Palestra Itália: clube centenário é vendido por R$ 6,75 mi em Ribeirão Preto
Clube Palestra Itália vendido por R$ 6,75 milhões em Ribeirão

O Clube Palestra Itália, prestes a completar 109 anos, foi vendido por R$ 6,75 milhões a um grupo de investidores. A agremiação, localizada na Rua Padre Euclides, no bairro Campos Elíseos, em Ribeirão Preto (SP), ocupava uma área de 19 mil metros quadrados que estava praticamente desativada.

História e auge do clube

Fundado em 1917 por imigrantes italianos, o Palestra Itália foi o principal ponto de encontro e lazer para famílias de operários das indústrias locais durante o século passado. O historiador Felipe Souza explica que o local guarda a memória da formação da sociedade ribeirão-pretana. "Os patrimônios que a gente tem espalhados pela cidade representam fragmentos de um passado que a gente pode identificar através principalmente da arquitetura", afirma.

O clube viveu seu auge esportivo e social entre as décadas de 1960 e 1980, quando chegou a registrar 8 mil sócios ativos. A maior parte dos frequentadores era de operários de grandes empresas da região, como a Cervejaria Paulista e Antarctica, a Companhia Mogiana e a Cerâmica São Luís. "Essas pessoas precisavam de um espaço para poderem socializar, praticar seus esportes, terem suas festas, assim como a alta sociedade também tinha na época", explica Souza.

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O aposentado Adilson Jacometi, de 75 anos, é sócio desde a juventude e guarda a carteirinha. Ele relata a importância das piscinas e dos salões em sua vida. "Desde o primeiro dia compramos um título. Inclusive, aprendi a nadar aí e tive um dos principais tempos do estado de São Paulo nadando. Eu só não vi a construção daquela piscina lá, o resto eu vi tudo aqui", relembra.

Declínio e venda

A partir dos anos 1990 e 2000, o clube enfrentou esvaziamento gradativo, perda de associados e acúmulo de dívidas. Hoje, a estrutura centenária é mantida por uma pequena parcela de frequentadores. "Está abandonado. O clube hoje tem 40, 50 sócios só, e tem uns 300 remidos, que não pagam nada", afirma Jacometi.

Para o historiador, a mudança de hábitos e a nova configuração urbana motivaram o esvaziamento. "O lazer foi se readaptando ao longo do tempo. Foram criadas novas formas de sociabilização. A internet também funciona como um tipo de lazer frequentemente utilizado no nosso cotidiano. A vida ficou mais corrida, mais atribulada com trabalho. Então, muitas vezes os clubes vão sendo esquecidos", diz Souza.

Após ser levado a leilão diversas vezes sem sucesso e chegar a ser avaliado em R$ 13 milhões, o imóvel foi comprado em conjunto pelas construtoras DZ Empreendimentos Imobiliários, de São Paulo, e Golden Business, de Ribeirão Preto. O valor de R$ 6.750.000,00 será pago com entrada à vista de R$ 2 milhões, e o restante dividido em 30 parcelas mensais de R$ 157,5 mil, com correção.

Destinação dos recursos

Todo o dinheiro arrecadado será destinado ao pagamento de dívidas fiscais e trabalhistas, que afetam ex-funcionários dispensados entre 2007 e 2009 e trabalhadores que deixaram de receber na pandemia de Covid-19. O advogado Régis Carlos Gonzales, representante de parte dos ex-funcionários, afirma que o negócio resolve dezenas de ações pendentes na Justiça. "Essa venda representa a satisfação de 50, 60 processos que estão tramitando na Justiça do Trabalho. A maioria é oriunda de 2021. De lá para cá, esses créditos não foram satisfeitos. Acreditamos que esse valor vai conseguir satisfazer todos os créditos de natureza trabalhista", afirma Gonzales.

Revitalização e patrimônio histórico

As construtoras confirmaram que a intenção é manter o prédio original e revitalizar o centro esportivo para que volte a ser frequentado por moradores. O processo de reforma ocorrerá sem a proteção oficial do patrimônio histórico, já que o tombamento municipal foi revertido com base na Súmula 473 do STF, sob a justificativa de que não havia mais motivação da sociedade para manter a proteção legal.

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O historiador defende que a construtora preserve as características originais. "Sem o tombamento, não tem mais essa seguridade legal. Porém, a gente espera que a boa vontade dos novos donos seja satisfatória. Hoje tem que ter acessibilidade, modificação nas estruturas para as pessoas poderem acessar com mais qualidade. Mas o que puder manter da arquitetura original, isso é muito bom, não só para o Palestra em si, mas para a história de Ribeirão Preto", conclui.