Maria da Fé, localizada no Sul de Minas Gerais a aproximadamente 1.300 metros de altitude, voltou a registrar temperaturas negativas nesta semana. A mínima chegou a -1,2°C, consolidando ainda mais a reputação de um dos municípios mais frios do estado. O fenômeno é resultado da combinação entre a elevada altitude e a predominância de vales e baixadas no território.
Por que Maria da Fé é tão fria?
De acordo com o consultor climatológico Willian Siqueira, o comportamento do frio na região ajuda a explicar a frequência das geadas. "A gente pensa no frio como se fosse água. Quando a gente joga água em algum lugar, ela escorre para o ponto mais baixo. O frio é a mesma coisa", afirma. Segundo ele, o relevo é determinante para o acúmulo de ar frio nas áreas mais baixas.
"O frio vai se depositar nas áreas de vale, que a gente chama de baixadas, e é ali que vão ser formadas as geadas. Maria da Fé está a 1.300 metros de altitude, porém mais de 90% do município está justamente nessas áreas de baixadas, de vale. Por isso que a cidade tem tantos dias de geadas", completa o especialista.
Impacto na rotina dos moradores
As baixas temperaturas fazem parte do dia a dia dos moradores, que precisam adaptar a rotina durante o inverno. "É difícil. Não dá nem vontade de levantar da cama", conta Dimas Angelo, que trabalha com serviços gerais. O estudante Lucinei Mariano também relata a dificuldade de enfrentar o frio nas primeiras horas do dia. "É complicado acordar cedo com esse tempo. Eu só estou com essa blusa, mas ela é grossa", diz.
Para quem vive há décadas na cidade, as temperaturas influenciam até os hábitos mais simples. Na zona rural, o preparo para enfrentar o frio é ainda mais rigoroso. O produtor Francisco Diogo afirma que precisa reforçar a proteção antes de iniciar o trabalho. "Embora a gente seja nascido e criado aqui em Maria da Fé, a gente não se acostuma com o frio porque cada ano ele vem de uma forma diferente", afirma.
Frio demorou para chegar em 2025
Neste ano, o frio demorou mais a se intensificar. Especialistas apontam que a atuação do El Niño contribuiu para temperaturas mais altas nos últimos meses. Ainda assim, os termômetros já indicam o avanço do inverno na região. A última onda de frio extremo foi registrada em julho de 2021, quando Maria da Fé chegou a -6°C, segundo dados da rede municipal de monitoramento.
Frio favorece cultivo de oliveiras e turismo
Apesar dos desafios, o clima também é um aliado importante da economia local. As baixas temperaturas favorecem o cultivo de oliveiras, que precisam acumular horas de frio para produzir bem. Segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), a Serra da Mantiqueira concentra 25 agroindústrias, sendo quatro delas em Maria da Fé.
O inverno também impulsiona o turismo na cidade, atraindo visitantes em busca do clima de montanha e de experiências ligadas à produção de azeites e cafés especiais. "O legal de Maria da Fé é que tem a parte das oliveiras, dos azeites, tem a parte do café especial. E aqui tem clima de montanha. Então, se você quer passear, visitar, conheça Maria da Fé também por conta do frio. Vale a pena", destaca a consultora turística Rayhani Resende.
No início da semana, dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) colocaram municípios do Sul de Minas entre os mais frios do estado, incluindo Maria da Fé, Monte Verde (distrito de Camanducaia), Varginha, Machado e Passos.



