Brasil Adiante debate segurança pública e crime organizado em julho
Brasil Adiante debate segurança e crime organizado

A violência é a principal preocupação dos brasileiros, superando corrupção, pobreza e desigualdade. Embora o Brasil registre melhora nos índices criminais, com queda histórica de homicídios – o menor número desde 2012 –, a percepção de insegurança só aumenta. Esse paradoxo ocorre diante do controle exercido por facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em comunidades e municípios, impondo uma rotina de medo e extorsão. Em paralelo, os roubos de celular, apesar da queda, seguem em patamar alto: quase um milhão em 2024, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Brasil Adiante: terceiro encontro foca em segurança pública

Como reduzir assassinatos e crimes violentos a níveis de países desenvolvidos? Essas propostas serão discutidas no terceiro encontro do Brasil Adiante, série de eventos do Estadão que antecede as eleições de outubro. O objetivo é construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo. O evento ocorre em 23 de julho, no Espaço JK Eventos, em São Paulo, das 8h às 11h30, com transmissão ao vivo nas plataformas do Estadão.

Queda de homicídios, mas número ainda é alarmante

O Brasil teve queda de homicídios pelo quarto ano seguido em 2024, com 44,1 mil registros. Há menos de uma década, os números superavam 60 mil, em meio a conflitos entre PCC e CV. “Mas 40 mil ainda é um número absurdo. E pior: não traduz a realidade do quadro de degradação”, afirma o analista de segurança Alessandro Visacro. Estudo Global Sobre Homicídios da ONU, de 2021, mostrou que o Brasil teve 10% dos assassinatos registrados no mundo naquele ano. Periferias e regiões metropolitanas concentram a maior parte das perdas, mas há interiorização da violência. “Há áreas sem homicídio não porque o Estado impõe regramento, mas porque existe o regramento de um grupo armado criminal”, continua Visacro. Pesquisas indicam que a oscilação de homicídios está mais ligada a dinâmicas de conflito ou pacificação entre facções do que a políticas públicas.

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Baixa resolução de assassinatos e prevenção deficiente

Um dos gargalos é o baixo índice de resolução de assassinatos. Levantamento do Instituto Sou da Paz aponta que seis a cada dez homicídios ficam sem esclarecimento, com grandes discrepâncias entre estados. Enquanto Goiás e Distrito Federal apresentaram denúncias para mais de 80% dos assassinatos entre 2020 e 2023, Bahia e Rio Grande do Norte não passaram de 15%. Estados com guerras de facções têm índices mais baixos. “Só é possível desenhar políticas de prevenção que efetivamente funcionem quando se entende a dinâmica e a motivação dos homicídios”, afirma Rafael Rocha, coordenador de projetos do Sou da Paz.

Controle de armas e investigação

Na prevenção, é crucial controlar a entrada de armas de uso militar e munição pelas fronteiras, além de apreender esses equipamentos. “É esse tipo de arma que permite o domínio territorial, o confronto com agentes do Estado e ocorrências complexas, como a execução de autoridades”, apontou o Sou da Paz. Nas favelas cariocas, fuzis, metralhadoras e drones-bombas desafiam a polícia mesmo em megaoperações, como na ofensiva contra o CV nos complexos do Alemão e da Penha em 2025. Execuções em espaços públicos, como a do delator do PCC Antonio Vinicius Gritzbach no Aeroporto de Guarulhos e a do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes em Praia Grande, expõem a capacidade do PCC em ataques espetaculosos.

Fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública

Para melhor investigação, é preciso fortalecer perícia, integrar dados entre polícias e usar tecnologias de ponta. Outro caminho é avançar no Sistema Único de Segurança Pública (Susp), com repasses para estados que reduzirem mortes violentas. A lei do Susp foi aprovada em 2018, mas sua implementação avança lentamente, devido à falta de padronização de dados e dificuldades de articulação federal. O domínio territorial das facções também atrapalha investigações, dificultando a preservação de corpos e obtenção de imagens.

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Estratégias policiais e letalidade

Especialistas veem com ressalvas as sucessivas operações policiais, que têm dificuldade em prender lideranças do tráfico. É mais efetivo investir em inteligência, como a Operação Carbono Oculto, que desarticulou esquema de fraudes envolvendo o PCC. Além disso, o país precisa de política prisional efetiva, com penas duras para crimes hediondos e isolamento de líderes para bloquear ordens de assassinato das cadeias. Programas de reintegração social são importantes, mas é preciso evitar agravar a superpopulação carcerária, separando presos por gravidade dos crimes.

Letalidade policial e cooptação de agentes

Em 2024, foram 6.243 mortes pelas forças de segurança, cerca de 14% dos óbitos violentos intencionais. Especialistas defendem melhor preparo das tropas, câmeras nas fardas e armas não letais. A alta letalidade não torna o combate mais eficiente e pode gerar confrontos sangrentos. Outra necessidade é blindar a polícia contra infiltração do crime organizado. No fim de 2025, a Operação Unha e Carne prendeu o presidente da Assembleia Legislativa fluminense, Rodrigo Bacellar, acusado de vazar informações para o ex-deputado TH Joias, suspeito de elo com o CV. Também foram alvos o desembargador Macário Júdice Neto, o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Marcus Amim, e o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella. Todos negam os crimes. “A cooptação de agentes públicos é o ponto mais crítico, porque permite que a infiltração econômica se sustente ao longo do tempo sem ruptura”, diz o promotor Juliano Atoji, do Gaeco do MP-SP.

Feminicídios em alta

Os feminicídios têm aumentado e exigem estratégias diferentes, pois ocorrem em contextos de violência doméstica. “A violência de gênero é pautada pela ideia de dominação masculina, desse homem que se sente no direito de domínio do corpo feminino”, disse Silvia Chakian, coordenadora do Núcleo de Atendimento a Vítimas de Violência do MP-SP. A falta de investimento em prevenção e o discurso de ódio nas redes sociais estão por trás da alta. A prevenção exige articulação entre saúde, assistência social e Judiciário, além de revisão de protocolos e monitoramento de casos sob medida protetiva. O debate sobre violência de gênero nas escolas e campanhas educativas é essencial.

Painéis do encontro

O evento terá dois painéis. O primeiro, “Por que o Brasil não consegue reduzir a violência?”, com Joana Monteiro (FGV/Ebape), Renato Sérgio de Lima (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e Rodrigo Pimentel (ex-Bope), mediação de Victor Vieira (Estadão). O segundo, “O crime organizado está mais preparado que o Estado?”, com Cristina Pinotti, Fábio Diniz (INCC) e Lincoln Gakiya (MP-SP), mediação de Marcelo Godoy (Estadão). As inscrições são gratuitas e podem ser feitas online.