A histórica igreja matriz do distrito de Santa Cruz da Estrela, em Santa Rita do Passa Quatro (SP), construída em 1916, foi interditada há cerca de quatro anos após graves problemas estruturais que colocavam o prédio em risco iminente de desabamento. Palco de momentos históricos, como o casamento do compositor Zequinha de Abreu e celebrações conduzidas pelo Padre Donizetti, o local hoje é centro de uma mobilização comunitária que busca R$ 200 mil para concluir a reforma.
Problemas estruturais e risco de desabamento
O tempo e a ação da natureza agiram severamente contra as fundações da igreja centenária. Rachaduras profundas começaram a cortar as paredes e o piso, assustando os frequentadores antes da interdição. A tesoureira da Associação que busca recursos, Andréia Zanin Costa, relembrou: 'Já vinham as trincas aparecendo há um certo tempo e, conforme a gente participava das missas, a gente via que cada vez mais aumentava. O chão começou a ficar em um desnível alto, tanto que as pessoas tropeçavam nas trincas.'
O problema, de caráter geotécnico, foi provocado pela infiltração de água sob o templo. O arquiteto Aldair Alves da Silva, responsável técnico pela avaliação, explicou: 'O que ocasionou o problema estrutural foi a percolação da água no solo, que levou o solo. Foi onde a igreja cedeu. O risco de queda era bem grande.'
Patrimônio cultural e histórico
Além de espaço religioso, a igreja é patrimônio cultural do interior paulista. A aposentada Janice Soares de Campos guarda memórias de família que se cruzam com grandes nomes. Ela relata a presença do Padre Donizetti, famoso por seus milagres em Tambaú: 'A minha tia casou-se aqui e o padre, que era o pároco daqui, morava aqui na época. Ele estava muito velhinho. Então, o Padre Donizetti veio de Tambaú para ajudá-lo a fazer o casamento da minha tia.'
Janice também aponta com orgulho a vizinhança onde viveu Zequinha de Abreu, um dos maiores nomes da música brasileira: 'Ele era daqui, nasceu aqui, a casa dele era aqui no fundo da igreja, do lado de lá. Foi casado aqui, casou nessa igreja.'
Mobilização comunitária e desafio financeiro
Diante do abandono e do risco de demolição, os moradores criaram uma associação há dois anos para captar recursos. A primeira fase da obra — estudo do solo e reforço das fundações — foi concluída com sucesso, garantindo a segurança estrutural. 'Fizemos a sondagem, o estudo do solo. Fizemos o reforço estrutural, com isso o laudo comprovando que está seguro. Hoje é um prédio seguro', afirmou o arquiteto Aldair Alves da Silva.
Apesar do alívio, a comunidade enfrenta a falta de recursos para a segunda etapa, focada no acabamento e reforma interna, orçada em R$ 200 mil. A vice-presidente da Associação, Cássia Renata Oliveira, detalhou os esforços: 'A gente faz festa junina, quermesse, leilão, rifa, bazar de roupa. Tudo é das nossas ações, do voluntariado. E pedindo também nas redes sociais valores para doação. Da segunda etapa não temos nenhum valor, nem da mão de obra. O orçamento está em torno de 200 mil.'
Voluntários têm batido de porta em porta em municípios vizinhos, como Porto Ferreira, em busca de apoio de comerciantes e empresários. Enquanto as obras não avançam, as atividades religiosas foram transferidas para o salão paroquial. A 1ª secretária da Associação, Regina Imaculada do Prado, expressou esperança: 'Se Deus quiser, quero estar viva para tudo isso e a igreja linda, maravilhosa, para poder trazer o Santíssimo de volta.'



