O Nordeste consolidou-se como o principal polo de shows financiados com dinheiro público no Brasil. Levantamento do observatório 'De Olho nos Ruralistas', que analisou mais de 20 mil contratos firmados por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026, revela que das 7.412 apresentações identificadas no período, 5.818 ocorreram na região Nordeste. Para viabilizá-las, foram desembolsados R$ 2,22 bilhões dos cofres públicos.
Por que o Nordeste concentra os recursos?
Pesquisadores, especialistas em gestão pública e profissionais do mercado de shows apontam três fatores principais: concentração do mercado nas mãos de grandes produtoras nordestinas, articulação política de gestores locais em busca de retorno de visibilidade e geografia favorável, que reduz custos e facilita rotas de apresentações.
Estados que mais gastaram
Bahia e Pernambuco lideram os gastos com shows públicos no país, com R$ 578,47 milhões e R$ 573,10 milhões, respectivamente. No outro extremo, o Piauí foi o estado que menos gastou na região: R$ 79 milhões. Os valores incluem cachês pagos por governos estaduais e prefeituras.
Gêneros musicais dominantes
Apesar do avanço do sertanejo nos últimos anos, os ritmos tradicionais nordestinos ainda dominam. Entre os 40 artistas mais contratados, os do piseiro movimentaram R$ 913,04 milhões em contratos públicos, dos quais 88% foram pagos por estados nordestinos.
Artistas mais bem pagos
Natanzinho Lima, cantor sergipano de 23 anos, lidera o ranking com R$ 158,17 milhões para 336 shows — média de 12,4 apresentações públicas por mês. Em seguida vêm Henry Freitas (R$ 125,9 milhões) e Wesley Safadão (R$ 113 milhões).
O peso das produtoras
Cinco produtoras sediadas no Nordeste administram as carreiras de 21 dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos desde 2024, somando R$ 2,4 bilhões em contratos. Alceu Castilho, jornalista que coordenou o levantamento, afirma: 'Elas conseguem fechar muitos contratos por causa do poder institucional e político junto às prefeituras e aos governos estaduais. A agenda dos shows públicos no Brasil, hoje, quem faz são as produtoras.'
Decisão política e retorno eleitoral
Raquel Lyra (PSD), governadora de Pernambuco, é a gestora que mais contratou artistas do ranking, destinando R$ 57 milhões em cachês para 25 dos 40 nomes. Wallace Corbo, doutor em Direito Público e professor da UERJ, explica: 'É um contraste com outras áreas, como saúde, saneamento e educação, em que o retorno demora anos para aparecer. São investimentos necessários, mas que não trazem aquela satisfação imediata do eleitorado que os shows podem trazer.'
Geografia como vantagem logística
Elver Panda, produtor que trabalhou com Marília Mendonça e Henrique e Juliano, destaca: 'A logística é um dos principais vilões do roteiro de um artista. No Nordeste, você consegue fazer muita dobra terrestre, porque muitos municípios estão a apenas 80 ou 100 quilômetros de distância.' No Norte, as maiores distâncias e menor oferta de malha aérea tornam a operação mais cara.
O caso de Goiana (PE)
Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, com cerca de 85 mil habitantes, é o quarto maior contratante de shows públicos do país, com R$ 25,58 milhões destinados a artistas. Paralelamente, cerca de 45% da população vive sem água tratada e 60% não têm acesso à rede de esgoto, segundo o Instituto Água e Saneamento. Em março de 2025, fortes chuvas deixaram bairros submersos e cerca de 500 pessoas desalojadas. Wallace Corbo comenta: 'Como se diz na gestão pública, quando você cobre o peito, deixa o pé descoberto. O orçamento é limitado.'



