Um menino de 7 anos corria pelo gramado do Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, quando subiu em uma pequena árvore próxima aos pais. Seu pai, o botânico e paisagista Ricardo Cardim, estava sentado quando ouviu o barulho de uma moto se aproximando. Um segurança do parque parou ao lado da família e informou que a criança havia sido vista subindo na árvore, o que não era permitido pelas regras do local. O caso ocorreu na última sexta-feira (5). Cardim afirma que o filho ficou assustado e constrangido com a abordagem. Em seguida, gravou um vídeo relatando o episódio e questionando a proibição. Publicado nas redes sociais, o relato viralizou e reacendeu um antigo debate em São Paulo: até que ponto regras criadas para proteger árvores e usuários podem limitar o brincar livre e o contato das crianças com a natureza?
Regulamentação e reações
A orientação dada pelo segurança não foi uma decisão isolada. Regulamentos de parques municipais e estaduais de São Paulo proíbem que visitantes subam em árvores. A restrição existe há pelo menos duas décadas e costuma ser justificada por razões de segurança e preservação ambiental. No Parque Villa-Lobos, administrado pela concessionária Reserva Paulista desde 2022, o regulamento proíbe expressamente subir, escrever ou amarrar objetos nas árvores. Procurada pelo g1, a concessionária lamentou o desconforto causado à família e afirmou que a orientação seguiu as normas vigentes. Segundo a empresa, a restrição faz parte do Regulamento de Operacionalização e Uso elaborado em 2019, com o objetivo de prevenir acidentes e contribuir para a preservação das espécies vegetais. A concessionária disse estar aberta a ouvir a sociedade para discutir novas alternativas de interação com a natureza para as crianças, desde que respeitados critérios de segurança.
A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) informou que valoriza o uso dos parques por crianças e que as regras não visam restringir o contato com a natureza, mas proteger as árvores. Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam, porém, que experiências como subir em árvores ajudam no desenvolvimento motor, emocional e cognitivo das crianças e questionam o excesso de controle sobre a infância nos espaços públicos.
Importância do contato com a natureza
Isabel Barros, engenheira ambiental e especialista em infâncias e natureza do Instituto Alana, destaca o papel dos parques em uma cidade como São Paulo, onde oportunidades de contato espontâneo com a natureza se tornaram raras. "Se uma criança não puder subir numa árvore dentro de um parque, talvez ela não suba em lugar nenhum", afirma. Ela ressalta que episódios como o ocorrido refletem a redução da autonomia infantil e das oportunidades de brincar ao ar livre. O livro "Parques Naturalizados", organizado por ela em 2022, aponta que o "raio de ação" das crianças vem diminuindo ao longo das gerações, reduzindo experiências de exploração e contato com a natureza.
Para Isabel, subir em árvores estimula habilidades motoras, criatividade, autoconfiança e percepção de risco. "Uma criança que cresce sem essas experiências vai crescendo com um repertório mais empobrecido de manejo de risco", afirma. Ela sugere identificar árvores adequadas para a atividade e sinalizá-las, com orientação das famílias, em vez de simplesmente proibir.
Visão de especialistas
A educadora e antropóloga Adriana Friedmann avalia que o episódio revela um processo mais amplo de restrição da autonomia das crianças. "Há um movimento de higienização da infância e de querer controlar cada movimento das crianças", afirma. Para ela, o contato livre com a natureza é fundamental para o desenvolvimento infantil. "A criança se desenvolve através da experiência. Ela precisa experimentar, explorar, descobrir o mundo à sua volta", diz.
O botânico Ricardo Cardim também questiona o argumento de preservação ambiental. "Preservar a natureza é ensinar as crianças a amar a natureza", afirma. Ele sugere que algumas árvores sejam identificadas como adequadas para escalada infantil, permitindo que crianças tenham essa experiência em condições seguras.
Histórico da proibição
A proibição de subir em árvores não é exclusiva do Villa-Lobos. Regulamentos municipais consultados pelo g1 mostram que a vedação já aparecia em parques da capital ao menos em 2003. No regulamento do Parque Cidade de Toronto, na Zona Norte, já era proibido "subir ou danificar árvores". Normas mais recentes mantêm a mesma orientação. Em regulamento publicado pela Prefeitura em 2025 para o Parque Linear Feitiço da Vila, na Zona Sul, também é proibido "subir, danificar, prender adornos, redes ou outros equipamentos nas árvores".
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), responsável pelas políticas estaduais dos parques, não respondeu até a última atualização desta reportagem.
Notas oficiais
Concessionária do Villa-Lobos: "A concessionária informa que, assim que tomou conhecimento da situação, entrou em contato com a família envolvida e lamenta pelo desconforto causado. Reiteramos que a orientação realizada pelo agente de segurança seguiu as normas vigentes de uso do parque, que estão publicadas no site. A restrição de subir em árvores está prevista no Regulamento de Operacionalização e Uso, elaborado em 2019, e tem como objetivo prevenir acidentes e contribuir para a preservação das espécies vegetais. Estamos abertos a ouvir a sociedade para construir novas alternativas de interação com a natureza para as crianças, sempre com foco em oferecer um lugar seguro, acolhedor e em constante evolução."
SVMA: "A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente informa que os parques municipais possuem regulamentos de uso, aprovados pelos conselhos gestores, que proíbem práticas que possam causar danos à vegetação ou comprometer a segurança dos frequentadores, como escalar, prender adornos, redes ou equipamentos em árvores e esculturas. A medida visa preservar a vegetação e reduzir riscos de acidentes. A Pasta destaca que valoriza o uso dos parques por crianças e que as regras não visam restringir o contato com a natureza, mas proteger as árvores. Para conciliar interação e preservação, a SVMA implantou parquinhos naturalizados, com brinquedos produzidos a partir de resíduos de manejo arbóreo, além de manter diálogo com instituições ligadas à pauta da infância."



