárias adoram quando as mulheres motoristas estão na plataforma. Então, é um ciclo muito virtuoso que queremos estimular.
A Uber lançou o programa 'U-Elas' para ampliar a participação feminina na plataforma. Quais resultados concretos a iniciativa já trouxe em termos de adesão e retenção dessas mulheres?
O 'U-Elas' é como se fosse o 'Uber Mulher' invertido. A motorista mulher seleciona que quer receber viagens só de passageiras mulheres, e existe desde 2018. É exatamente uma ferramenta para facilitar e não haver barreiras de entrada, para que elas se sintam mais seguras nas primeiras viagens. Dar esta opção gera um benefício mútuo, tanto na adesão de mulheres passageiras, quanto em trazer mais visibilidade e ajudar nosso objetivo de aumentar mais mulheres motoristas. Já tínhamos a plataforma para motoristas, mas, ao lançar o 'Uber Mulher', vemos o efeito dos dois lados: a adesão grande das passageiras, mas também um número maior de motoristas mulheres, usando a Uber para geração de renda.
Existe uma meta numérica que desejam alcançar quanto ao aumento dessas motoristas?
A nossa meta é crescer significativamente. É seguir investindo para ver crescimento de mais de dois dígitos. Mas não há um número específico. Nos últimos anos nós crescemos 160%. Os investimentos mostraram que houve um retorno muito alto. Então, queremos seguir nessa tendência positiva.
A funcionalidade 'Uber Mulher' surgiu a partir de uma demanda das usuárias e das motoristas ou foi uma iniciativa da própria empresa?
Eu brinco que o 'Uber Mulher' é a funcionalidade mais coletivamente criada do Brasil. Às vezes, em eventos ou qualquer reunião externa, muitas mulheres me dizem: 'Gosto tanto quando vem uma motorista mulher' ou 'Me sinto mais relaxada quando vem uma motorista mulher'. E o primeiro desafio era pensar em como fazer isso dentro de uma estrutura em que, hoje, tem menos motoristas mulheres do que homens. Então, nosso primeiro foco começou com o 'U-Elas' para estimular mais mulheres motoristas a dirigir, porque essa era a base para viabilizar o 'Uber Mulher' para as usuárias. Reconhecemos que o problema de violência contra mulheres é um problema sistêmico. Então, chamamos os especialistas para a mesa. Temos parceria com o Fórum de Segurança Pública, com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e com muitas instituições especializadas, para poder nos ajudar e trabalhar junto com essas possíveis mulheres motoristas, para trazê-las para a nossa plataforma. Inclusive, o Instituto Patrícia Galvão fez um estudo mostrando que, quando a mulher entra na Uber e consegue independência financeira, muitas vezes, ela se livra de violência doméstica. Tem todo um ciclo virtuoso que é muito bacana quando pensamos desde lá atrás. Crescemos muito no número de mulheres motoristas nos últimos anos, mas temos um caminho muito longo a percorrer.
E o segundo desafio?
O segundo desafio foi que nós iríamos continuar investindo em programas para aumentar mulheres motoristas, mas já queríamos trazer para as usuárias essa opção. E a funcionalidade foi desenvolvida no Brasil. Temos aqui um centro de tecnologia que nasceu em 2018, focado em segurança, e o 'Uber Mulher' foi criado aqui com essa ideia de fazer a melhor conexão possível entre usuária e parceira. Isso, sabendo que o volume de mulheres motoristas é menor, e que, talvez, o tempo de espera fique maior ou talvez não se encontre nas proximidades naquele momento uma mulher motorista. Há ainda a dificuldade de que o Brasil é enorme. O percentual da representatividade de mulheres motoristas se diferencia entre as cidades. Começamos lançando um piloto em algumas cidades menores para ver se funcionava, e deu muito certo. Cada localidade tem as suas especificidades, ajustes acontecem, os modelos funcionam em cada cidade de maneira um pouco particular, mas, em geral, vimos uma adesão e vimos que estávamos, de fato, alcançando o objetivo.
Nesse período piloto, já foram observadas mudanças na percepção de segurança das passageiras?
É um produto muito novo, e estamos acompanhando muito de perto o seu funcionamento, como ele performa. O que vemos é uma adoção muito interessante das mulheres. Em alguns momentos, elas nem sempre preferem. Em outros, acionam as preferências, e fazemos o possível para tentar conseguir motoristas mulheres. E isso faz parte de toda uma plataforma de segurança que desenvolvemos há bastante tempo. Para nós, segurança é prioridade. Falamos de segurança antes, com a checagem de antecedentes criminais; durante a viagem, com o compartilhamento de viagens, a integração com o 190 (número da Polícia Militar) e com gravação de áudio na viagem; e o 'Uber Mulher' é uma dessas funcionalidades incluídas na plataforma de segurança. Nossas métricas de segurança vão evoluindo com toda a plataforma, e o 'Uber Mulher' entra como um pilar.
Existe a intenção de incorporar novos recursos ao 'Uber Mulher'?
Continuamos com o time de engenharia, de produto, trabalhando no 'Uber Mulher' para torná-lo cada vez melhor. Então, com certeza, vamos sempre agregar funcionalidades, algumas muito visíveis, outras às vezes as pessoas nem sabem. Mas temos um time bem empenhado em tornar cada vez melhor a funcionalidade.
Considerando que a grande parte dos motoristas é formada por homens, que tipo de trabalho a Uber desenvolve com eles para promover um ambiente mais seguro para usuárias mulheres?
Esse é um tema prioritário e envolve múltiplas camadas. Somos uma empresa de tecnologia, e foi muito importante desde 2018, como um princípio, criarmos um time para trazer ferramentas de segurança que funcionem em escala, pois é uma empresa de tecnologia que conecta viagens no mundo real. Entendemos também que é muito importante, como esse problema é um problema sistêmico para mulheres, trazer os especialistas, parceiros, organizações especializadas, para nos auxiliar em vários pontos: em pesquisa, em conteúdo educativo, em campanha de sensibilização. Mas dentro de um ecossistema muito importante, que envolve trabalhar tanto com as ferramentas de nossa tecnologia, quanto com os especialistas.



