Haitiano no Acre torce pelo Brasil na Copa após 15 anos no país
Haitiano no Acre torce pelo Brasil na Copa após 15 anos

Enquanto Brasil e Haiti se enfrentam em campo pela Copa do Mundo, uma torcida terá significado ainda mais especial em Rio Branco. Aos 47 anos, o haitiano Saint Charles vai acompanhar a partida nesta sexta-feira (19) e torcer pela Seleção Brasileira, time do país que ele escolheu para reconstruir a vida há 15 anos e que hoje define como lar.

Natural de Gonaïves, no Haiti, Saint chegou ao Acre em 2011, sozinho, em busca de trabalho, de uma vida melhor e da chance de ajudar a família que ficou no país de origem. Atualmente ele trabalha como auxiliar de perecíveis, vive na capital acreana e mantém um compromisso que, segundo ele, foi uma das razões que o fizeram migrar. Todos os meses Saint envia cerca de R$ 500 aos pais.

Decisão após terremoto

Conforme o haitiano, a decisão de deixar o país veio em um dos momentos mais difíceis da história do Haiti. Em janeiro de 2010, um terremoto devastou parte do território haitiano, deixou mais de 300 mil mortos e desencadeou uma onda migratória que mudou a vida de milhares de pessoas. Desde aquele ano, o Acre acabou se tornando uma das principais portas de entrada desses imigrantes no Brasil e, mais de 40 mil pessoas passaram pelo estado, sendo os haitianos a maioria.

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O aumento no número de chegadas fez com que estado enfrentasse momentos de grande fluxo migratório. Em alguns períodos, dezenas de imigrantes eram recebidos por dia e abrigos eram montados pelo governo na época. Em 2013, por exemplo, a entrada de haitianos pela fronteira acreana chegou a triplicar em relação ao ano anterior.

Foi justamente nesse cenário que Saint chegou ao Acre carregando a mesma esperança de milhares de outros haitianos: encontrar trabalho, reconstruir a vida e ajudar a família que permaneceu no país de origem.

Viagem longa até o Brasil

Saint relatou que a viagem até o Brasil foi longa e exigiu a travessia por diferentes países. Primeiro, ele saiu do Haiti de avião com destino ao Panamá. Em seguida, seguiu para o Equador e depois para o Peru. A partir daí, continuou a viagem por terra até chegar ao Brasil pela fronteira do Acre. Trajetos como o percorrido por Saint eram comuns entre haitianos que entravam no país pela fronteira acreana. Muitos cruzavam vários países antes de chegar ao Brasil em busca de oportunidades.

“A situação estava muito difícil depois de 2010. Muita gente saiu do país porque era um momento muito triste. Decidi vir procurar trabalho, uma vida melhor e ajudar minha família. Então passei por Assis Brasil, depois Brasiléia, e de lá vim para Rio Branco. Foi uma viagem longa”, disse.

Recomeço e acolhimento

Diferentemente de muitos imigrantes que chegaram ao Acre apenas de passagem, com destino a outras regiões do país, Saint decidiu permanecer no estado. Desde que ele desembarcou nas terras acreanas, nunca voltou ao Haiti. Segundo ele, a ideia de retornar existe, mas apenas para rever a família.

“Tenho vontade de voltar lá. Talvez eu vá um dia para visitar por um mês, mas depois voltaria para o Brasil”, afirmou. Ao lembrar dos primeiros dias no Acre, ele também destaca o acolhimento que recebeu ao chegar ao estado. Segundo Saint, a ajuda recebida naquele momento foi muito importante para o início da nova vida. “Recebi ajuda, sacolão, comida, roupas e acolhimento. Fui muito bem recebido aqui”, relembrou.

Paixão pela Seleção

Com o passar dos anos, a relação construída com o país ultrapassou o trabalho e a rotina diária. O sentimento de pertencimento aparece até mesmo no futebol. Questionado sobre para quem vai torcer na partida desta sexta-feira (19), Saint não demonstra dúvidas ao escolher um lado: a Seleção Brasileira. De acordo com ele, a admiração pelo time Canarinho também tem um nome em especial. “Gosto muito do Neymar. Ele joga muito bem. Espero que ele faça muitos gols e represente o país”, disse.

Hoje, ao olhar para a trajetória construída longe do país onde nasceu, ele diz enxergar no Acre a oportunidade que buscava quando decidiu partir do Haiti. “Aqui eu consegui trabalhar, consegui melhorar de vida e ajudar minha família. Para mim, o Brasil é uma bênção”, completou.

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