Mãe de menina que ingeriu soda cáustica relata violência e separação de 8 anos
Mãe de menina que ingeriu soda cáustica relata violência

A mãe da menina de 11 anos internada após suspeita de ingestão de soda cáustica, em Rio Branco, revelou que sofreu violência doméstica durante o relacionamento com o pai da criança e que, por isso, foi impedida de conviver com a filha por mais de oito anos. A mulher, que não será identificada, contou à Rede Amazônica Acre que teve contato pessoal com a menina apenas até os 3 anos de idade. Ela mora na zona rural de Boca do Acre (AM) e chegou à capital na terça-feira (7) para prestar depoimento e acompanhar a recuperação da filha.

Internação e suspeita de crime

A menina foi internada no dia 3 de julho, após a suspeita de ingerir soda cáustica em uma casa no bairro Apolônio Sales, em Rio Branco. A Polícia Civil investiga a denúncia de que a madrasta teria obrigado a criança a ingerir a substância. A vítima segue internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into-AC). O caso está sob segredo de Justiça.

Segundo a mãe, ao chegar ao hospital, a equipe médica confirmou a ingestão de soda cáustica e orientou que evitasse perguntas sobre o caso para não causar sofrimento à criança durante a recuperação. "Quando eu entrei, a médica falou que tinha uma surpresa para ela. Quando ela olhou para mim, me reconheceu. Ela começou a chorar e eu também. Eu só falei que estava do lado dela, que ela tinha uma mãe e que não ia abandonar ela", disse.

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Os médicos informaram que a menina sofreu graves lesões internas, deverá passar por cirurgia e orientaram a família a preservar o estado emocional da paciente. "Eles falaram que ela está muito machucada por dentro. Disseram para eu ir devagar e ajudar ela a esquecer esse momento. Quando ela estiver melhor, eu vou conversar com ela. Agora eu só quero que ela melhore", relatou.

Histórico de violência doméstica

Sobre o relacionamento com o pai da criança, a mãe contou que o ex-companheiro teria impedido o contato entre as duas após o término do casamento. A mulher viveu cerca de seis anos com o pai da menina e afirma que era vítima de agressões físicas e ameaças constantes. O casal teve dois filhos.

Ela decidiu fugir por temer pela própria vida e disse ao então companheiro que viajaria para visitar a mãe. A intenção era levar os dois filhos, mas o homem permitiu apenas que o caçula fosse com ela. “A minha situação com ele era muito difícil. Ele me batia muito. Eu preparei minha fuga para Boca do Acre porque ele dizia que eu só ia embora se ele me matasse. Minha intenção era levar meus dois filhos, mas ele não deixou eu levar ela", relatou.

Após deixar a casa, a mãe tentou diversas vezes reaver a guarda da filha e chegou a procurar o Conselho Tutelar. Ela disse ainda que voltou outras vezes para tentar ver a menina, mas era impedida de se aproximar. "Quando eu voltei, ele já tinha tocado fogo nas coisas que eu tinha dado para ela. Ela chorava e dizia: 'Mamãe, olha o que ele fez'", relembrou.

Condição para reencontro

Conforme o relato, o ex-companheiro condicionava o reencontro entre mãe e filha à retomada do relacionamento. "Ele falou que eu ia ficar com ela se eu voltasse com ele. Se eu não voltasse, não ia deixar eu ver minha filha", disse. A mulher afirmou que, após reconstruir a vida ao lado do atual marido, recebia apenas informações de familiares de que a filha estava bem. Ela só tomou conhecimento da gravidade da situação após a irmã avisá-la sobre a internação da menina.

“Quando minha irmã me ligou contando o que tinha acontecido, eu e meu marido não pensamos duas vezes. Deixei tudo para trás por causa dela. Eu só vou sair daqui quando conseguir a guarda da minha filha", comentou.

Atuação do Conselho Tutelar

A menina está internada e recebe atendimento especializado. Segundo o Conselho Tutelar, toda a rede de proteção foi acionada desde que o caso chegou ao conhecimento das autoridades. O conselheiro tutelar Celson Inácio afirmou que todos os direitos da criança estão sendo assegurados e fez um alerta para que pessoas não utilizem a imagem da menina nem façam campanhas de arrecadação em nome dela pelas redes sociais.

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“A criança está com todos os direitos garantidos e toda e qualquer situação que ela precisar será assegurada pela rede de proteção. Ninguém tem prerrogativa legal para divulgar imagem ou pedir Pix para essa criança", orientou. Segundo ele, qualquer necessidade da vítima será atendida pelos órgãos competentes, em conjunto com a assistência social do município, conforme prevê a legislação.

Investigação do Ministério Público

Além da investigação conduzida pela Polícia Civil, o Ministério Público do Acre (MP-AC) instaurou uma notícia de fato para acompanhar o caso. O órgão informou que solicitou perícia no produto químico que pode ter sido ingerido pela criança e nas lesões sofridas por ela, além de acompanhar as medidas protetivas adotadas pelo Conselho Tutelar. O procedimento apura a possível prática de crimes como tentativa de homicídio, tortura e maus-tratos.

A Polícia Civil informou anteriormente que não comentará o caso neste momento para não prejudicar as investigações.