Uma jovem de 28 anos, moradora de Itapetininga (SP), ficou chocada ao descobrir que praticou rope jump com a mesma empresa envolvida no acidente que matou Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, no sábado (13). A vítima foi lançada de uma ponte sem estar presa ao equipamento de segurança.
O que é rope jump?
O rope jump é uma modalidade que utiliza cordas estáticas, sem elasticidade. Após a queda, o movimento é de balanço, como um pêndulo. No bungee jump, mais conhecido, a corda elástica faz a pessoa cair e quicar para cima e para baixo repetidamente.
Relato da professora
A professora de artes Raissa Rodrigues, de 28 anos, contratou o salto com a empresa Entre Cordas. Segundo ela, um dos homens que a auxiliou na preparação também participou do salto que resultou na morte de Maria Eduarda. Raissa praticou a modalidade em 16 de maio.
“Saltei com essa empresa mês passado, com o mesmo instrutor, Luís Felipe Egoroff. Este final de semana foi bem difícil para mim. Primeiro, porque fiquei em choque com a fatalidade, por ter sido no mesmo local, com a mesma empresa, os mesmos instrutores e o mesmo tipo de salto que fiz”, relatou.
A jovem, adepta de esportes radicais como voo de asa-delta, rapel e tirolesa, relembrou que, antes do salto, recebeu orientações da equipe e passou por procedimentos de conferência dos equipamentos de segurança. “No dia do salto foi tudo tranquilo, tudo certinho. Quando eu observava os saltos das pessoas, eles explicavam direitinho sobre a posição, perguntavam como a pessoa queria saltar, se queria ir correndo, empurrado, de aviãozinho. Tinha algumas etapas: verificar o nome na lista, assinar o termo, depois esperar para colocar os equipamentos e aguardar chamarem a senha para saltar”, aponta.
Raissa também afirmou que foi informada sobre a colocação da corda de segurança e percebeu imediatamente o peso do equipamento. “Eles falaram: ‘vamos colocar a corda de segurança agora’. E essa corda era bem pesada. Quando a prenderam na minha cintura, já senti o peso dela. Eu verifiquei se estava presa, então fiquei questionando ‘como a moça não sentiu o peso da corda?’, mas ao mesmo tempo eu pensei que é uma adrenalina a mil, talvez ela estava com medo e nem percebeu, e confiou neles”, refletiu.
Repercussão após acidente
Raissa, que também produz conteúdo para as redes sociais, publicou o vídeo do salto em 30 de maio, cerca de duas semanas antes do acidente. No entanto, ela acredita que, após o caso ganhar repercussão, o algoritmo passou a recomendar sua publicação para mais usuários, o que levou algumas pessoas a acusá-la de tentar se promover em meio à tragédia.
“Comecei a receber comentários e mensagens horríveis, me acusando de querer ‘surfar na onda’ da tragédia, sendo que tudo foi publicado bem antes do ocorrido. Como o assunto estava sendo muito pesquisado, o algoritmo do Instagram começou a entregar meus vídeos para milhares de pessoas. Páginas de fofoca, sites e perfis do Brasil e do exterior postaram o meu vídeo. Tomou uma proporção absurda”, lamenta.
No vídeo, Raissa aparece usando capacete e equipamentos de segurança presos à cintura, onde a corda do salto está fixada. Ela também segura uma câmera na mão direita. As imagens mostram a jovem sendo carregada por três homens sobre a passarela de pedra antes de ser impulsionada para o salto.
Decisão de dar um tempo
A moradora do interior de São Paulo afirma que busca os esportes radicais pela sensação de adrenalina e pelo frio na barriga. No entanto, após a morte da jovem de 21 anos, decidiu se afastar desse tipo de prática por um período.
“É óbvio que senti medo, mas eu tinha amado a minha primeira experiência. Esportes radicais são para isso, para sentir essa adrenalina e frio na barriga. Tanto que depois eu comentei com amigos que queria fazer de novo, porém em outro lugar, pois tinha gostado da experiência. Mas agora, no momento, vou dar um tempo, pois essa fatalidade me comoveu demais”, disse.
Raissa também prestou solidariedade à família da vítima e às pessoas que testemunharam o acidente. “E eu também me solidarizo com a família da Maria Eduarda e com todos que presenciaram a fatalidade, pois quando saltei, todos que estavam esperando a vez de saltar ficavam vibrando por quem estava saltando. Então é um trauma gigantesco também para quem presenciou”, completou.
A morte de Maria Eduarda
Segundo a Polícia Militar, uma testemunha relatou que os funcionários da empresa responsável esqueceram de colocar o equipamento antes do salto. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, é possível ver o momento em que funcionários carregam a vítima até a plataforma. Eles a jogam e, instantes depois, ouvem-se vozes de desespero gritando: “a corda”, “gente, a corda”.
A jovem caiu de uma altura de 40 metros e teve a morte constatada no local pelas equipes do Samu e do Corpo de Bombeiros. Segundo a Polícia Civil, o equipamento grosso que deveria estar preso ao corpo da vítima para segurar a queda foi esquecido e ficou enrolado no chão da estrutura de salto. Uma testemunha, que saltaria logo após a jovem, relatou que os instrutores não fizeram a checagem de segurança na vez de Maria Eduarda.
Três homens foram autuados em flagrante por homicídio com dolo eventual: Luis Felipe Feliciano Egoroff, de 32 anos, que teria participado do salto com Maria Eduarda; Vitor de Freitas Gonçalves, de 27 anos; e Maicon Fernandes Cintra, de 42 anos. O advogado Rafael Gomes dos Santos, que representa os três presos, afirmou que o rope jumping não é regulamentado, mas também não é proibido. Segundo ele, eventos semelhantes já foram realizados na Ponte do Esqueleto sem intervenção do poder público. O defensor informou ainda que a atividade deste sábado reunia cerca de 100 participantes e classificou o caso como uma “triste fatalidade”, destacando que os envolvidos praticam o esporte há anos sem histórico de acidentes. A investigação está sob responsabilidade do 2º Distrito Policial de Limeira.



